Notícias Literárias

Carlos Drummond de Andrade
Jornal “Minas Gerais”, Belo Horizonte, 26/ 6/ 51


“País das Águas”, de Manuel Ferreira (Irmãos Pongetti, 1950), e a estréia de um jovem contista mineiro, que se apresenta desligado de qualquer preocupação naturalista, parecendo antes interessar-lhe a fixação do “absurdo vital”, se assim pudermos denominar algo que alimenta grande parte da ficção contemporânea. Primeiro, Pirandello, e depois, Kafka trouxeram para a literatura de imaginação um elemento tanto destruidor quanto renovador porque ao mesmo tempo que tinha como conseqüência a dissolução da personalidade, nos abria uma porta para a investigação dos seus resíduos mais ínfimos e insuspeitados. Criou-se assim uma estética do absurdo, que fez do caos, da indeterminação, da incoerência e da ilogicidade materiais para a obra de arte. Não há dúvida que essa arte exprime terrivelmente o nosso tempo e que ela acrescentou alguns traços ao retrato do homem, que nos legaram as letras clássicas e românticas. (Por sinal que temos nestas últimas um precursor ilustre da novelística moderna da desintegração da alma, com o alemão Chamisso e a história do homem que vendera a própria sombra, tais são, em muitos casos, os heróis de romances e contos de hoje).
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No plano nacional, e particularmente no cenário mineiro, encontramos um representante categorizado dessa tendência de ficção atual no contista Murilo Rubião, autor de um interesse mais vivo, tanto entre os que o aceitavam e louvavam como entre os que se sentiam perplexos diante da arbitrariedade de sua imaginação. Esse autor é ao mesmo tempo muito simples e muito complexo; seus personagens movem-se na superfície da realidade estrita, são cotidianos e reconhecíveis a uma identificação sumária, mas a todo instante, e sem aviso prévio, se evadem do quadro habitual, como que dotados de poderes ocultos, e então lhes sucedem as aventuras mais espantosas. Para o narrador, isso não parece ter importância particular e é imperturbável o ritmo da história, como a compostura de quem a narra; o mesmo não ocorre, porém, ao leitor desavisado, que se sente bruscamente sem pé na realidade, e não sabe como foi que isso aconteceu. O resultado é quase sempre uma sensação de mal-estar, que o autor insidiosamente previra e mesmo preparara – não que quisesse divertir-se à custa do leitor, mas porque tal sensação está no cerne mesmo da vida contemporânea, com a insegurança psicológica que a distingue, e a suspeita, que também lhe é característica, que a razão não é o instrumento mais exato para aferir a essência das coisas.
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Mas esta nota já se vai afastando demasiado do livro de Manuel Ferreira, que vem na esteira das experiências de ficção, realizadas com “O Ex-Mágico”, embora se trate de criação muito menos elaborada, com aspectos negativos de uma expressão literária ainda hesitante.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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