Um conto em 26 anos

Paulo Mendes Campos
Revista Manchete, Rio de Janeiro, 8 de maio de 1971


Foi em 1945. Realizava-se em São Paulo, em fevereiro, o primeiro congresso brasileiro de escritores. A sério. Tratava-se antes de tudo (como foi feito) de rasgar no dente a mordaça do Estado Novo, com uma declaração de princípios contra a ditadura. Carlos Lacerda e Caio Prado Júnior brilhavam nos debates. Oswald de Andrade, centrando seu veneno contra a burguesia argentaria, reassumia um jeito doce de tratar os amigos. Mário de Andrade, que ia ser fulminado de angina pouco depois, pairava em serenidade e misteriosas previsões. Sérgio Buarque de Holanda e Vinícius de Morais bebiam cerveja e cantavam até o raiar da aurora, ou mais, aquele samba de Noel: “Você me pediu cem mil-reis”. Chico ainda não sabia falar.

Nós, os mineiros, que vexame! Nossa delegação, com duas e não sei se três exceções, era uma eufórica e alienada malta de moleques. Queríamos a democracia sem abrir mão de nossa gratuidade, espantosa e fruto verde dos nossos desajustamentos de origem. Devíamos ser umas crianças intoleráveis, mas os outros nos tratavam com bastante complacência, principalmente o Mário, que aturava com afeto a nossa incapacidade de conversar a sério, aderindo sempre.

Quanta palhaçada! A começar por mim. Apostei que arrancaria lágrimas duma quase veneranda senhora portuguesa, em um quarto de hora, versando a seu lado sobre o tema: sinos ao entardecer nas aldeias de Portugal (que eu nunca tinha visto nem ouvido). Ela entregou os pontos em cinco minutos; foi tão fácil que não quis receber a aposta. O pior foi quando um companheiro nosso, num acesso de lirismo e loucura escocesa, agarrou nos braços, como um menino, o grande e pequeno Monteiro Lobato, e saiu com ele em disparada pela Avenida São João. Lobato, possesso, bradava “pusilânime!”, e o nosso amigo tentava explicar-lhe que estava apenas realizando uma (complicada) aspiração de infância: carregar no colo o mágico do seu mundo infantil.

Oswaldo Alves chegou atrasado e preferiu ficar conosco no City Hotel, onde não havia lugar para ele. Tinha cama sobrando, e de manhã, ao entrar no café, o romancista se escondia dentro do armário. Mas uma noite ele chegou de antenas pifadas, indo direto para o armário, onde dormiu muitas horas e ressuscitou entrevado.

Houve depois uma fabulosa boca livre na casa do pintor Lasar Segall. Murilo Rubião já era um contista do extraordinário, de elaboração ralentada, castigada, não porque o torturasse tanto a forma, mas porque sempre pretendeu captar as verdadeiras ressonâncias humanas de uma história. O Murilo estava sorumbático durante a festa, desligado como os seus personagens, e bebia muito devagar. Era o meu companheiro de quarto. Retornamos ao hotel desafinados, eu insatisfeito porque a noite estertorava em minhas mãos vazias, e ele... sorumbático. Primeiro, expulsei o gato do quarto. Morava no hotel um gato anão, anão e neurótico, que passava o tempo todo espreitando, agarrando e comendo um passarinho invisível.

Rubião vestiu, muito distinto, o robe por cima do pijama e perguntou se a luz me incomodava. Respondi que sim, mas não tinha importância, eu estava apagado. Ele muniu-se de caneta e bloco e começou a lavorar. O homem aí (calculei) tem um conto enrolado dentro dele. In the heart or in the head? Shakespeare também não soube responder a este enigma. Lá pelas tantas, acordei com o gato doido pegando passarinho em minha barriga. Era coisa do Sabino, é claro. Rubião continuava lá, aureolado pela claridade do abajur, castigando, pigarreando, amassando papel, alisando sua calva mais bonita que a de Flaubert. Dormi logo, depois de ter depositado o anão no quarto do Oto, e acordei quando os paulistanos já tinham tomado um milhão de providências. Rubião ia de embalo, pálido e sereno, como quem fez a sua obrigação. Sobre a mesa pousava apenas uma folha de papel azulado; o resto do bloco estava rabiscado e atulhado dentro da cesta. No alto do papel vinha escrito “O Convidado”. Abaixo: “Conto de Murilo Rubião”. Dez linhas riscadas, ilegíveis. Depois, assim (fim do conto: o conto não existe). Só Rubião chegara a essa desagradável conclusão depois de toda uma festa perdida e horas de luta.

Mais tarde, no Franciscano, disse-me que não achara o fio do conto (nem esperava por isso, tão depressa); mas o essencial estava no papo: o convidado não existe. Bota aí um amazonas de águas passando por baixo da ponte, meus encontros espaçados com o Rubião ( e o convidado, sai ou não sai? – Acho que sai, acho que sai) e viagens e óbitos e guerras e o Vinícius noivando de novo e o Chico virando homem, uma inundação de acontecimentos. O Convidado sai, Rubionis? Acho que sai, acho que sai.

Quando os americanos desceram na Lua pela segunda vez, não agüentei mais: fui ali na agência nova do Leblon e passei um telegrama: “Murilo velho o convidado existe o que não existe é a festa abraços Paulo.” Como não respondeu (nem por telegrama, nem por carta, nem por telefone, nem, mineiramente, por mensageiro mesmo) retornei ao brejo da dúvida: o convidado existe? Pois anteontem um amigo comum telefonou para dizer que me trazia de Minas uma sensacional surpresa. Eram treze laudas e meia datilografadas em espaço triplo: “O Convidado” – Conto de Murilo Rubião.

Vinte e seis anos depois! Li como quem bebe um chope depois de percorrer a Avenida Brasil, querendo chegar ao fim para pedir outro chope ou ler de novo. Eu vi, com alívio, mas também com amargor que transmitem os admiráveis contos rubiotônicos, que o convidado, de fato, não existe.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
© 2012 . Murilo Rubião . Todos os direitos reservados