Biografia

*Sandra Nunes

Murilo Rubião nasce em Silvestre Ferraz – hoje Carmo de Minas – em 1º de junho de 1916. Filho de uma família de escritores, chega em Belo Horizonte aos sete anos, onde vive até o final de sua vida, a não ser pelos quatro anos passados em Madri como adido junto à Embaixada do Brasil na Espanha. Foi jornalista, chefe de gabinete do governador Juscelino Kubitschek e fundador, em 1966, do Suplemento Literário do Minas Gerais.

A carreira do escritor mineiro inicia-se com a publicação de poemas. Reconhecendo que não era um bom poeta, desiste do gênero.

Data de 1941 a primeira entrevista de Murilo Rubião. O escritor é entrevistado pela coluna “Quê Prepara”, como representante da “novíssima” geração, sobre seu próximo lançamento. Murilo conta-nos que nem ele “nem Fernando Sabino acreditam que lançará seu livro O Dono do Arco-Íris neste ano”. Além do livro de contos, Murilo diz ter tentado escrever um romance, As Tentativas de João Eleutério, o qual, depois de alguns capítulos terminados e outros já estruturados, “ficou em tentativa”. Também um outro romance, O Motivo, está guardado na gaveta e será publicado posteriormente . Vemos aí uma marca de todas as suas entrevistas e de toda a sua obra: a angústia criativa. O autor afirma que escreve desordenadamente: encontrando um tema, levo semanas pensando nele, martirizando os meus amigos com seus detalhes e tomando nota em maços de cigarro (...). Muito tempo depois começo a lançar no papel o que pensei por longos dias, escrevendo e reescrevendo numa maneira destituída de qualquer método.

Essa angústia é, também, a marca do seu discurso, em 1948 , quando é homenageado, no Minas Tênis Clube, pelos intelectuais mineiros. Murilo traz esse tom de não conseguir se relacionar bem com as palavras: em matéria de agradecimento, continuo experimentando as piores derrotas. As palavras atrapalham-me a memória, e o coração, impotente, clama por uma linguagem que não me ocorre. Assim o foi quando escolhia os que deveriam figurar na dedicatória desse meu pobre Mágico.

Murilo diz ficar muito feliz com a homenagem, pois ninguém melhor do que eu conhece a precariedade e a pouca valia dos meus contos. (...) Os poucos méritos que a eles podem ser atribuídos é de terem sido feitos com grande humildade e não menor paciência (...). Bem sei, irmãos que, ao termo deste almoço, estarei na mesma situação do Ex-mágico da Taberna Minhota: desconsolado e arrependido de não ter falado a vocês de uma porção de cousas maravilhosas que, sem o pressentir, andavam dentro de mim. Lamentarei os lenços amarelos, verdes, azuis, que ficaram esquecidos nos meus bolsos (...).

O gastar muitíssimo tempo com a escrita e a insatisfação com os resultados são outras características de sua obra que voltarão como tema do discurso pronunciado na entrega do Prêmio Literário Oton L. Bezerra de Melo, em 3 de julho de 1948: Falarei pouco, porque, em verdade, tenho pouco que dizer. Alheio à presunção do brilho oratório, que em mim soaria falso... Geralmente, em solenidades como esta, marcadas com grande antecedência, a dilatação do prazo é absolutamente necessária para que o orador selecione cuidadosamente as suas melhores frases e pensamentos. Todavia, comigo, assim não aconteceu: malbaratei todo o tempo disponível, procurando afastar da minha frente as cousas que não deveriam integrar esta oração. E, quando expurgadas as naturais inconveniências, me considerei em condições de escrever um discurso seguro e discreto, o tempo tornara-se escasso e o tema, a ser desenvolvido, de uma pobreza melancólica.

Em 1949, dois anos após a publicação de O Ex-Mágico, Murilo Rubião é entrevistado pelo “Falando Francamente” . Nesse período, encontra-se vivendo no Rio de Janeiro. O escritor é apresentado aos leitores pela sua simplicidade, que se reflete na linguagem de seus contos:
Extremamente cortês, vulto de destaque nas rodas intelectuais de Belo Horizonte e Rio, Murilo Rubião, que não faz mistério dos seus pontos de vista, atrairá o leitor para as suas palavras francas e sem o menor acento de jornalismo, com o qual geralmente se adornam os escritores em frente ao grande público.

Murilo Rubião afirma que a literatura nacional encontra-se em sua fase mais fecunda, e que um “sadio espírito universitário” vem substituir o autodidatismo que foi um entrave para o florescimento de uma autêntica cultura. Acredita que, na prosa, ainda seja difícil superar autores grandiosos do passado, citando Machado de Assis, mas que na poesia isso já ocorre.
Sobre o seu processo de escrita, Murilo reafirma que escreve desordenadamente e que o ofício de escrever lhe é demasiadamente penoso:
Escrevo e reescrevo com grande tenacidade, insatisfeito com a literatura que faço.

Na sua opinião, a crítica literária ainda não é um dos pontos altos da literatura brasileira, apesar de Mário de Andrade, Tristão de Ataíde e Álvaro Lins. Atribui os “erros” da literatura nacional e local à nossa frágil tradição de cultura e ao estado de indigência a que estão condenados os que escrevem no país.
Perguntado sobre os seus livros, responde que tem outros inéditos, mas só publicou um – O Ex-Mágico – e que a sua opinião é a mesma que a de seus inimigos: Escrevi-os nas piores condições, ganhando a vida e com parcas esperanças de encontrar quem editasse.

Nesse período, o autor comenta que está trabalhando no livro de contos Os Dragões , que seria lançado pela Movimento Editorial Panorama. Perguntado sobre sua vida pessoal, o escritor afirma não ter nenhuma religião, mas “procura obedecer os Dez Mandamentos e espera morrer católico”. Seu estado civil é “solteiro sem convicção”.

