Figura Humana

Em Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa escreve: “Amigo, para mim, é isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é”.

Se deixássemos de lado as cartas, as críticas e documentos de intelectuais, escritores e políticos de destaque na vida nacional e vasculhássemos as centenas de fotos e de cartões recebidos por Murilo de vários de seus amigos do Brasil e do exterior, poderíamos construir sua biografia meio à esguelha, como sua escrita, a partir desses pequenos fragmentos ligados à vida privada - às vezes rabiscos em folhas rotas de papéis que ficam à margem dos textos canônicos. Rolland Barthes nos diz, em Aula, certamente valorizando seu objeto de trabalho, que, se algum dia o homem perdesse toda a sua produção, conservando apenas a Literatura, teria a possibilidade, através dela, de recuperar todos os outros saberes. Rubião iria contribuir em muito nesse aspecto. Barthes ainda afirma: “a ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa”. Mas se as personagens e os enredos de Murilo Rubião contribuem para abalar os alicerces da racionalidade técnica, é bom pensar no quanto sua própria figura humana, desdobrável em seus atos de doação ao outro – Guimarães Rosa também nos diz que “amizade dada é amor” - contribui para desestabilizar as pequenas verdadezinhas tão vivas na atualidade, onde a vida coletiva, os projetos em comum, os princípios éticos e estéticos vão sendo cada vez mais solapados pela indiferença e pelo cinismo.

Os cartões e fotos de Murilo nos mostram, pelo olhar da intimidade, os familiares que tanto amava e os fiéis companheiros que ficaram ao largo da vida pública. O bilhete da visita de um amigo do interior, deixado sobre mesa de trabalho, um cartão avisando do nascimento de um novo sobrinho, o telegrama de natal de uma colegial, um recado na portaria do edifício falando da visita de uma amiga, as fotos de encontros familiares ou com jovens que almejavam a vida literária - em bares simples do centro de BH -, tudo era meticulosamente guardado por Murilo, que parecia não querer perder nenhum momento da vida, desejava guardar os simples papéis para reavivar a memória desses instantes. São vários os cartões no acervo que agradecem a gentileza, a fineza e a alegria que o escritor proporcionava aos amigos em seus encontros.

Talvez Murilo tenha escolhido a vida de solteiro para dar conta de se integrar e de se dissolver em tão variados ambientes, com tão diversas pessoas. Acreditamos que é no gesto de se abrir para o discurso do outro, respeitando e preservando as diferenças - e não na idéia de “amar o seu igual”, “de amar ao próximo como a si mesmo” - que podemos dizer que a amizade pode ser vista como manifestação política. E Murilo faz falta, pelo seu talento artístico e pelo homem distinto e diferencial que foi.

Roniere Menezes


O olhar dos amigos
Leia abaixo trechos de entrevistas e depoimentos de personalidades expoentes da cultura mineira sobre Murilo Rubião.

“O Murilo era um homem tímido, discreto, muito reservado e sempre escondido atrás dos óculos e do bigode, parecia até o homem do poema do Drummond, que ficava atrás da piteira. Murilo fumava muito e usava uma pequena piteira. Gaguejava um pouco, ele baixava um pouco os óculos e olhava, tinha os olhos grandes, era um homem tímido e reservado, falava pouco, mas sempre o que ele dizia era inteligente, irônico, ele gostava de rir, de satirizar as situações.”

“Não era um homem ligado ao sistema, era um homem contrário ao regime militar. O Murilo tinha uma posição crítica em relação ao regime, embora não tenha militado numa frente oposicionista ou numa resistência democrática.”

“O Murilo ficou tão envolvido com tantas frentes de trabalho que não tinha mais sentido ele sair de Minas Gerais. Naquela época, dizia-se que Minas Gerais exportava minérios e mineiros, e ele permaneceu aqui.”

Ângelo Oswaldo
“Quando eu estava exilado, o pintor Vicente de Abreu transformava o Murilo em objeto de nossas conversas em Lima e Santiago. A lembrança do Murilo era sempre uma lembrança de grande admiração e o Vicente, que era uma pessoa muito sensível, um grande pintor, comentava essa personalidade do Murilo: introvertido, que no entanto se expunha na maneira de ser e conversar quando se sentia à vontade, num ambiente de amigos.

Inúmeros amigos meus, antes e depois da morte de Murilo, deram testemunhos que permitem caracterizá-lo como uma das figuras marcantes da vida cultural mineira em todo esse período e que certamente vai ter prolongada essa influência através de sua própria obra.”

