Suplemento Literário

Um Pouco da História


1. A língua portuguesa ganha um presente valioso. A partir de agora todo o conteúdo das mais de 1.200 edições do Suplemento Literário de Minas Gerais está disponível para consulta na Internet: www.letras.ufmg.br/websuplit. Segundo Júnia Lessa França, bibliotecária da FALE/UFMG (Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais) e responsável pelo projeto “Suplemento Literário, 38 anos. Acervo de 1966/2004”, o movimento surgiu numa parceria inédita da FALE/UFMG, Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte e a FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais). A FAPEMIG já investiu mais de R$ 30 mil. O sítio abrigará todos os exemplares, inclusive o inicial, lançado no dia três de setembro de 1966, pelo editor-fundador, o escritor Murilo Rubião (1916-1991), um dos introdutores do Realismo Mágico na literatura brasileira.

O projeto começou em 1998. Uma equipe de bibliotecários da FALE/UFMG, num trabalho pioneiro, produziu um banco de dados, pautado em referências como ano, mês, edição, assunto, ilustrador, título de artigo e autor. Até então, não havia qualquer trabalho de indexação. As digitalizações dos textos começaram em julho de 2004. Os originais impressos, estão encadernados, serão restaurados e guardados numa sala especial da biblioteca da FALE/UFMG. O acervo será doado, através de microfilme, para o suplemento literário.

2. No começo, Murilo Rubião enfrentou vários problemas na implantação do jornal. O principal deles: na época a produção intelectual mineira era escassa. O jeito foi apelar para as colaborações de autores nascidos em Minas Gerais que moravam fora, pensadores e escritores de outros Estados e até de outros países. Guimarães Rosa, no Rio e Murilo Mendes, em Roma, foram os principais nomes. A proposta inicial do SLMG era publicar autores consagrados e desconhecidos - característica que é mantida até hoje -, mas também contemplar outras manifestações culturais como o teatro, o cinema e as artes plásticas.

A primeira edição tinha ilustrações internas de Yara Tupynambá e Álvaro Apocalypse (ambos estudaram com Guignard). Os textos principais foram à interpretação de Laís Correa de Araújo sobre os livros de Clarice Lispector, o artigo “Verdade e Ficção” do escritor pernambucano Austregésilo de Athayde e o poema “O País dos Laticínios” de Bueno de Rivera. O sucesso foi tão grande que no primeiro aniversário (1967) circulou uma publicação especial com Carlos Drummond de Andrade, Dalton Trevisan, Haroldo de Campos e Benedito Nunes. As edições especiais eram de capas-duras e plastificadas. Outro destaque foi à edição dupla no segundo aniversário, com trabalhos de jovens escritores e artistas plásticos. Marcou época e ficaram conhecidos como a “Geração Suplemento”, cuja verve contista era formada por Luiz Vilela, Ivan Ângelo, Sérgio Sant´Ana, Jaime Prado Gouvêa, etc. como chama a atenção Humberto Werneck no livro O Desatino da Rapaziada: jornalistas e escritores em Minas Gerais (Cia. das Letras, São Paulo, 1992).

3. Nas décadas de 1960/70, inúmeros intelectuais e escritores participaram das publicações do SLMG. Só para citar alguns nomes, com participações assíduas: Laís Corrêa de Araújo (com a coluna de crítica literária “Roda Gigante e Informais” que permaneceu até a edição de maio de 1969), o poeta da geração de 45 Bueno de Rivera, o pensador e escritor carioca Alceu Amoroso Lima - o “Tristão de Athayde”, Abgard Renault, Emílio Moura, Pedro Nava, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Oswaldo França Júnior, Henriqueta Lisboa (primeira mulher a pertencer à Academia Mineira de Letras), Affonso Ávila, Silviano Santiago, Fábio Lucas, Márcio Sampaio (artes plásticas), Jota D’Ângelo (teatro) e Flávio Márcio (cinema). Observa-se também o namoro da literatura com o jornalismo em seções de depoimentos e reportagens literárias assinadas por Zilah Corrêa de Araújo e Neil Ribeiro da Silva (influências de Tom Wolfe e do movimento do Novo Jornalismo).