No mesmo ano, o autor publica, na coluna de João Condé, “Confissões” , um artigo em que nos conta a sua dificuldade em refletir sobre o processo de escrita, sobre o quanto esta lhe custou “em sofrimento, trabalho” e o quanto modificou sua vida. O artigo, bastante ressentido com a incompreensão em relação à sua obra, fala do seu sofrimento na busca da forma exata e do sofrimento de suas personagens, “homens tristes” que vivem a solidão e espelham os que vivem à margem da vida, amealhando cruzeiros, especulando com a falta de transportes, com a alta dos imóveis ou com as aberrações da inflação.

Murilo também nos fala da dificuldade em publicar O Ex-Mágico. O livro é “finalizado” em 1940, mas o escritor mineiro só consegue um editor em 1946. Durante esse período, seu livro não deixou de sofrer as “metamorfoses” que são a sua marca. O título também passara por transformações antes de chegar a ser O Ex-Mágico: Elvira e Outros Mistérios, Girassol Vermelho, Os Três Nomes de Godofredo, O Dono do Arco-Íris. Os contos iam sendo substituídos e reescritos a cada tentativa de publicação. Segundo o escritor, há um trabalho tão árduo de escrita antes de publicar esse livro que seus contos, se reunidos, encheriam cinco volumes. Comentário bastante irônico para um escritor cujos Contos Reunidos se compõem de 33 contos.
A voz do escritor volta em um jornal de Vitória, após o lançamento de Os Dragões e Outros Contos e passados vinte anos do lançamento de seu primeiro livro, O Ex-Mágico. Murilo é apresentado por Manuel Lobato como um escritor que se destaca não apenas pela sua consciência literária, mas pela técnica original de suas criações. Nessa entrevista, o autor fala da origem de seus contos. Murilo Rubião dirá que todos eles estão intimamente ligados à infância; são as histórias lidas e ouvidas nesse momento de sua vida que permeiam a sua escrita literária. Sua influência principal vem das histórias recriadas e contadas na infância pela babá (e não de Kafka, como a crítica ressaltou na época do lançamento de seu primeiro livro, em 1947); histórias que traziam o estranho como elemento. A metamorfose é uma das coisas mais antigas que há. Eu cheguei à metamorfose através das histórias de feiticeiras, capazes de transformar as pessoas, de que está plena a nossa tradição oral...

O escritor tem “especial desapreço” pela ficção científica; lia os livros de Júlio Verne com pouquíssimo encantamento. Nunca lhe sensibilizaram “os santos com seus milagres”, nem os homens de outros planetas.
Vivo apaixonadamente os mistérios insondáveis do nosso pequeno mundo, povoado por gente frágil e egoísta, mas capaz de delicadas mágicas.

Ao ser questionado sobre quem levaria para uma estrelinha, como o Pequeno Príncipe, Murilo nos traz toda uma história de leitura:
Levaria o próprio Pequeno Príncipe, os contos de Andersen, As Mil e Uma Noites, O Homem que Perdeu a Sombra, de Chamisso; The Turn of the Screw, de Henry James; Les Enfants Terribles, de Cocteau; a Bíblia, as histórias mitológicas, os principais romances e contos de Machado de Assis; O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse; As Almas Mortas e O Nariz, de Gogol; Os Três Mosqueteiros, de Dumas; El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha; a Lírica de Camões; as poesias de Fernando Pessoa e Drummond; O Processo, de Kafka; poesia e prosa de Poe; As Histórias do Oeste, de Bret Harte, e um conto de Xavier Bontempelli, cujo nome nem me lembro mais, apesar de ter sido a coisa mais linda que já li.

O autor afirma ser tributário de seu pai, que era escritor, e de Mário de Andrade. Murilo Rubião mandara ao escritor paulista alguns de seus contos, e Mário lhe sugerira a leitura de Kafka, por encontrar entre eles certa semelhança de estilo. Murilo afirmará que discordar do caminho literário “vigente” lhe apresentou o “mais estranho escritor deste século: Franz Kafka”. Lendo-o, descobre que não estava sozinho na estrada. Ao ler O Processo, ficou deslumbrado por sentir que eram “irmãos, da mesma família, e por acaso!”. Por outro lado, porém, para o escritor mineiro, sua maior influência talvez tenha sido Machado de Assis – até mesmo no fantástico –, influência que vai para a sua leitura da vida. Quando indagado sobre o motivo de não ter filhos, responde com uma frase tirada de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “não tive filhos, não plantei árvores, apenas arbustos”. Segundo ele, o que o atrai nas constantes releituras que faz de Machado são seu pessimismo e ceticismo. Murilo se considera, como Machado, um cético em relação à humanidade.
Murilo diz também ter influência da Bíblia, inclusive no título de seu último livro, A Diáspora : de tanto ler a Bíblia, às vezes ao escrever uma estória eu me lembrava de uma citação ou capítulo que tinha alguma relação com o que estava escrevendo.

Mais uma vez, Murilo anuncia duas novelas estruturadas e rascunhadas, e um livro de contos bem encaminhado: “este poderá sair no ano que vem ou daqui a dez anos”. Murilo diz que gostaria de mudar a linha dos seus trabalhos, “mas a idade o impede”.
Em 1979, o Suplemento Literário, jornal fundado pelo próprio escritor em 1966, publica entrevista dada a Mirian Chrystus: “o fantástico tem como base a própria realidade, que é fantástica” .

Aqui, Murilo explicita sua falta de pressa em escrever seus contos. (“O convidado”, iniciado em 1945, só ficou pronto 26 anos depois; esse foi o conto que mais tempo tomou em sua escritura.) O autor brinca que a metamorfose faz parte de sua vida – até mesmo a cidade onde nasceu já mudou de nome três vezes: Nossa Senhora do Carmo do Rio Verde, Silvestre Ferraz e, atualmente, Carmo de Minas.

