Um retrato da geração mineira de 1945

“Nós que amávamos tanto ... a liberdade”
José Bento Teixeira de Sales

Leia Especial, BH – maio de 1986.


Geração que “perdeu a vez” ou manifestação de talento de um grupo de jovens que produziu mais idéias, arte e inquietação que a Belo Horizonte de 45 podia consumir? Aqui, num tom de crônica, um balanço sobre a controvertida geração mineira de 45.

O sonho permanente da conquista da liberdade. A implantação de uma democracia autêntica. A busca de novos rumos, na política, na literatura, nas artes. Aspirações que são de hoje e de sempre. E que foram, também, as da minha geração, a sofrida geração de 45. Nascemos entre duas grandes guerras mundiais, recebendo o impacto de suas profundas conseqüências – de ordem moral, social, política e econômica. Fomos, por isso mesmo, o material de laboratório para as experiências de criação de um mundo novo, que fosse mais justo e progressista.

Naquela época, o fastígio do nazi-fascismo repercutia no Brasil, com a instalação de sua caricatura cabocla pelo ditador Getúlio Vargas. Estávamos diante do opressivo quadro do totalitarismo nacional. Suprimiram-se as eleições, como forma de se extinguir a livre manifestação da vontade popular; políticos foram perseguidos e exilados, enquanto a demagogia mistificava a realidade e iludia a boa fé dos trabalhadores.

Quando veio a chamada redemocratização de 45, a situação política brasileira mostrava, de um lado, os liberais de 30 que voltavam à tona com todos os seus vícios e deformações e, a eles se contrapondo, os pelegos criados pelo “entourage” governamental nos desvãos do Ministério do Trabalho.
O regime totalitário estancara o futuro de toda uma geração, frustrada em suas perspectivas mais válidas. Esse, aliás, é um dos grandes males das ditaduras: a falta de renovação dos quadros políticos, condenando a vida pública à rotina e ao enquistamento.

Entre o comunismo que se fortalecia e o fascismo derrotado na guerra, a democracia procurava renovar-se, diante da decadência do liberalismo. Situada, assim, entre dois fogos e cerceada em suas aspirações, a mocidade de 45 surgiu ansiosa e hesitante, sonhadora e indecisa.

Por outro lado, a ditadura tivera o mérito de congregar, contra ela, todas as forças antifascistas, numa união que teria sido integralmente benéfica, não fossem o teimoso sectarismo de Prestes e a ingênua falta de perspectiva histórica da Esquerda Democrática.

Na ocasião, os Estados de Minas e de São Paulo eram os dois principais centros de resistência ao Estado Novo. Em Belo Horizonte, na primeira metade da década de 40, o então prefeito Juscelino Kubitschek promoveu uma semi-réplica da Semana de Arte Moderna, que propiciou importantes articulações políticas de seus participantes. Literatos, artistas, professores e universitários de São Paulo e Minas estreitaram os contactos que melhor estruturariam o esquema de luta contra a ditadura. Da brilhante delegação paulista faziam parte Oswald e Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Caio Prado Júnior, Mário Scheinberg, Paulo Emílio de Salles Gomes e uma interessante figura de líder estudantil, Germinal Feijó. Entre os mineiros, despontava uma destacada safra de jovens talentosos. Ao lado dos conservadores “cartolas” do Manifesto dos Mineiros, os moços da década de 40 assumiam uma posição política mais progressista, que encontraria porém, na luta antifascista, o estatuário comum da campanha democrática.

O movimento estudantil era poderoso instrumento de agitação e protesto. O velho prédio da Faculdade de Direito, já não mais existente, era o principal centro de rebeldia universitária. O ocaso de Hitler e a ascensão das nações aliadas contribuíram para o fortalecimento das convicções antifascistas e para o declínio do ditador tupiniquim. Saudoso tempo de independência e de aspirações democráticas. De sonhos gastos e esperanças frustradas.
Enquanto isso, na literatura, Mário de Andrade era o guia e mestre maior. Descobria-se Kafka e Joyce, que temperavam, com sabor erudito, o feijão com arroz da literatura nacional.