Murilo Rubião foi o editor até 1969. Denunciado como subversivo, teve que deixar o cargo. Foi substituído pelo escritor, ensaísta e professor Rui Mourão (premiado em 2002 com o Jabuti da ABL com a ficção Invasões do Carrossel), que antes estava no Distrito Federal, lecionando literatura brasileira na Universidade de Brasília (UnB), criada por Darcy Ribeiro. Na imagem ao lado, da esquerda para a direita, Murilo Rubião, Rui Mourão e Paulo Campos Guimarães na posse de Rui Mourão como editor do SLMG em dezembro de 1969. Entretanto, Rui Mourão é demitido dois meses após a posse, por ordem do comandante da 11a. Região de Infantaria, sediada em Belo Horizonte, general Gentil Marcondes Filho, por não concordar com as brutalidades da ditadura militar. Foi o mais curto espaço de tempo assumido por um editor na história do suplemento. Depois de Rubião e Mourão outros nomes assumiram a direção: Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, Ayres da Mata Machado, Duílio Gomes, Mário Garcia de Paiva, Paschoal Motta, Wilson Castelo Branco, etc.

4. Mais recentemente, já sob a responsabilidade da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, foi definido que seria nomeado pelo governador eleito um editor e um conselho editorial. O primeiro foi Carlos Ávila que permaneceu de 1995 a 1998. Em 1999, assumiu Anelito de Oliveira que foi substituído em janeiro de 2004, por Fabrício Marques e um novo conselho editorial composto por Affonso Romano de Sant’Anna, Edimilson de Almeida Pereira, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Otávio Ramos e Régis Gonçalves.

Nesta nova fase, o SLMG lançou a edição nr. 1.264 em janeiro de 2004 com ilustrações do artista plástico Antônio Sérgio Moreira, poemas inéditos de Manoel de Barros, Fabrício Carpinejar e Ricardo Aleixo, conto de Guiomar de Grammont, artigo de Édimo de Almeida Pereira sobre a poesia de Adão Ventura, resenha crítica de Nelson de Oliveira sobre o livro “A Teia Selvagem” de Otávio Ramos, Daniel Antônio bate um papo sobre o cineasta e artista multidisciplinar Peter Greenaway com a professora da UFMG Maria Esther Maciel, além da entrevista exclusiva com o jornalista e poeta iconoclasta Millôr Fernandes, entre outras matérias.

5. Atualmente, o SLMG sempre traz em suas capas desenhos de artistas plásticos ou fotógrafos convidados (que ilustram também o restante das páginas). Novas seções foram criadas e sistematizadas: Ensaio, Conto, Poema, Entrevista, Cinema, Primeira Pessoa, Reportagem (em estilo jornalístico, com traços e características da literatura), Crônica, Perfil, Outras Pulsações (semelhante à coluna “Roda Gigante” de Laís Correa de Araújo), Novos Autores, Tradução, Cartas e Fotografia (reprodução de fotografias e textos sobre a imagem).

São 24 páginas em formato tablóide. Com um projeto gráfico e programação visual (de Alexandre Mota) marcado pela “clareza” e “limpeza”, fator condizente com a estética textual e artística. Convém relembrar também que este cuidado estético esteve presente na década de 1980 - com Sebastião Nunes - e no período de Guilherme Mansur, nas gestões de Anelito de Oliveira e Carlos Ávila.

