Suplemento Literário

Depoimentos

“O Murilo era um intelectual, mas levava profundamente a sério a carreira administrativa, então por isso ele comandava o Suplemento com tanta eficiência, porque ele não dava vazão somente à sua criação, mas também ao seu talento de organizador. A influência do nome dele dava uma força e justificava o Suplemento.”

“Durante muitos anos nós ilustramos o Suplemento com muito cuidado, com muito carinho, procurando dar uma feição gráfica interessante aos textos.” “Uma série de Suplementos foram feitos sobre os artistas que ilustravam o Suplemento. Eram números especiais, mas eu não cheguei a entrar na lista. Não sei por que, acabaram com a promoção.”

Álvaro Apocalypse
“Meu primeiro contato com Murilo foi através do Suplemento. No bojo desses jovens autores e leitores, interessados na literatura e na poesia, eu me aproximei do Suplemento Literário.”

“No Suplemento, ele foi até algumas vezes molestado por autoridades militares, submetido a pressões, no sentido de que ele estaria acobertando escritores de esquerda, que o Suplemento era um reduto de comunistas, e ele conseguiu manter a publicação.”

“Como editor do Suplemento, ele compreendeu que tinha que incorporar a participação dos artistas plásticos. O Suplemento não podia ser só “literário”, ele tinha que trazer também os artistas plásticos, os temas mais variados, então havia a colaboração de críticos de arte, de musicólogos, de pesquisadores, de historiadores.”

“Houve uma campanha enorme contra o Suplemento, de escritores conservadores e de escritores subliteratos. Murilo era rigoroso na seleção. Dizia-se que o Suplemento era contra a Academia Mineira de Letras, na verdade ele foi um núcleo de resistência contra a mediocridade. Uma ala da academia de letras não tinha acesso ao Suplemento simplesmente pela qualidade de sua produção. Era muito mais fácil entrar na Academia do que no Suplemento.”

“No Suplemento, Murilo se revelou um homem com talento político e diplomático, porque tanto conseguiu superar as resistências e restrições dos conservadores da Academia Mineira de Letras e dos escritores reacionários e subliteratos, como também venceu as pressões do regime autoritário.”

Ângelo Oswaldo
“Pela primeira vez no Brasil, o Suplemento publicou os pan-americanos que estavam na moda naquele momento. Havia um acompanhamento do Suplemento lá fora, ele era enviado para uma lista especial de assinaturas de cortesia, justamente para manter essa participação e sintonia com o que havia de mais expressivo na literatura da época.”

“Estávamos sempre juntos, a Imprensa Oficial era um grande ponto de reunião de escritores, todos os dias iam lá Henriqueta Lisboa, Emílio Moura, Ângela Mata Machado, Eduardo Frieiro, Maria José de Queiroz, Laís Correia de Araújo, Affonso Ávila, Libério Neves, Márcio Sampaio, Sérgio Santana, Fernando Brant, autores jovens do interior, pessoas de outros estados e do exterior que vinham a Belo Horizonte e visitavam o Suplemento, que era uma embaixada, uma secretaria de cultura, um ponto de referência.”

Ângelo Oswaldo
“Quando saí do Brasil, ele estava fundando o Suplemento Literário. Eu achei um absurdo, eu falei não é possível, criar um Suplemento literário dentro da Imprensa Oficial. Isso é uma coisa que eu não podia entender. E deu certo. Quando eu estava nos Estados Unidos, me mandavam sempre o Suplemento, e eu vi que o órgão começou rapidamente a melhorar, e ele acabou conseguindo resultados muito bons. O Suplemento era uma casa que reunia um mundo de gente, artistas plásticos, escritores, músicos, gente de dança, todo mundo passava por ali, publicava-se artigos de pessoas do Brasil inteiro. E as pessoas que visitavam Belo Horizonte não deixavam de ir lá. Foi um ponto de encontro permanente, com gente importante, ilustre, idéias importantes para a evolução literária, e também tinham os novos. Ele deu chance aos novos, aquilo se tornou uma escola para essa gente, a pessoa aprendia a escrever, convivia com escritores já formados, e tinha possibilidade para a publicação.”