Nessa entrevista já se fala do autor como o precursor do realismo fantástico e de sua semelhança com escritores hispano-americanos. A primeira leitura que Murilo fez de Borges não lhe agradou: o escritor argentino pareceu-lhe “muito preso às ciências ocultas, à numerologia, à cabalística”. Para ele, é Kafka quem completa o seu “quadro fantástico”.

O conto “O Ex-Mágico” foi publicado, em 1946, numa antologia de contos brasileiros na Argentina. Murilo Rubião diz ter iniciado seu trabalho antes dessa corrente hispano-americana: Antes de Borges fazer contos eu já tinha publicado na Argentina. Ele não deve ter lido, porque os argentinos não nos levam em conta. Mas isso prova que eu comecei antes. Não fui influenciado por eles. Mais fácil é ter ocorrido o contrário.

O autor reconhece que não é muito conhecido na América Latina, diz que seus livros tiveram traduções em outros países, mas não nos de língua espanhola. “Só agora publicarei o primeiro livro em espanhol, em Barcelona”. Diz que só Jorge Amado consegue viver de literatura. “Se viver de literatura já é difícil, ainda mais de literatura fantástica.”

O próprio Murilo afirma que muita coisa foi dita e publicada, mas não que houve compreensão de sua obra por parte da crítica. No início, sua literatura foi comparada com a de Kafka; realmente, elas têm muito em comum, mas na verdade ambas trabalham com temáticas que fazem parte do universo literário de modo geral. Não parece ao autor que tenha havido uma inovação efetiva: Essa coisa de o real transformar-se em irreal já existia nos contos de fadas, não foi inventado pelos latino-americanos. Está na mitologia grega, em Allan Poe. Escrevo na linha de Kafka, mas ele não inovou em nada. A metamorfose está aí, está na mitologia grega. Kafka pode ter tido essas influências, e também do Antigo Testamento, que é leitura obrigatória dos judeus. E também de outros escritores da admiração dele, como Edgar Allan Poe, que é um precursor do fantástico, como outros autores, numerosos, do século XIX. Eu tive influência de vários desses escritores – Poe, contos de fadas.

José Saramago, com A Jangada de Pedra, refuta a denominação literatura fantástica, e diz que há elementos de magia desde que a literatura existe. Murilo concorda com isso, e diz que, possivelmente, isso explique o fantástico dos hispano-americanos. Para ele, D. Quixote é um exemplo dessa literatura fantástica. “Não há outro escritor de língua espanhola tão fantástico quanto Miguel de Cervantes, com seu D. Quixote”.
Murilo define o realismo fantástico como o fantástico que tem como base a própria realidade, o cotidiano. Que por sua vez é fantástica. Você quer algo mais fantástico do que a própria vida? Ou a própria morte?

O autor acredita que, para a leitura de seus contos, é preciso
saber ler, ter a disposição de aceitação e não de compreensão puramente objetiva.

Murilo Rubião aceita com tranqüilidade a denominação “realismo fantástico, realismo mágico” para a sua literatura. E acredita que a aceitação de sua obra pela crítica tenha vindo da leitura do realismo fantástico dos hispano-americanos:
alguns críticos compreenderam, mas a maioria não teve muita sensibilidade. Quando saiu o primeiro livro, O Ex-Mágico, todo mundo achava meu trabalho um negócio muito estranho.

Na década de 80, O Pirotécnico Zacarias já ultrapassa os cem mil exemplares. A dificuldade em escrever seu primeiro livro ainda é tema importante em uma entrevista de 1988. Murilo Rubião reflete sobre seu processo de escrita e suas profissões:
Comecei a ganhar a vida cedo. Trabalhei em uma baleira, vendi livros científicos, fui professor, jornalista, diretor de jornal e de estação de rádio (...). Hoje sou funcionário público.

Muitas vezes, pelas citações aos seus personagens, temos a sensação de que autor e obra se confundem. Murilo nos fala de sua profissão com a mesma frase de O Ex-Mágico, e ao leitor, após conhecer seu processo de criação e a angústia que o rege, vem o desejo de complementá-la: “e este não é meu desconsolo maior” . Sua solidão é a mesma de suas personagens, “homens solitários” que buscam o intangível. A falta de esperança e suas buscas se mesclam; o sofrimento do autor parece escorrer pela caneta e contaminar suas frases. O tom melancólico que emana de suas afirmações remete-nos aos seus contos: Muito poderia contar das minhas preferências, da minha solidão, do meu sincero apreço pela espécie humana, da minha persistência em usar pouco cabelo e excessivos bigodes. Mas, o meu maior tédio é ainda falar sobre a minha própria pessoa.

O conto “Marina, a Intangível”, um dos preferidos do autor, é uma espécie de biografia:
Houve um período em que eu trabalhava num jornal que era parecido com o do conto. Eu trabalhava de dia e de noite. De noite eu ficava sozinho...

Murilo era responsável por todas as notícias que houvesse após as 22 horas. Era período de guerra e, muitas vezes, mesmo não acontecendo nada, era obrigado a ficar de plantão, sozinho e sem ter o que fazer. Então, fazia poesia . Perto do jornal onde trabalhava, havia uma capela, a de Santo Antônio. O jornal ficava num prédio antigo, com um quintal e um canteiro de margaridas secas... Marina existiu realmente; chamava-se Maria da Conceição, e era a paixão de um colega jornalista. A formação religiosa de Murilo também influenciou esse conto. Nossa Senhora sempre esteve muito presente na vida do autor, “mais que Jesus; e Marina é Nossa Senhora”. Toda essa “coisa feérica” é fruto de seu passado religioso. O poeta José Ambrósio pode ser considerado o duplo do autor, seu espelho.
A linguagem do absurdo, ou do fantástico, foi a forma que escolheu para denunciar a realidade. A vida sem o insólito, para Murilo Rubião, é absurda e louca:
é mais fácil aceitar o onírico que os absurdos do real. O irreal e a fantasia parecem ser mais verdadeiros que o cotidiano.