6. Enquanto a primeira fase do SLMG segue os padrões rígidos do Diário Oficial do Estado de Minas Gerais (décadas de 1960/70), a versão contemporânea surge de modo mais livre e solto, permitindo uma disposição criativa e original dos textos e ilustrações, garantindo maior leveza ao jornal (ao lado imagem da capa da edição nr. 1.275 de dezembro de 2004, de autoria do artista plástico mineiro Jayme Reis). Características do apurado senso estético nesta nova versão, que é composta de muitos “brancos” e “jogos” com a escrita, fazendo lembrar as resoluções concretistas da década de 1950. Outras observações: o número de autores publicados é maior no período atual. E a quantidade de páginas triplicou (24 na atualidade contra apenas oito nas duas primeiras décadas).

Nesta nova fase, o suplemento apresenta delimitações de seções e roteiros mais consistentes e com nomes fixos. As fotos das edições das décadas de 1960/70 não possuíam créditos ao fotógrafo, que é uma característica do jornalismo tradicional (apesar de terem legendas). Hoje, o tratamento das fotografias é diferente, pois além dos créditos, a qualidade de impressão melhorou.

7. A forma dos discursos nos suplementos das décadas de 1960/70, primava por uma divulgação artística não exclusivamente literária – já que tratava com mais ênfase outros temas como o cinema e o teatro, além de contar também com ilustrações de artistas plásticos (que continuam nas edições atuais). Pode-se dizer também que, nas décadas passadas, existia uma preocupação mercadológica, pois os números que não acompanhavam o Diário Oficial, o “Minas Gerais”, eram vendidos em bancas de jornais. Nesta época o jornal possuía uma coluna com o título dos dez livros mais lidos, nacionais e internacionais. Isto pode ser interpretado como uma forma de induzir o consumo de literatura.

As fontes são praticamente as mesmas das épocas passadas. O SLMG sempre contou com a participação de autores novos e consagrados, ensaístas, jornalistas, artistas plásticos, fotógrafos e colaboradores (a elasticidade de estilos dos escritores publicados é alta. As variações de assuntos são grandes e as edições especiais em suas diferentes temáticas também mesclam escritores mais experientes e novatos. A última edição especial foi no mês de julho de 2004, e contemplou a fortuna, o legado e a ponte cultural entre Minas Gerais e Portugal). Outra questão relativa às imagens: hoje, a valorização da fotografia se configura com finalidades artísticas e sugestivas. E, não meramente informativas, como nas décadas passadas.

8. O público alvo anteriormente constituía-se de escritores, jornalistas, professores, leitores comuns, políticos, estudantes e funcionários públicos. Atualmente, a partir dos seus pontos de distribuição, o SLMG se destina aos cidadãos, consumidores de cultura e freqüentadores de bibliotecas e livrarias (as edições são lançadas normalmente, mês a mês, em livrarias, espaços culturais e feiras de livros tanto em Belo Horizonte, capitais de outros Estados e cidades do interior de Minas Gerais).

O SLMG conta com uma lista de destinatários, pelo correio, elaborado e composto na sua maioria por leitores, escritores, jornalistas, pesquisadores, estudantes de letras, de jornalismo, ciências humanas e sociais, editores de revistas culturais e literárias impressas e da Internet, formadores de opinião pública cultural e literária; universidades, bibliotecas, jornais e revistas do Brasil e exterior. A distribuição é gratuita na sede do jornal em Belo Horizonte, nos eventos culturais promovidos pela Secretaria de Estado da Cultura do governo do Estado de Minas Gerais, nas bibliotecas, centros culturais, teatros, galerias de artes, nos lançamentos mensais, nas prefeituras e inúmeras bibliotecas espalhadas pelo interior do Estado de Minas Gerais. Os exemplares, como no passado são confeccionados em papel-jornal e a tiragem impressa é de 15.000 exemplares.

Autor: José Aloise Bahia


José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista e escritor. Autor de Pavios Curtos (anomelivros, 2004). Colaboraram na pesquisa em conjunto as jornalistas Carolina Ximenes Santos e Isadora Troncoso Doehler. Também colaborou o bate-papo pelo telefone com o escritor Rui Mourão, ex-editor do SLMG na década de 60.





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