Suplemento Literário

Meu suplemento inesquecível


Nascido há mais de quarenta anos, o Suplemento Literário teve desde então muitas encarnações. Sendo ainda mais antigo do que ele, posso falar da primeira, a que começou a sair das rotativas do Minas Gerais num sábado distante, dia 3 de setembro de 1966. Sem desdouro das que vieram depois, e tentando não abusar da nostalgia, tenho motivos para acreditar que aquela foi a melhor de todas. Se não mudou de opinião, o poeta Affonso Ávila, um dos pioneiros do Suplemento, haverá de concordar comigo: quinze anos atrás, quando o entrevistei para o meu livro O desatino da rapaziada, Affonso me contou que, para ele, o jornal foi relevante até a sua edição de número 454, publicada no dia 17 de maio de 1975. A última, explicou, feita sob o comando do contista Wander Piroli, que naquele momento se afastou da redação, indignado, para não dobrar-se à pressão de burocratas que, como diria Stanislaw Ponte Preta, despontavam para o anonimato.

Sei que o Suplemento, mesmo em suas fases esquecíveis, serviu ao leitor porções variáveis de ouro em pó cultural. Algumas pude acompanhar, mas de longe, pois vivo fora de Minas desde maio de 1970. Muita coisa, boa e ruim, certamente me escapou. Até por isso, por essas três décadas e meia de ausência, me dou o direito de ser ainda mais radical que o Affonso Ávila – e dizer que, para mim, o Suplemento que conta é aquele dos primeiros tempos, dos três primeiros anos, o Suplemento que Murilo Rubião concebeu e comandou diretamente até dele se afastar, em dezembro de 1969.

A história é razoavelmente conhecida. Em 1965, no que seria por longo tempo a última eleição direta para governadores de Estado, Israel Pinheiro chegou ao Palácio da Liberdade. Numa iniciativa mais ou menos rara de nepotismo benigno, levou para trabalhar com ele, como secretário, o sobrinho Raul Bernardo Nelson de Sena – e foi Raul quem teve a idéia de ressuscitar no Minas Gerais uma tradição literária muito antiga, anterior mesmo à passagem de Carlos Drummond de Andrade por lá, no final dos anos 1920, e que consistia em plantar um oásis de cultura e arte em meio à aridez dos despachos oficiais.

A redação do Minas tinha, em 1965, um luxo imerecido chamado Murilo Rubião, a quem a chefia, pouco imaginativa, entregava tarefas pífias como escrever necrológios – necrológios de gente viva, inclusive, como foi o caso do ex-presidente Wenceslau Brás, que só viria a morrer em maio de 1966.

Murilo tinha passado quatro anos em Madri, como adido comercial, durante o governo JK. Discretíssimo, voltou sem alardes de europeu recente. Para mim e para alguns companheiros de geração, adolescentes com fumaças literárias, ele era um enigma. Podia até mesmo não existir.

Pelo menos não era reconhecível entre os personagens do Encontro marcado de Fernando Sabino, o livro, quase escrevo bíblia, que o meu grupinho gostaria de arremedar na vida e na literatura. Não se tinha notícia de Murilo escalando, como Fernando, Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, os arcos do viaduto de Santa Teresa. Nem tocando fogo em casa de família para ver beldades de camisola saindo esbaforidas, como fizeram Drummond e Pedro Nava certa madrugada dos anos 1920. Só tive a confirmação de que Murilo existia aí por 1960, quando encontrei, na biblioteca da Praça da Liberdade, um exemplar de O ex-mágico, publicado em 1947. Em seguida soube que era autor, também, de A estrela vermelha, uma plaquete que saiu em 1953 com apenas quatro contos e pouco mais de 100 exemplares.