Suas personagens são vistas pelo autor como escravas da sociedade; eles a denunciam, mas não conseguem libertar-se dela. Nos seus contos não há a possibilidade de futuro, o tempo é aquele presente, aquele que se está vivendo; não há a possibilidade de abertura para um outro tempo e para a mudança. Quando indagado sobre a falta de esperança das suas personagens, explica que, quando se perde Deus , perde-se toda a esperança, toda a possibilidade de ter uma dimensão de Eterno: Essa perda da eternidade na minha literatura é uma das causas dessa falta de esperança.

A falta de esperança refletida em seus contos é um sentimento que compartilha com suas personagens. Com essa falta, todas as buscas da felicidade e da serenidade tornam-se infrutíferas.
Eu perdi a eternidade e perdi também a possibilidade de alcançar a felicidade em vida, na qual, aliás, passei a não acreditar.

O que se tem, segundo o autor, são alguns grandes momentos de felicidade; a vida, contudo, vai “nos consumindo”.
Murilo Rubião teve câncer e ficou quase dois anos lutando com a doença. Fez tratamento radioterápico, teve uma melhora, fez uma cirurgia e piorou. Depois de algum sofrimento, chegou a melhorar novamente. A respeito dessa fase, ele dirá: Tudo se passou como nos contos. Se eu fechasse os olhos, poderia dizer, isso tudo é literatura mesmo, e de mau gosto.

A dúvida sobre sua cura, brinca o autor, veio somente quando houve um almoço em sua homenagem e vieram escritores como Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. Já pensara no suicídio, “como todo mundo”, mas sem muita convicção. Para ele deve-se viver “até onde der”. Quando questionado sobre o que a vida tem de bom, responde: “Basta viver, nada mais importa”.

A doença trouxe uma mudança. Mudou-lhe inclusive a forma de se vestir. Segundo Mirian Chrystus , o câncer parece ter mudado a vida do escritor e o deixado mais alegre, com outra vontade de viver; passou do terno cinza e sapatos de verniz preto para a camisa esporte e tênis.

Mas Murilo acredita que as mudanças na vida são mais externas, o essencial permanece intocado. Rememora, então, sua personalidade desde a infância e se descreve como “um menino sociável [mas ao mesmo tempo] independente, que cultiva a solidão”. Um menino que brincava, jogava bola, mas precisava do seu momento de leitura. E também já tinha as suas angústias. Sabia que era diferente, mas não o confessava a ninguém. “Isto só eu sabia.”
Murilo inicia suas leituras pela biblioteca do pai, que também era poeta. Depois a de um colega. “E os livros iam sendo devorados.” Seu pai exige que leia os clássicos: “Frei Luís de Souza, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco”. Essas leituras foram um suplício para ele, com o pai vigiando.
A sua impressão do pai era a de um homem austero, bastante cerimonioso, inclusive no relacionamento com os filhos. A mãe, filha de fazendeiros, nunca beijou seus filhos, mas isso não o incomodava. Não era costume da época, “era considerado uma frescura”.

Foi jogador-zagueiro do Goitacazes, time de rua. Participou também do juvenil do América. “Como tinha de me formar em alguma coisa, fui estudar Direito, curso ideal para quem não tinha vocação alguma.” Abandonou a profissão após um ano e começou a trabalhar como jornalista no Folha de Minas. Para o autor, é a fase da “literatura braba”: o jornal era o ponto de encontro de todos os que escreviam, as críticas eram impiedosas e as discussões constantes. Faziam parte de seu grupo João Dornas Filho, Jair Rebelo Horta, Fritz Teixeira Salles e Fernando Sabino, o mais jovem de todos.
Aí surgem os primeiros contos de Murilo Rubião. O grupo aprova e o aconselha a deixar o poeta e ficar com o contista. Passam pelo grupo Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Cyro dos Anjos, Emílio Moura. As gerações estavam misturadas.

As mulheres não faziam parte dessa roda. Segundo o autor, “não tinham muito assunto (...) era só possível o relacionamento amoroso”. Raquel Jardim é citada como uma mulher que marcou o grupo por sua personalidade forte e inteligência.
Murilo acreditava-se um socialista, mesmo tendo contato com os comunistas. “Um pouco por moda, talvez. E havia uma preocupação com a liberdade, com o povo. Tudo muito romântico, meio lírico.” Após os trinta anos de idade, Murilo decide viver para a literatura. Para ele, casar, ter filhos, significava uma sobrecarga econômica.

Mais uma vez, fala das suas reescritas e dos contos perdidos: “A Ilha”, “A Cidade Mutilada” e “A Mulher que Fugiu de Bratislava”. Murilo reescreve sempre pois, segundo ele, um escritor mais velho, quando pára de escrever, é porque está próximo do fim:
Por isso é que eu reescrevo sempre. Para esticar a vida mais um pouco.

A incapacidade de comunicação das suas personagens coincide com a sua própria. Murilo diz que nunca conseguiu se aproximar muito das pessoas. A temática da esterilidade está relacionada à ausência de comunicação, mas também ao fato de não ter tido filhos, pois ele sempre acreditou que o “destino humano é incerto e desolador”. A metamorfose, temática importante dentro da obra do autor, é vista por ele como uma forma de fuga para se conseguir o que não se consegue na realidade.
A metamorfose é essa incapacidade que temos para resolver os nossos problemas na vida.

É, contudo, também uma forma de esterilidade, já que a realidade não se altera nem com as metamorfoses.
Suas epígrafes são imprescindíveis para a leitura de seus contos. Todas elas foram escolhidas posteriormente para que espelhassem fielmente o conto a que se referem.
Uma das coisas que eu queria atingir era exatamente a clareza porque, sabendo que os meus contos eram difíceis, não queria perturbar o leitor com a linguagem. (...) Assim, procuro fazer com que o leitor atente apenas para o simbolismo da minha história. As palavras devem ser as mais transparentes possíveis, para que o leitor não sinta a sua presença... Elas devem ser instrumentos da minha história, pois o fantástico exige isto. Essa clareza de linguagem é muito pertinente ao fantástico...

