{"id":3970,"date":"2022-08-05T10:34:34","date_gmt":"2022-08-05T13:34:34","guid":{"rendered":"https:\/\/murilorubiao.com.br\/?p=3970"},"modified":"2022-08-15T21:42:41","modified_gmt":"2022-08-16T00:42:41","slug":"os-dragoes-ou-de-como-murilo-rubiao-se-intrometeu-na-minha-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/murilorubiao.com.br\/index.php\/figura-humana\/os-dragoes-ou-de-como-murilo-rubiao-se-intrometeu-na-minha-vida","title":{"rendered":"Os drag\u00f5es, ou de como Murilo Rubi\u00e3o se intrometeu na minha vida"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-post\" data-elementor-id=\"3970\" class=\"elementor elementor-3970\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-8d1e739 elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default\" data-id=\"8d1e739\" data-element_type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-7edd79d\" data-id=\"7edd79d\" data-element_type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-8e28229 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"8e28229\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<p><strong><em>Credo, Domine, sed credam firmius; spero, sed sperem securius.<br \/><\/em><\/strong><strong><br \/>Jos\u00e9 Eduardo Lima Pereira<\/strong><\/p><p><strong>Ato primeiro: Belo Horizonte.<\/strong><\/p><p>Em junho de 1967 eu era um mo\u00e7o desesperadamente apaixonado pela mo\u00e7a mais bonita de minha cidade. Na verdade, era a mo\u00e7a mais bonita do mundo. Para ser mais verdadeiro ainda, e para escancarar o tamanho do meu desespero de amor daqueles dias, afirmo que depois que a conhecinunca mais fui capaz de achar bonita nenhuma outra mo\u00e7a.<\/p><p>Bonita. E inteligente, interessante, engra\u00e7ada, cheirosa, brava que nem o qu\u00ea, teimosa, opini\u00e1tica, enfim, a mulher perfeita, sob a forma de uma menina de dezessete anos e olhos que eu nunca soube bem se eram verdes ou azuis.<\/p><p>Um amor destinado a coisa nenhuma, a mo\u00e7a tinha namorado, namorado firme, desde os seus quatorze anos.<\/p><p>Amor desesperan\u00e7ado \u00e9 dif\u00edcil de viver, mas f\u00e1cil de reconhecer: n\u00e3o se tem vida. O mundo fica cinza, a boca fica ruim, os amigos ficam chatos. A escola, um pavilh\u00e3o de absurdos.<\/p><p>A \u00fanica coisa que ent\u00e3o me libertava do meu mundo de sofrimento era a leitura. Sempre li demais, desde menino lia muito e lia bem, minha casa era uma casa de livros e de leitores. Pois nesse tempo eu consumileitura como se fosse crack. Quem fuma crack tem de fumar crack, sen\u00e3o a vida \u00e9 insuport\u00e1vel. \u00c9 o que dizem. Meu tempo se resumia a fumar papel com os olhos.<\/p><p>Um dia comecei a leitura de um livro de contos e dei de cara com o seguinte:<\/p><p><em>Os primeiros drag\u00f5es que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes. Receberam prec\u00e1rios ensinamentos e a sua forma\u00e7\u00e3o moral ficou irremediavelmente comprometida pelas absurdas discuss\u00f5es surgidas com a chegada deles ao lugar.<\/em><\/p><p>Poucos souberam compreend\u00ea-los e a ignor\u00e2ncia geral fez com que, antes de iniciada a sua educa\u00e7\u00e3o, nos perd\u00eassemos em contradit\u00f3rias suposi\u00e7\u00f5es sobre o pa\u00eds e ra\u00e7a a que poderiam pertencer.<\/p><p>A controv\u00e9rsia inicial foi desencadeada pelo vig\u00e1rio. Convencido de que eles, apesar da apar\u00eancia d\u00f3cil e meiga, n\u00e3o passavam de enviados do dem\u00f4nio, n\u00e3o me permitiu educ\u00e1-los. Ordenou que fossem encerrados numa casa velha, previamente exorcismada, onde ningu\u00e9m poderia penetrar.