Fernando Sabino lançava Os grilos não cantam mais, para surpresa de tantos que o conheciam como vitorioso nadador. Otto Lara Resende pesquisava o veio das frases antológicas, entre a convocação militar que lhe era imposta e a vocação literária que lhe é inerente. Já Wilson Figueiredo iniciava-se na poesia e dava os primeiros passos no jornalismo.

O Rio de Janeiro era o caminho certo de poetas e prosadores provincianos que sonhavam com as sereias do mar e com a imortalidade dos gênios. Assim aconteceu com Paulo Mendes Campos, Autran Dourado, Otávio Alvarenga, Marco Aurélio de Moura Mattos, Jacques do Prado Brandão e outros. Menos Sábato Magaldi, que este desgarrou para São Paulo, em vôo mais audacioso. Entre nós, encarcerados nas montanhas, permaneceram Murilo Rubião, Emílio Moura, Francisco Iglesias e poucos mais. Ainda sem psiquiatrismo, Hélio Pellegrino transbordava seu temperamento explosivo em apopléticos discursos e audaciosos poemas de amor.

Em torno da excepcional personalidade do mestre Guignard, com os seus porres homéricos e quadros maravilhosos – criança adulta no viver e no pintar – borboleteavam seus alunos da Escolinha do Parque: Amílcar de Castro, Mário Silésio, Franz Weissmann, Marília Giannetti, Mary Vieira, Petrônio Bax e tantos outros discípulos forjados naquele inesquecível núcleo de artes plásticas criado pelo gênio de Guignard.
Na música, o artista belga Arthur Bosmans, compositor e regente, dirigia com êxito a Orquestra Sinfônica Estadual e na direção do Teatro Universitário, João Ceschiatti fazia um trabalho sério e consciente.

Poucas vezes Belo Horizonte teria acolhido uma geração tão brilhante, cuja presença dava valor e projeção à vida cultural da cidade.
Predominava, na maioria, um toque de irreverência na análise dos fatos e na conceituação das pessoas. Nessa postura, havia boa dose de ironia e inteligência, mas uma porção ainda maior de imatura e afetada intelectualidade. Assumia-se atitude contestadora, como se a contestação fosse a marca da genialidade. A insubordinação traçava os caminhos ásperos de falsa independência. Apregoavam-se verdades desmentidas pela realidade da vida. Discutia-se sobre religião, política, filosofia, literatura, teatro, que coisa fosse. Apenas num ponto eram unânimes as opiniões: o antifascismo. A geração estava convencida de que iria salvar os destinos do mundo. Pobre mundo...

Nesse clima de afirmativas inteligências, quase todas voltadas para o futuro – “os poetas dos tempos que virão” de que falava Rilke – existia uma capital tranqüila, em cujas ruas arborizadas e praças ajardinadas passeava-se despreocupadamente. A cidade era nossa, simplesmente nossa. E com doçura ela se nos oferecia, com que encantamento nós a tratávamos!

Esparsas lembranças de uma geração que acreditou na liberdade e ajudou a derrubar uma ditadura. Que abriu horizontes mais amplos para si e para as gerações vindouras. Que se afirmou e se projetou, ganhando inegável prestígio. Que nasceu e cresceu sob o signo do Estado Novo e a dolorosa influência da guerra. Que procurou a limpidez da verdade, “em meio à selva escura” da ditadura e do reacionarismo.

Arrebatados ou complexados, indóceis ou inconformados, visionários ou falsos profetas, alimentávamos o sonho de que a vida era pura e bela. Em tudo e em todos, a ansiedade: aspirávamos pela justiça, confiados na honestidade dos homens; lutávamos pela liberdade, com a crença dos ingênuos; buscávamos o encontro com Deus, na desesperança. Felizes então, de qualquer modo, felizes.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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