A circularidade de seus contos, ou essa estrutura que se repete ao infinito, é uma tentativa de satisfação do desejo de não terminar a história:
Essa circularidade dos meus textos permite que eu não termine a história, que ela continue. E continua sempre. Ela vai continuar no leitor, terá uma outra vida, diversa da que eu lhe dei.

Murilo sempre acreditou não ser necessário situar cronologicamente ou geograficamente seus contos; suas personagens também não podem ser “localizadas”: aparecem sem passado, sem história própria e sem futuro. Vê sua forma de criar como a de um pintor. As coisas vêm naturalmente, depois “as cores são acentuadas”, num processo de escrita bastante demorado. O conto só fica pronto para ir ao leitor quando ele não consegue mais introduzir modificações.
Em 1989 , Murilo Rubião, que não publicava desde 1978, afirma novamente que está preparando um novo livro: A Diáspora. O trabalho teve que ser interrompido, pois os originais de vários contos foram perdidos em um táxi. Com a perda, ficou bastante desanimado para recomeçar. Depois, seu tratamento de saúde, que se prolongou por dois anos, também o afastou do conto.
A perda, segundo o entrevistador, parece coerente com a literatura do realismo fantástico. A questão é: “o que fez o autor levar para um táxi o único original de uma obra?”. Murilo transportava o original para o seu apartamento do centro, em função de um reforma que havia feito no apartamento da Serra, onde morava. Como havia muitas sacolas, acredita que a que estava com o original deve ter caído. Chegou a colocar umas notinhas em jornais, mas pensa que quem encontrou “aqueles papéis, cheios de rabiscos, deve ter jogado num lote vazio”.
O livro de contos não é, à época da entrevista, seu único projeto: o autor está terminando uma novela. Há uma pressão das editoras para que o livro saia, em função da sua demora em escrever. Afirma que o livro sairá “no próximo ano”. A novela terá cerca de cem páginas e se chamará O Senhor Huber e o Cavalo Verde. “É uma história bem mágica.” O presidente de uma companhia, “por força das circunstâncias”, é obrigado a sair com um cavalo pelo mundo afora.
Com esta novela estou saindo da preocupação da síntese do conto, porque se numa novela, ou romance, você é sintético, fica uma coisa muito esquemática. Este é um texto mais solto.

Murilo Rubião define-se como um escritor que escreve muito, mas aproveita pouco e publica pouco, pois considera uma inutilidade uma obra extensa. Para ele esta seria a ambição de todo escritor, mas na verdade somente um ou dois livros são realmente bons.
Tomemos o exemplo de Machado de Assis. A obra dele é muito importante, mas apenas três romances são obras primas: Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. (...) Isto no caso de Machado de Assis, que é um gênio. Do Mário de Andrade, cinco ou seis livros (...) dentro em pouco vamos citar apenas um, Macunaíma, que é o mais importante.

Seu domínio da vontade de colocar muitas obras “na rua” vem por uma certa insatisfação com a sua literatura. Para o autor, só se atinge um certo grau de qualidade trabalhando-se muito e dando o melhor de si, sem se preocupar em publicar um livro a cada dois anos.
Sua insatisfação com a própria literatura surge após a publicação d’O Ex-Mágico, em 1947. O autor fez várias releituras e verificou que “tinha tanta coisa ruim” que retirou três contos e reescreveu outros 12 “violentamente, cortando parágrafos e até páginas inteiras”. O mesmo foi feito com Os Dragões. Mais tarde, O Pirotécnico Zacarias aparece com textos retirados de Os Dragões e O Ex-Mágico, novamente reelaborados. Depois, O Convidado e A Casa do Girassol Vermelho, com contos de várias épocas, também reescritos. “Na realidade, eu tenho três livros publicados.”
Murilo Rubião afirma que são somente 25 contos, pois abandonou vários de Os Dragões e de O Ex-Mágico. Acredita que após a sua morte esses contos serão publicados, “mas aí já não será uma iniciativa minha, uma coisa de convicção. Só espero que não publiquem o que saiu em jornais, revistas”, pois esses contos não teriam passado pelo seu processo de reescrita.

A obra de Murilo Rubião encurta com o tempo; “e se fosse publicar toda a obra em apenas um livro o faria, retirando a maioria dos contos”. Quando questionado sobre se esse processo de reescrever seus contos é infinito, o autor responde que jamais fica satisfeito. O único livro que republicaria sem reescrita é O Convidado; talvez mexesse, porque trabalhei muito para montar o livro, mas não para as outras edições. Em O Pirotécnico Zacarias e A Casa do Girassol Vermelho eu não mexeria, mas apenas por tédio, porque todas as vezes que meus contos foram publicados saíram com modificações – reedições em livros, jornais, de um livro para outro, coletâneas etc.

Mesmo que os contos de O Convidado sejam mais longos que os dos outros livros, Murilo diz que segue a teoria de que não há nada que não se possa dizer em poucas páginas. Algo que enchesse muitas páginas pode ser reduzido até chegar à medida certa.

Sobre uma certa tendência da literatura brasileira para o romance policial, com João Gilberto Noll, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Murilo diz que não há tradição entre nós, só tentativas isoladas. No caso de Rubem Fonseca, acredita que não seja herança literária, e sim de profissão. “Ele foi delegado de polícia. (...) O conto policial dele é bom porque ele é um grande escritor.”
O tempo não preocupa mais Murilo Rubião, “se der tempo, publico os contos, as novelas que estou preparando. Se não der, azar...” A sua tranqüilidade vem do fato de sua literatura, para ele, não ser tão importante: Até agora a literatura foi para mim um jogo, que eu joguei sério, mas se perdesse não haveria problema. Fiz o melhor que pude, mas isso não é suficiente, é preciso ter sorte e uma vocação.