Guy de Almeida
“Nós tivemos uma convivência intensa. Eu tenho aqui em casa até um armário que foi dele. Grande amigo. O Murilo era uma pessoa muito interessante. Ele, como funcionário, era uma pessoa muito exigente, tinha um senso de responsabilidade e uma isenção para tratar das coisas muito grande. Gastar o dinheiro público para ele, por exemplo, era uma coisa sagrada. Ele fazia aquilo com a maior fidelidade possível. Na fase de execução das coisas, ele era muito exigente, e depois na fiscalização. Era um funcionário exemplar, pessoas que trabalhavam com ele e não gostavam de manter horário tiveram problemas, ele era inflexível.”

Rui Mourão
“Eu conhecia à distância o Murilo, conhecia à distância o pai, que foi professor, inclusive porque o bonde passava em frente à casa dele. Ele foi amigo de infância do meu irmão mais velho, Fritz, então daí vem as primeiras lembranças do Murilo.”

“Profundamente sério em tudo, ele comprava abóbora no mercado com seriedade. Uma das boas lembranças que eu tenho dele foi na época que ele tinha um apartamento na rua do Ouro. Estava lá a musa de nossa geração, a Vanessa Neto, uma pessoa interessante, muito graciosa.”

José Bento Teixeira de Salles
“Paulo Emílio era mais que um irmão para ele; era um médico extraordinário, mais novo que o Murilo, um dos melhores médicos de BH, pai de Silvia. Eu nunca vi dois irmãos se darem tão bem. A mãe era extraordinária, expedita, alegre, comunicativa. A família dele foi muito mineira, muito autêntica. Ele deixou um legado, apesar de não ter tido filhos, o amor pelos sobrinhos, poucas pessoas se entregaram assim como Murilo se entregou.”

“Se alguém falar que conheceu o Murilo num momento de amor, eu te digo que talvez isso não seja muito verdade. O máximo que eu vi foi o Murilo segurando a mão de uma moça chamada Jaci Camarão, que trabalhava comigo na rádio, que lia muito, uma das pessoas que mais conhecia Fernando Pessoa, de família também tradicional, muito bonita e que adorava Murilo. Outra pessoa, por quem acho que ele era apaixonado, era a Vanessa Neto. Quando JK fazia as festas no Palácio das Mangabeiras, chamava o pessoal para ouvir serenata e pedia para todos irem em casais. O Murilo sempre ia com a Vanessa e eu com a irmã dele, a Maria Eugênia. Essas festas eram sempre de sexta para sábado ou de sábado para domingo, e JK gostava de ver o nascer do sol. De lá das Mangabeiras, víamos o sol nascer em cima do Arrudas.”

Lomelino Couto
“Lembro-me dele alegre, contando piadas, sempre com uma ironia sofisticada, machadiana, durante as nossas caminhadas pelo centro. E o Murilo sempre estava marcando jantares e almoços, homenagens a este ou aquele, encontros em seu apartamento da rua Trifana, na Serra, ou, tempos depois, em seu último apartamento, na avenida Augusto de Lima. Na rua Trifana, lembro-me de uma noite em que Murilo buscou um livro de um poeta que ele muito admirava, o Augusto dos Anjos, e leu para nós (Éolo Maia, Murilo Antunes e alguns outros) vários poemas em voz alta. Mesma noite em que ele, feliz, nos mostrou a tradução dos seus contos para o tcheco.”

Paulinho Assunção
“Ele era um sujeito muito introspectivo, muito tímido, de relacionamento contido. Murilo se blindava numa redoma, era de difícil acesso, particularmente em relação às suas emoções, às suas explosões afetivas. Tinha um temperamento racional, analista, embora fosse uma pessoa muito afável, fácil de conviver. Não fazia confidências das coisas amorosas. Lembro-me de um caso dele, a moça trabalhava na faculdade de medicina, chamava-se Amélia Dulce, e esse caso durou bastante tempo, guardado em absoluta discrição. Ela ia na nossa roda de vez em quando, e lá, não se tinha qualquer manifestação por parte dele.”

“Uma grande qualidade de Murilo era sua modéstia, pois não era de badalações, de fazer marketing sobre suas obras, não era de ficar aparecendo, de procurar meios onde a notícia se espalhava. Quando moramos no mesmo prédio na rua Leopoldina, vinha sempre com umas balas nos bolsos pra dar pros meus meninos, e não incomodava ninguém, sempre fechado.”

“Ele sempre foi um liberal de esquerda. Muito preocupado com problemas de injustiças, mas não era engajado ideologicamente em nenhuma corrente mais ativa. Era um sujeito que tinha uma percepção muito grande de problemas de dominação, de exploração. Não era um engajado, mas podia dizer-se de esquerda, de pensamento socialista.”