Rui Mourão
“À certa altura eu era chefe do departamento do Minas Gerais, como editor, e o Murilo vinha do Escritório Comercial de Madrid. Ele tinha voltado recentemente e era funcionário da Secretaria de Saúde e conseguiu transferência para a Imprensa Oficial. E então se apresentou a mim, eu mais novo que ele, o maior respeito... precisava ver a seriedade a dignidade e a modéstia. Ele se apresentou a mim, disse que ia dar plantão, e eu respondi: você não vai dar plantão. Ele falava depressa, insistiu, e eu consenti, e no dia seguinte foi um constrangimento dar ordem para o Murilo, algo chato, ele era um escritor consagrado, e ele ficava na redação, no plantão à noite, esperando noticiário do Palácio que vinha às seis e sete horas. Era algo constrangedor, ele lá parado, sem nada pra fazer, cumprindo rigorosamente sua função.”

José Bento Teixeira de Salles
“Com a posse de Tancredo Neves no governo de Minas (1983), Murilo voltou à Imprensa Oficial e retomou o Suplemento Literário. Murilo formou uma nova equipe composta por Duílio Gomes, Jaime Prado Gouveia, Sebastião Nunes, Adão Ventura, Manoel Lobato, Wander Piroli e eu. Creio que, com a volta de Murilo, foi a última vez que o Suplemento, mais do que um jornal, representou a sua função de origem, ou seja, um ponto de encontro, um local de diálogo, um território de convergência. Isto porque Murilo levou ao jornal um traço característico de sua personalidade de agrupador, de aglutinador de gerações, acima das tendências de um grupo ou de outro, acima até mesmo das idiossincrasias destes ou daqueles.”

Paulinho Assunção
“Foi uma fase brilhante a do Suplemento, porque ele era muito bem relacionado com todo o pessoal de literatura do Brasil inteiro, era muito conhecido. O mais importante no Murilo é que ele dominava a cultura com grande amplitude. Ele conhecia bem o mundo todo, a cultura de uma maneira geral, particularmente a literatura. Era bom conversar com ele sobre esses assuntos, porque quase sempre ele vinha com afirmações surpreendentes, análises muito bem feitas de outros autores. Era um sujeito importante por esse aspecto.”

Jota Dângelo
“Em 1966 ele começou o Suplemento, e isso eu acompanhei de perto, a luta do Murilo para fazer um bom trabalho, sob a incumbência de Raul Bernardes, secretário de governo do governador Israel Pinheiro, que queria que ele ressuscitasse no Minas Gerais uma página literária. O Murilo disse, por que não um Suplemento? O Raul Bernardes disse: tudo bem, toca, e ele começou a trabalhar nesse projeto, só que enfrentando uma descrença muito grande dos intelectuais da praça, não todos, mas a grande maioria. Os caras achavam que não haveria material para encher tudo aquilo, que ele ia ter que recorrer a traduções, que ia dar errado, um bando de urubus a vaticinar as coisas mais negativas sobre o Suplemento que se iniciava.”

“O Murilo usou uma fórmula muito sábia do Mário de Andrade, que ensinou ao Drummond, em 25, como fazer uma boa revista literária, misturando gerações, sempre dentro de um crivo de qualidade. E o Murilo fez isso, desde o primeiro número, que já tinha o Luiz Vilela, um garoto de 22 anos. O Murilo pegava um artista plástico jovem, um contista jovem, um cara mais veterano como o Affonso Ávila, tinha a colaboração de sujeitos de fora, ele tinha um prestígio enorme dentro do meio artístico, e com esse cacife, ele garantiu uma colaboração fantástica. E quando o Suplemento deu certo, e ele o deu rapidamente, então todos os subliteratos que ficavam secando o projeto quiseram entrar, tentando tomar conta. Já que havia dado certo, “vamos colocar a mão”. Murilo, muito delicadamente, que era a marca dele, mas muito firme, se opôs a isso.”

“O Suplemento virou um lugar para se publicar e um local físico, um ponto de encontro entre várias gerações. O Murilo certamente não concordava com posições estéticas de alguns grupos, por exemplo, existia a turma do poema processo, tenho certeza de que o Murilo não gostava do poema processo, mas nunca vi um cara tão democrático quanto o Murilo, ele deu cobertura para todos esses grupos, para quem quisesse. Numa ocasião, inventamos uma coisa no Suplemento, uma série de entrevistas com vários escritores, o escritor mineiro quando jovem, a gente dava duas páginas para o escritor dar um depoimento, dar uma entrevista, publicar um trecho de alguma coisa que ele havia escrito, um poema, um conto, um artigo, e essa coisa cresceu e virou “os novos de toda parte”. Tinha o Moacyr Scliar, o Caio Fernando Abreu, a gente batia uma bola com caras e redações de outros estados”

Humberto Werneck



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