Júlio Assis e Harildo Ferreira chamam o autor de pai do gênero “realismo mágico” na América Hispânica. Murilo Rubião diz que o escritor (ele mesmo) nasceu pela poesia. Como acreditava que não tinham valor, rasgou os dois livros que havia escrito e passa a escrever contos. Novamente fala da novela que está escrevendo. Diz ter sido recusado por oito editoras, até que seu terceiro livro foi publicado.
Mergulhar no passado é uma característica intrínseca de Minas e marcante na literatura. Após essa afirmação de Murilo, o entrevistador pergunta se “a criação do realismo mágico foi o caminho para escapar dessa ligação ao passado”. Murilo diz que, mesmo com esse vínculo com o passado, Minas sempre teve escritores inovadores como Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Guimarães Rosa, Fernando Sabino. O autor diz que sua literatura não reflete a tradição literária mineira, “mas tem muito a ver com o mistério comum das nossas montanhas”.

Para ele, “a última vanguarda mineira ainda é Murilo Mendes, com o surrealismo na poesia”, e não há muitas inovações nos pós-modernos, só uma tendência de consolidação de conquistas anteriores.

O autor acredita que Minas é o celeiro da literatura nacional. Desde os inconfidentes, que dominaram e criaram a tradição, “não houve uma época em que Minas deixasse de lançar escritores maiores”. Em todas as gerações era costume reunir-se em cafés, bares ou homenagens, para troca de livros ou para mostrar originais. Assim dava-se o surgimento dos grupos de escritores.
Nessa entrevista, fala novamente da novela e do livro de contos que pretendia lançar “até o final do ano” (em agosto de 1989, ele havia dito que entregaria no início do próximo ano, 1990).

Quando questionado novamente sobre Borges e Kafka, diz que sua influência vem da Bíblia e de Machado de Assis. “Elas me acompanham a vida inteira através de releituras constantes, a ponto de decorar trechos.” A herança de Machado de Assis é a ficção da Bíblia, o ambiente mágico. Para ele, o “Apocalipse” é “um manual de surrealismo”. Só foi ler Borges em 1960: nos anos de efervescência, décadas de 40 e 50, ninguém sabia da existência dele por aqui.

Sobre a constante citação dos salmos bíblicos em seus livros, responde que é fruto de um excesso de leituras da Bíblia:
Ela me impregnou de tal maneira que sempre começa ou continua uma história para mim.

Não se considera religioso, porém; desde a década de 40 é cético:
Me impressiona na Bíblia principalmente a força dos profetas e a lição literária do “Eclesiastes” no “Cântico dos Cânticos”.

Para o autor, o livro de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, tem longas passagens de realismo mágico. Cita como exemplo a passagem sobre o rio S. Francisco, o velho Chico, um trecho de poesia e ambiente mágico intensos. Grande Sertão é completo. (...) E que linguagem! Não vejo possibilidade de um continuador.

Essa impossibilidade de continuação seria devida ao esgotamento de um caminho, de um padrão literário de forma inovadora.
Para Rubião, as outras artes também influenciam a literatura, tanto quanto são influenciadas por ela. Ele não faz nenhum paralelo com sua obra, mas cita o surrealismo como um exemplo.
Num balanço do panorama da década de 80 sobre a leitura, acredita ter havido uma queda. Há uma falta de debate das idéias, que não sabe se coincide com a ascensão da televisão. Diz que o mercado externo também não é bom para a literatura brasileira, pois esta é desconhecida na América Latina e os hispano-americanos são publicados aqui tardiamente.
O processo de reescrita de Murilo Rubião cessa definitivamente em 1991; o autor morre em 16 de setembro, quatro dias antes da inauguração de uma exposição com vídeos e conferências em homenagem à sua obra.
De suas entrevistas, fica-nos mais forte a explicação do autor sobre o fantástico em suas obras. O elemento fantástico é parte de suas reminiscências; enquanto nos preocupamos em defini-lo, Murilo diz que nada mais são do que histórias de sua babá. O fantástico serve como elemento denunciador da realidade, ponto em que coincide com a opinião de alguns de seus críticos. Essa, porém, não é a única coincidência entre a visão da crítica e a do autor. Alguns autores apontaram para a forte crítica social que traz a obra do escritor mineiro. Isso parece se confirmar quando Murilo cita que seus “homens” espelham os que “vivem à margem da vida”. A procura pela clareza e o gesto de escrever e reescrever, a solidão, a desesperança e a circularidade são pontos observados tanto pela crítica quanto pelo próprio autor.