Murilo Rubião, isto era certo, estava inteiramente desemparelhado na ficção brasileira – e mesmo na ficção continental, pois ainda não sobreviera, na segunda metade dos anos 1960, o cacofônico boom da literatura latino-americana. Livros como Cem anos de solidão, com personagens capazes de literalmente voar, ainda não haviam pousado nas livrarias brasileiras. Para desconforto dos críticos que amam organizar autores em times, não havia, na paisagem literária, um outro escritor “tipo Murilo Rubião”. Ele não só escrevia histórias bizarras como a meus olhos parecia, com a sua singular murilice, ter saído de algum de seus relatos fabulosos.

Em papel impresso e até em carne e osso, Murilo voltou à circulação em 1965, quando a Imprensa Oficial publicou Os dragões e outros contos, com 1000 exemplares e uma belíssima capa do pintor Mário Silésio. Tinha quase 50 anos, mas podia dar aos desavisados a impressão de ser de um estreante. O crítico Antonio Candido, sempre tão atento, leu Os dragões e, numa carta ao autor, se penitenciou por não haver, dezoito anos antes, registrado condignamente a chegada de O ex-mágico.

Ninguém, aliás, soubera até então avaliar devidamente a arte de Murilo, cujo nome no máximo aparecia, entre muitíssimos, na vala comum do vasto et cetera da ficção nacional contemporânea. Nem mesmo as antenas agudíssimas de Mário de Andrade, com quem ele se correspondeu entre dezembro de 1939 e dezembro de 1944. “Mário gostava do autor”, me disse uma vez Murilo, sem sombra de ressentimento, “e fazia o possível para gostar da obra...”.

Foi esse o homem que Raul Bernardo Nelson de Sena encarregou de injetar literatura no insípido Minas Gerais.

Uma página, queria o secretário.

Por que não um suplemento? — contrapropôs Murilo.

Na praça literária de Belo Horizonte, naquela metade de anos 1960, a idéia foi recebida com a indiferença, o ceticismo e o desdém que tantas vezes dão corpo ao espírito provinciano. Muitos achavam que seria preciso recorrer a traduções, pois simplesmente não haveria como encher tantas páginas.

Não era o que pensava Murilo, que tinha viva a recomendação de Mário de Andrade a Drummond e sua turma, quando os novos de 1925 engatilhavam A revista: até como estratégia para não levar pancada, convinha misturar autores novos e veteranos, resguardado, é claro, aquele mínimo de qualidade literária.

Foi o que Murilo cuidou de fazer naquele suplemento literário que, por vir encartado nas edições de sábado do jornal oficial do Estado, era do, e não, como hoje, de Minas Gerais. Desde o começo, pôs lado a lado nomes consagrados, como Emílio Moura, Henriqueta Lisboa e Bueno de Rivera, e o sangue novo de Luiz Vilela, Sérgio Sant’Anna. Libério Neves, Sebastião Nunes ou Adão Ventura. Até mesmo passadistas como Moacir Andrade, Djalma Andrade e Eduardo Frieiro, escritores de nariz torcido para o já grisalho Modernismo, tiveram espaço no suplemento de Murilo Rubião.

O semanário, decidiu ele com sabedoria, teria “feição predominantemente mineira”, mas sem as viseiras do bairrismo; “a fidelidade à Província, nos termos que a situamos, até conjura o perigo do provincianismo”, escreveu num editorial – e lembrou: “O anseio de atingir a esquiva perfeição configura a chamada mineiridade”.

Murilo fez mais do que misturar gerações: ampliando o alcance da receita de Mário de Andrade, quis um suplemento que se ocupasse não só da literatura como da arte em geral – princípio declarado já no topo da primeira página do primeiro número. E assim foi feito. Além de ficção, poesia e ensaio literário, o cardápio do jornal, naqueles começos, incluía cinema, teatro, artes plásticas. Foi multidisciplinar antes que se usasse a palavra.