Jota Dângelo
“Para mim, você tem na vida dois ou três encontros que são realmente decisivos para a sua vida. E acho que o Murilo foi um desses encontros. Acho que encontrei o Murilo para me encontrar.”

“O Murilo era um cara que te dava confiança, nos tratava de igual pra igual. Eu me lembro muito dele, daquela careca, dos olhos por cima dos óculos, um companheiraço para sair e beber alguma coisa. Ele era um cara muito diferente, não tem ninguém que possa dizer, “essa pessoa é uma pessoa tipo Murilo Rubião”, só ele era tipo Murilo Rubião.”

“Era um boêmio legal, tinha grande resistência ao álcool. Lembro de várias festas na rua Leopoldina. Ele não queria confraternização com vizinhos; só gostava de dar balas para os meninos. Quando morava no 777 da rua do Ouro, houve uma vez uma gincana, coisa comum em Belo Horizonte, e uma das tarefas era levar um escritor que reunia as características do Murilo. Então todos começaram a telefonar para a casa dele, batiam na porta, era domingo e ele não atendeu, enfurecido.”

“Murilo era um cara de uma grande generosidade pessoal, sem paternalismo, ele tomava conta da gente. A mim pessoalmente, o Murilo dava uma corda muito grande. Hoje vejo que ele era muito mais do que generoso, eu nem era jornalista, eu era estudante de direito, ele me dava missões como entrevistar Clarice Lispector, que foi uma das primeiras matérias que eu fiz na minha vida”

Humberto Werneck
“ Murilo era um bom companheiro, ele frequentava o Lua Nova, quando nos reuníamos no final da tarde para uma happy hour, como se chama hoje. Ele saía da Imprensa, e o Maletta era passagem pra ele, que logo entrava e estavam todos reunidos: o José Nava, o Chanina, o Zé Eduardo de Paula, o Isaías Golgher, essa turma toda. Era uma mesa de boa conversa, de prosa muito interessante, de muito humor, dali saiu muita coisa.”

Álvaro Apocalypse
“As pessoas gostavam do Murilo, ele gostava de conversar numa mesa de bar. Fora isso, ele era muito reservado, mas numa mesa de bar, ele estava sempre cercado de amigos, ele mantinha essa tradição antiga da pessoa se ligar a um bar, a uma mesa, na Gruta Metrópole, no Lua Nova, ele gostava de uma roda de libações, como diria o Pedro Nava”

Ângelo Oswaldo
“Pela postura moral e intelectual, ele era muito respeitado em todas as rodas. Era uma posição de líder, no Lua Nova, que tinha a presença da inteligência belorizontina. Ele presidia o Lua Nova. Era rigorosamente competente etilicamente. Nunca vi o Murilo bêbado, e olha que freqüentei muito botequim, a Gruta Metrópole, o Lua Nova, nunca o vi de porre. Era muito observador”

José Bento Teixeira de Salles
“Eu me lembro muito do Murilo no Lua Nova, com uma piteira, ele fumava sempre de piteira. Ele não era um conversador muito animado, ele apenas fazia observações sobre o papo que estava rolando na mesa. Sempre algo inteligente, interessante, muito sobre literatura, ele era uma pessoa muito especial dentro desse cenário de Belo Horizonte”

Priscila Freire
“Costumo dizer que a morte de Murilo Rubião levou uma figura catalisadora, nuclear, da literatura produzida em Minas Gerais. Marioandradinamente, Murilo reunia as gerações, estimulava, incentivava. Ele agrupava as pessoas, em todas as áreas, e tinha uma generosidade sem limites. Do mesmo modo generoso com que ia ao Palácio dos Despachos falar com o governador, interceder por isto ou aquilo, ele sentava-se com um grupo de jovens escritores num dos bares do Maletta para conversar, ouvir, dar sugestões. Sou testemunha do quanto Murilo era paciente até com os tantos chatos que navegam pelas águas revoltas dos bares.
Houve um tempo, com dois ou três amigos mais freqüentes, que almoçávamos juntos diariamente, ora na Cantina do Lucas, ora no Pelicano, ora no Bar da Esquina (atrás da Igreja da Boa Viagem), ora em uma caminhada pelo centro da cidade até o restaurante do Senac, na rua Tupinambás.”

Paulinho Assunção
“Era comum entrar sábado de manhã na redação para apanhar o Suplemento, e quando se olhava, já estava de noite, o Murilo te arrastando pra jantar não sei onde, e depois pra tomar uma pinga não sei onde mais”

Humberto Werneck



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