<\/p><p>N\u00e3o cito mais: pare de ler esta minha hist\u00f3ria e v\u00e1 ler o conto inteiro. O proveito ser\u00e1 maior.<\/p><p>Li aquele conto umas dez vezes, espantad\u00edssimo, eu era um drag\u00e3o. Eu era um daqueles gentis drag\u00f5es sem lugar no mundo, seres plenos de um amor indesejado das gentes. Se eu sofria ao me identificar com os drag\u00f5es, esse sofrimento fazia-me sofrer menos. E saber-me um drag\u00e3o sacudiu minha droga de vida, deu-me vergonha de n\u00e3o enxergar a for\u00e7a deminha fragilidade, a fragilidade de quem ama perdidamente, que \u00e9a for\u00e7a de quem ama perdidamente.<\/p><p>Deus criou os drag\u00f5es no oitavo dia, depois de descansar. P\u00f4s nos drag\u00f5es toda a bondade, todo o amor que no Homem quisera ter posto, e n\u00e3o pudera, embora pudesse tudo. Estabeleceu Deus para Si mesmo uma impossibilidade, Deus escravizou-se ao princ\u00edpio do Livre Arb\u00edtrio de que dotara o Homem.<\/p><p>No oitavo dia, depois de descansar, deleitou-se Deus na cria\u00e7\u00e3o dos drag\u00f5es. E Deus viu que isso era muito, muito bom. E fez-se noite e fez-se dia, e Deus retirou-se de sua cria\u00e7\u00e3o. E nunca mais voltou.<\/p><p>Agora eu era um drag\u00e3o, insubmisso \u00e0s limita\u00e7\u00f5es do humano, sem medo de meu amor. E fui.<\/p><p>Eu me encontrava com a mo\u00e7a linda todos os dias, de segunda a sexta-feira. \u00c9ramos uns amigos que todas as noites lecionavam em uma escola de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos, funcionando em salas cedidas pelos Irm\u00e3os Maristas.<\/p><p>Eu a acompanhava sempre at\u00e9 sua casa, a quatro quarteir\u00f5es dali. Queria acreditar que a cada dia ela caminhasse mais devagar, que \u00e0s vezes a surpreendia a olhar para mim, que ela ouvia o que eu lhe dizia com mais aten\u00e7\u00e3o, que se demorava um pouquinho mais antes de entrar em casa.<\/p><p>Naquela noite eu lhe disse que ia viajar, passar o m\u00eas de julho fora, que ia pedir a um amigo que lhe levasse um livro de contos no dia seguinte, que lesse o conto \u201cOs drag\u00f5es\u201d, que conversar\u00edamos sobre o livro quando eu voltasse. Dei-lhe um beijor\u00e1pido e desajeitado, que me assustou mais que a ela, virei as costas e sumi.<\/p><p>Fui direto \u00e0 casa do Claudinho, amigo bom que j\u00e1 sabia de minha hist\u00f3ria infeliz, disse a ele que levasse o livro, que puxasse assunto, que visse se eu tinha rem\u00e9dio ou se iria viver doente pelo resto da vida.<br \/><br \/>Na semana seguinte recebi um telegrama do Cla\u00fadio, voltei correndo de onde estava, sete anos depois estava casado com a mo\u00e7a mais bonita do mundo. E estarei sempre, enquanto ela me quiser.<\/p><p><strong><br \/>Ato segundo: Lavras do Funil.<\/strong><\/p><p>Em dois de julho de 1974 sa\u00ed de Belo Horizonte rumo a Campos do Jord\u00e3o, em viagem de lua de melcom a mo\u00e7a bonita. Era um estir\u00e3o de estrada, meu pai me disse que conhecia um bom hotel no meio do caminho, um casar\u00e3o colonial bem restaurado na cidade de Lavras, o Vit\u00f3ria, de propriedade do Enio Wilden. E assim fomos.<\/p><p>No fim da tarde, Lavras nos acolhia com faixas de pano penduradas entre os postes, que proclamavam \u201cBEM VINDOS, PARTICIPANTES DO CONGRESSO INTERNACIONAL DE FILATELIA E NUMISM\u00c1TICA\u201d.