Não sabemos quem influencia a leitura de quem. Se a crítica transforma o olhar de Murilo com suas críticas ou se Murilo transforma o olhar desta com seus comentários. De qualquer forma, achamos interessante trazer também a visão do escritor sobre sua obra. Vemos aqui Murilo Rubião leitor e crítico de si mesmo.
Começaremos por um artigo seu publicado na coluna de João Condé, denominada “Confissões”, onde Murilo conta a dificuldade em refletir sobre seu livro O Ex-mágico e sobre o que lhe custou “em sofrimento, trabalho” e o quanto modificou sua vida. O artigo, bastante ressentido e ao mesmo tempo poético, fala do seu sofrimento na busca da forma exata e do sofrimento de suas personagens, “homens tristes” que vivem a solidão e espelham os que “vivem à margem da vida, amealhando cruzeiros, especulando com a falta de transportes, com a alta dos imóveis ou com as aberrações da inflação”. Murilo terminou O Ex-mágico em 1940, mas só consegue editor em 1946. Neste período seu livro não deixou de sofrer as metamorfoses que são a marca do escritor. Antes de chegar a ser O Ex-mágico, teve outros títulos: Elvira e Outros Mistérios, Girassol Vermelho, Os Três Nomes de Godofredo, O Dono do Arco-Íris. Os contos também iam sendo substituídos e reescritos a cada nova tentativa de publicação. O autor afirma que para publicar este livro ele escreveu contos que reunidos encheriam cinco volumes. Observação irônica para um escritor cuja obra integral é composta por 36 contos.
No seu “Auto Retrato”, Murilo fala do tempo que levou para escrever seu primeiro livro, O Ex-mágico, e de suas profissões, terminando com uma frase que parece tirada de um de seus contos: “Comecei a ganhar a vida cedo. Trabalhei em uma baleira, vendi livros científicos, fui professor, jornalista, diretor de jornal e de estação de rádio (...). Hoje sou funcionário público” (grifo nosso). A entrevista é encerrada com outra frase que também parece tirada de seus livros, pelo grau de peso e melancolia: “Muito poderia contar das minhas preferências, da minha solidão, do meu sincero apreço pela espécie humana, da minha persistência em usar pouco cabelo e excessivos bigodes. Mas, o meu maior tédio é ainda falar sobre a minha própria pessoa”.
Após este pequeno Autorretrato, a entrevista começa com questões sobre o fantástico, os autores que o influenciaram, a relação da sua obra com a do escritor tcheco Kafka, seu processo de escrever e reescrever seus contos, sua doença, suas personagens, a temática da metamorfose e da esterilidade das ações, a relação das epígrafes com os contos, a construção de imagens de grande visibilidade, a atemporalidade dos contos, a falta de passado e futuro de suas personagens.

Sua influência principal, segundo ele, vem das histórias recriadas e contadas pela babá, e não de Kafka, como a crítica ressaltou no momento de lançamento de seu primeiro livro O Ex-mágico, em 1947. Histórias que traziam o estranho como elemento. “Os Dragões” é um de seus trabalhos que é marcado por estas reminiscências. A metamorfose é “uma das coisas mais antigas que há. Eu cheguei à metamorfose através das histórias de feiticeiras, capazes de transformar as pessoas, de que está plena a nossa tradição oral...”. Murilo diz que não conhecia Kafka e que se sentiu deslumbrado ao ler O Processo, pois sentiu que eram irmãos, da mesma família, “E por acaso!” Só veio a conhecer a obra do escritor tcheco após escrever o seu primeiro livro, por intermédio de Mário de Andrade. Depois disso, aproveitará coisas de Kafka e da sua técnica - como a imposição do irreal sobre o real - para a sua obra. A maior influência talvez tenha sido de Machado de Assis; até mesmo o fantástico. Quando indagado por não ter filhos responde com uma frase tirada de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “não tive filhos, não plantei árvores, apenas arbustos”.

“Marina, a Intangível” é um de seus contos preferidos; e também autobiográfico: “Houve um período em que eu trabalhava num jornal que era parecido com o do conto. Eu trabalhava de dia e de noite. De noite eu ficava sozinho...”. Murilo era responsável por todas as notícias que houvessem após as 10 horas. Era período da guerra; algumas vezes não acontecia nada e ele era obrigado a ficar de plantão, sozinho e sem nada para fazer. Então, fazia poesia. Perto do jornal onde trabalhava havia uma capela, a capela de Santo Antônio. A igrejinha, o jornal que ficava num prédio antigo com o quintal e o seu canteiro de margaridas secas... Mesmo a Marina existiu realmente, chamava-se Maria da Conceição e era a paixão de um colega seu, jornalista. Eram ambos de Nova Lima. Sua formação religiosa também influenciou este conto. Nossa Senhora sempre esteve muito presente na vida do autor, “mais que Jesus; e Marina é Nossa Senhora”. Toda essa “coisa feérica” seria fruto desse passado religioso. O poeta José Ambrósio é o seu duplo, seu espelho.

Ao responder sobre a incoerência do real, o escritor diz que a vida sem o insólito é absurda e louca, que é mais fácil aceitar o onírico que os absurdos do real, pois o irreal e a fantasia parecem ser mais verdadeiros que o cotidiano. Murilo dirá que a linguagem do absurdo, ou do fantástico, foi a forma que ele escolheu para estar denunciando a realidade. O autor vê suas personagens como escravos da sociedade, eles a denunciam, mas não conseguem libertar-se dela. Nos contos não há a possibilidade de futuro, o tempo é aquele presente, aquele que se está vivendo. Não há a possibilidade de abertura para um outro tempo e logo, para a mudança.

Quando indagado sobre a falta de esperança das suas personagens explica que quando perde Deus, perde toda a esperança, toda a possibilidade de ter um Eterno: “Essa perda da eternidade na minha literatura é uma das causas dessa falta de esperança”. A falta de esperança se converte em profecia, e o poeta é o profeta. A falta de esperança de suas personagens em conseguir alterar a sua realidade faz com que todas as buscas da felicidade e da serenidade tornem-se infrutíferas. Ele diz que essa falta de esperança é a mesma que está em seu corpo. “Eu perdi a eternidade e perdi também a possibilidade de alcançar a felicidade em vida, na qual, aliás, passei a não acreditar”. O que se tem, segundo o autor, são grandes momentos de felicidade; a vida, contudo, vai “nos consumindo”. Murilo Rubião teve câncer e ficou quase dois anos lutando com a doença. Fez tratamento radioterápico, teve uma melhora, fez uma cirurgia e piorou novamente. Depois de algum sofrimento chegou a melhorar novamente. O entrevistador observa que a sua doença teve a estrutura circular de seus contos. Murilo responde: “Tudo se passou como nos contos. Se eu fechasse os olhos, poderia dizer, isso tudo é literatura mesmo, e de mau gosto”.
A falta de comunicação das suas personagens coincide com a sua própria falta de comunicação. Murilo diz que nunca conseguiu se aproximar muito das pessoas. A temática da esterilidade tem relação com a incapacidade de comunicação, mas também está ligada ao fato de não ter tido filhos, pois ele sempre acreditou que o “destino humano é incerto e desolador”. A metamorfose, temática importante dentro da obra do autor, é vista como uma forma de fuga para se conseguir o que não se consegue na realidade. “A metamorfose é essa incapacidade que temos para resolver os nossos problemas na vida”. Contudo, é também uma forma de esterilidade, já que a realidade não se altera nem com as metamorfoses.