Essa disposição de Murilo ficou bem clara antes mesmo de se rodar o número 1, quando convocou para trabalhar com ele o talento polivalente de Márcio Sampaio – poeta, contista, artista plástico e crítico de arte, além de jornalista. O bom faro de Márcio permitiu que o suplemento, desde o início, formasse uma equipe de ilustradores que misturava novatos como José Alberto Nemer e artistas já reconhecidos como Álvaro Apocalypse, Eduardo de Paula e o próprio Márcio Sampaio. Ou Jarbas Juarez, encarregado a certa altura de garimpar, entre seus alunos na Escola de Belas Artes, ilustradores para a ficção e a poesia de autores igualmente jovens – cuja seleção, por sua vez, era feita por Murilo, por Affonso Ávila e por Laís Corrêa de Araújo, que desde o primeiro número pôs para girar uma movimentada “Roda gigante”, nome da seção de notas que informava sobre novidades literárias.

A comissão de redação do suplemento incluía, ainda, a experiência e o bom senso de Aires da Mata Machado Filho, que em 1968 seria substituído pelo crítico e romancista Rui Mourão.

Além de Márcio Sampaio, Murilo arrebanhou José Márcio Penido, contista em quem detectou talento também de jornalista (embora o conhecesse apenas como caixa do banco onde tinha conta...), e o diagramador Lucas Raposo. Mais adiante, em 1968, engordou o grupo com a contratação dos poetas João Paulo Gonçalves da Costa, Valdimir Diniz e Adão Ventura, além do contista Carlos Roberto Pellegrino.

Tive a sorte incomparável de ser escalado nesse time, no emblemático mês de maio de 68, em substituição a José Márcio Penido, que estava de mudança para São Paulo. Estou seguro de que todos nós temos na vida um ou dois encontros realmente decisivos – e não tenho dúvida de que, para mim, um deles foi com Murilo Rubião.

Ele tinha sido um dos jurados de um concurso de contos que venci em 1965. Já não me lembro do valor do cheque que recebi das mãos de Alceu Amoroso Lima, mas sempre considerei como maior prêmio o exemplar autografado de Os dragões e outros contos com que Murilo me presenteou. E me senti importantíssimo quando, em 1966, ele me convidou para colaborar no suplemento, o que comecei a fazer em 1967. Olhando para trás, devo admitir que, na apoteose mental de meus 21 anos, fui tomado pelo que chamo de vertigem de sobreloja. Razão de sobra, sei hoje, tinha Paulo Mendes Campos ao observar que na vida literária a verdadeira glória vem no começo.

E nunca deixo de me espantar, de me emocionar com a imerecida corda que Murilo dava ao petulante aprendiz de tudo. Sinto enorme vergonha retroativa quando me lembro da sem-cerimônia com que eu tomava ao pé da letra os pedidos para ler e palpitar nos contos dele, Murilo Rubião. Lia e palpitava como se tivesse sob os olhos textos de um frangote literário que nem eu próprio. Contos recém-saídos do forno, como “Os comensais” ou “Petúnia”, e versões retocadas de outros já publicados.

Um dia ele me pediu opinião sobre mexidas que dera em “O ex-mágico da Taberna Minhota”, carro-chefe de seu livro de estréia. Puxei a cadeira para perto de sua mesa, saquei a caneta e, impávido, fui em frente, seguríssimo de mim como nunca mais na vida. Do alto da minha sobreloja literária, lá pelas tantas impliquei com o substantivo “despautério”. Eu achava que a literatura se fazia de belas palavras, e que "despautério" era um... despautério. “Não dá, Murilo!”, pontifiquei. “Se eu fosse você, cortava imediatamente!” Muitos anos mais tarde, já provido de desconfiômetro, me lembrei do episódio – mas não tive coragem de reler “O ex-mágico”. Recentemente, contei a história ao jovem jornalista e escritor Marcus Assunção – e ele teve a maldade de me informar por e-mail, no dia seguinte, que a palavra já não está lá. E o pior é que, Murilo morto, não posso remediar o meu despautério...