<\/p><p>Claro que eu n\u00e3o tinha reservas no hotel. Claro que uma novidade dessa natureza j\u00e1 entupira de gente esquisita todos os quatro hot\u00e9is que Lavras do Funil ostentava em 1974, al\u00e9m das pens\u00f5es e quartos por alugar em casas de fam\u00edlia, l\u00e1 e nas redondezas.<\/p><p>Vi o hotel, era mesmo muito bonito o casar\u00e3o branco e azul, sobrado imponente em uma pra\u00e7a arborizada, parei o carro e desci. Chego \u00e0 recep\u00e7\u00e3o, fico conhecendo o Wilden que, simp\u00e1tico, lamenta n\u00e3o poder acolher-nos, nem indicar qualquer outro pouso, mas ou\u00e7o uma voz por tr\u00e1s de mim que diz &#8211; H\u00e1 duas reservas em nome de Murilo Rubi\u00e3o?<\/p><p>Agarrei-me \u00e0quele ultimo recurso improv\u00e1vel que Deus reserva aos n\u00e1ufragos, aos paraquedistas e aos casais em lua de mel: &#8211; O Senhor \u00e9 Murilo Rubi\u00e3o?<\/p><p>Eu sabia que era: o bigode que teimava em quase ocultar o meio-sorriso um pouco torto para o lado direito do rosto -ou seria o esquerdo?-os \u00f3culos pesados que \u00e0s vezes escorregavampor sobre o nariz, a calv\u00edcie que era sua marca desde os tempos de estudante, a pr\u00f3pria cara de um verdadeiro Murilo Rubi\u00e3o. Ele n\u00e3o poderia negar.<\/p><p>N\u00e3o negou e recebeu de volta a frase que nenhum personagem inconsequente de sua fic\u00e7\u00e3o poderia pronunciar: &#8211; Eu sou Jos\u00e9 Eduardo, esta \u00e9 a Beth, estamos aqui por sua causa, casamo-nos ontem por causa de seu livro \u201cOs Drag\u00f5es\u201d e n\u00e3o temos onde passar a noite.<\/p><p>Contei-lhe a hist\u00f3ria toda, que o leitor deste relato j\u00e1 conhece, desde o amor desesperado at\u00e9 as faixas de rua do congresso de numism\u00e1tica e filatelia. A essa altura j\u00e1 nos sent\u00e1ramos na recep\u00e7\u00e3o do hotel, ele me ouvia com ar muito atento, em ansioso sil\u00eancio, at\u00e9 que eu terminei por dizer:- E juro que n\u00e3o inventei esta hist\u00f3ria.<\/p><p>-Ningu\u00e9m inventaria uma hist\u00f3ria dessas, mo\u00e7o. Nem eu a inventaria.<\/p><p>Foiat\u00e9 o Wilden: &#8211; Meu caro, tenho duas reservas. Cedo uma delas para o casal, arranjo-me de alguma maneira, mas o hotel tem de colaborar: seu melhor quarto vai para eles, reservado ou n\u00e3o!<br \/><br \/><\/p><p><strong>Ato terceiro: Belo Horizonte,um quarto de s\u00e9culo depois do beijo roubado.<\/strong><\/p><p>1991, apartamento de Murilo Rubi\u00e3o na Avenida Augusto de Lima. Ele j\u00e1 n\u00e3o conversa, fez traqueostomia, os olhos sorriem e continuam brilhantes e atentos. Muito elegante em seu robe azul.<\/p><p>N\u00e3o posso deixar de v\u00ea-lo como um doce drag\u00e3o. Tamb\u00e9m ele est\u00e1 ali contido,contra sua vontade, manietadona sua capacidade de fazer do irreal um real mais real que o real. Fora do congresso de numismatas, longe das Lavras do Funil,eu o vejo belo e triste como um drag\u00e3o.<\/p><p>Foi a \u00faltima vez que o vi. Deixei-o sem saber se sua esperan\u00e7a se realizou: definira-se uma vez como, entre outras coisas, \u201csem cren\u00e7a religiosa\u201d, acrescentando: &#8211; \u201cAlimento, contudo, s\u00f3lida esperan\u00e7a de me converter ao catolicismo antes que a morte chegue.\u201d.<\/p><p><em><strong>Doleo, sed doleam vehementius.<\/strong><\/em><\/p>\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Credo, Domine, sed credam firmius; spero, sed sperem securius.Jos\u00e9 Eduardo Lima Pereira Ato primeiro: Belo Horizonte. 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