O entrevistador também tocará no ponto das epígrafes como espelho temático dos contos. Murilo concorda que a epígrafe é imprescindível ao conto. Todas elas foram escolhidas posteriormente para que espelhassem fielmente o conto.

Ao ser questionado sobre esta busca constante da clareza, ou sobre a “metamorfose da reescrita”, responderá que não é apenas a busca da clareza, mas “uma das coisas que eu queria atingir era exatamente a clareza porque, sabendo que os meus contos eram difíceis, não queria perturbar o leitor com a linguagem. (...) Assim, procuro fazer com que o leitor atente apenas para o simbolismo da minha história. As palavras devem ser as mais transparentes possíveis para que o leitor não sinta a sua presença... (grifo nosso). Elas devem ser instrumentos da minha história, pois o fantástico exige isto. Essa clareza de linguagem é muito pertinente ao fantástico...”

A circularidade de seus contos, estrutura que se repete ao infinito, é para com ele, uma tentativa de satisfação do desejo de não terminar a história: “Essa circularidade dos meus textos permite que eu não termine a história, que ela continue. E continua sempre. Ela vai continuar no leitor, terá uma outra vida, diversa da que eu lhe dei.”

Murilo sempre sentiu a necessidade de não situar cronologicamente ou geograficamente seus contos, assim como as suas personagens, que aparecem sem passado, sem história própria e sem futuro.

Sua forma de escrever é, segundo ele, a mesma de um pintor. As coisas vêm naturalmente, depois as cores são acentuadas. O conto só fica pronto para ir ao leitor quando ele não consegue mais introduzir modificações. Murilo sempre demorou muitos anos para escrever seus contos. Como o José Ambrósio de “Marina”, as idéias demoram muito para vir e virar um conto. Em média, segundo ele, uns dez anos. Só que ele diz que aos 70 anos, infelizmente não pode “contar com dez anos para escrever um conto”.

Para Murilo, falar sobre sua obra é, de certa forma, rememorar o sofrimento em relação à escrita. É trazer a tona sua angústia criativa. Angústia, que como ele mesmo disse coincide com a do personagem José Ambrósio (“Marina, a Intangível”). Além da busca pela expressão exata, no seu primeiro livro há a busca pelo editor. Murilo termina o livro em 1940, mas só o edita seis anos depois. Neste tempo de espera escreve e reescreve seus contos, mudando títulos, permutando palavras. Quase a mesma imagem das infinitas descrições de José Ambrósio do seu trajeto, casa-jornal. Seu reconhecimento também chega mais tarde; só em 1974, com seu quarto livro, O Pirotécnico Zacarias, é que passa a ser conhecido mais amplamente.

Com isto, muitas vezes temos a sensação de que autor e obra se confundem. Murilo nos fala de sua profissão com a mesma frase de O Ex-Mágico: “Hoje sou funcionário publico”. O leitor, após conhecer seu processo de criação e a angústia que o rege, fica com o desejo de complementá-la: “e este não é meu desconsolo maior”. Sua solidão é a mesma de suas personagens, “homens solitários” que buscam o intangível. A falta de esperança e suas buscas se mesclam; o sofrimento do autor parece escorrer pela caneta e contaminar suas frases.

O elemento fantástico também faz parte de suas reminiscências; enquanto nós nos preocupamos em defini-lo, Murilo diz que nada mais são do que histórias de sua babá. O escritor afirma que sua influência maior veio de Machado de Assis, e acreditamos que sua obra possa ser o produto da “desleitura” dos textos deste. O fantástico também serve, segundo o autor, como elemento denunciador da realidade, ponto que coincide com alguns de seus críticos.
Este, porém, não é o único ponto de coincidência entre a visão da crítica e a do autor. Alguns autores apontaram para a forte crítica social que traz a obra do escritor mineiro. Isto parece se confirmar quando o escritor cita que seus “homens” espelham os que “vivem à margem da vida”. A procura pela clareza e o gesto de escrever e reescrever, a solidão, a desesperança e a circularidade são outros pontos observados pela crítica e pelo autor.

As metamorfoses de Murilo, outro ponto bastante citado, estão presentes desde o primeiro momento. Pronto seu primeiro livro, enquanto aguarda o editor, altera o título por cinco vezes, com contos substituídos e reescritos a cada tentativa de publicação. O movimento da mão do escritor não cessa jamais.
Na obra de Murilo o processo está tão ligado à temática e à ação dos seres ficcionais que autor e crítica parecem coincidir. E as palavras de Murilo vêm como uma espécie benigna de confirmação para a leitura dos críticos passados - e para a leitora de agora.

Murilo Rubião lança seu primeiro livro, O Ex-Mágico, em 1947. Antes de publicá-lo, afirma ter tentado publicar outros dois livros. Em seus arquivos, o escritor guardou três pequenas notas, de 1943, dos jornais Dom Casmurro e Vamos Ler, do Rio de Janeiro, e Alterosa, de Belo Horizonte , anunciando o futuro lançamento de um deles, o Dono do Arco Íris – o qual, posteriormente, se transformou em O Ex-Mágico. Essas notas mostram a tentativa de encontrar uma editora para a publicação de seu livro, e como sua obra já vai se metamorfoseando com a espera. Enquanto aguarda, publica seus contos de forma esparsa em jornais e revistas. Antes da prosa, porém, a poesia foi a sua opção literária. O autor, em algumas de suas entrevistas, diz que sua carreira se inicia com a publicação de poemas. Reconhecendo, no entanto, que não era um bom poeta, desiste do gênero.





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