Ele foi, de longe, o intelectual mais generoso e isento de preconceitos com que já cruzei, e isso se estampou com nitidez no seu suplemento. Murilo fez dele não a trincheira de uma panelinha, como costuma acontecer, mas um espaço onde se constituiu uma diversificada federação de grupos literários. Sem jamais posar de maître à penser, de guru, de dono do terreiro, deu vez e voz a todo escritor jovem que lhe pareceu merecedor de oportunidade. Sem paternalismo.

A nós, os privilegiados a quem deu também emprego, Murilo proporcionou, de quebra, o enriquecedor convívio com habitués da redação do suplemento, entre eles o doce Emílio Moura, o divertido Bueno de Rivera – poeta com o qual só não aprendemos a ganhar dinheiro, arte em que também era exímio... –, o sábio Francisco Iglésias, para não falar no incansável Hélio Gravatá, bibliógrafo sem cujo rigor não teria sido possível preparar e editar dezenas de edições especiais. Ou, de passagem, forasteiros como Décio Pignatari, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Otto Maria Carpeaux, Roman Jakobson, Giuseppe Ungaretti, tantos outros. Ou, ainda, Clarice Lispector, com quem Murilo me encarregou de fazer uma das primeiras entrevistas de minha involuntária carreira de jornalista, incumbência que na noite da véspera me tirou o sono e que, numa fotografia, me botou de cabeça baixa sob o olhar intimidador da grande escritora.

Sob o comando de Murilo Rubião, ajudamos a fazer o que foi sem dúvida o melhor suplemento literário do final dos anos 1960, só comparável ao que então editava O Estado de S. Paulo. Parte da edição era remetida a bem escolhidos leitores de vários pontos do Brasil e do mundo. Outra se oferecia à venda, nas bancas de Belo Horizonte. A fatia maior, 27 mil exemplares, era encartada no Minas Gerais, único jornal que chegava a cerca de 200 pequenos municípios mineiros — e de lá, das profundas de Minas, não raro vinham protestos contra o que seriam ousadias do suplemento. Como aquele verso de Affonso Romano de Sant’Anna, na primeira página, chamando o Empire State Building de “pênis maior do mundo”.

Minas, aliás, é preciso que se diga, era onde o semanário de Murilo Rubião fazia menos sucesso. Julio Cortázar lia em Paris o suplemento que em Belo Horizonte era ignorado pela pequenez liliputiana de escribas provincianos. Nele escreveram os graúdos da literatura brasileira – uma lista cintilante que não se esgota em Drummond, Murilo Mendes, Antonio Candido, Autran Dourado, José J. Veiga, João Cabral de Melo Neto, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Osman Lins, Luís Costa Lima, José Guilherme Merquior, Lygia Fagundes Telles, João Antônio, Tristão de Athayde, Antônio Houaiss, Silviano Santiago, Benedito Nunes e até mesmo o esquivo Dalton Trevisan, para citar apenas alguns dos colaboradores fora de Minas Gerais.

Os céticos que no começo aconselharam Murilo a fazer uma publicação à base de traduções também se viram atendidos: graças, sobretudo, a Affonso Ávila e Laís Corrêa de Araújo, divulgou-se farta e bem selecionada produção estrangeira naqueles três primeiros anos. Foi provavelmente no Suplemento Literário do Minas Gerais que pela primeira vez se publicou no Brasil um conto de Cortázar, “Todos os fogos o fogo”, traduzido por Laís em julho de 1968.

A primeira e gloriosa fase do suplemento encerrou-se, já se disse, com a saída de Murilo Rubião. Em seu lugar deveria entrar Rui Mourão – cujo nome, porém, foi vetado pelas autoridades da ditadura militar. Começava ali um longo e tormentoso período, cujas agruras haverá quem conte bem melhor do que eu.


por Humberto Werneck

Texto originalmente publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, em dezembro de 2006.

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