No vigor dos 70

Humberto Werneck

Revista Isto é, 26 de novembro de 1986;
Aos 70 anos, o contista Murilo Rubião vence um câncer, vê um livro seu chegar aos 100 mil exemplares e ataca novos projetos


Em meados da década de 70, o destino do escritor mineiro Murilo Rubião parecia decidido. À beira dos 60 anos, tudo fazia crer que ele ficaria sendo um desses autores que a crítica põe nas alturas mas que, para o leitor comum, simplesmente não existem. Festejado por especialistas da envergadura de Álvaro Lins e Antonio Candido, dois dos maiores críticos que o país já teve, ele havia publicado até então apenas três livros – todos em edições quase confidenciais, de tão pequenas e mal distribuídas. Para o grande público, Murilo Rubião realmente não existia – e nem mesmo a fantasia que embebe seus contos deixava imaginar que ele chegaria como best-seller aos 70 anos, completados em junho passado. É uma realidade. O Convidado, uma das três coletâneas de histórias atualmente disponíveis, já vendeu 10 mil cópias. A Casa do Girassol Vermelho atingiu as 12 mil; e na semana passada a Editora Ática, de São Paulo, começou a distribuir a 11ª edição de O Pirotécnico Zacarias, que totaliza agora a marca nada desprezível dos 100 mil exemplares.

Tardo, mas gratificante, o reconhecimento pipoca também no exterior, pois Rubião já está traduzido para doze línguas, do inglês ao eslovaco, do italiano ao japonês. Nos Estados Unidos, The Ex-Magician and Other Stories vendeu tão bem que a edição inicial, encadernada, já se multiplicou numa gorda e democrática tiragem de bolso – feito de que poucos escritores brasileiros, além de Jorge Amado, podem se orgulhar. Não é só. Um de seus textos mais celebrados, O Pirotécnico Zacarias, inspirou um curta-metragem do cineasta Paulo Laborne, que já prepara as filmagens de outro, Os Três Nomes de Godofredo. Um terceiro, A Armadilha, foi adaptado pela TV Cultura, de São Paulo.

São frutos inesperados que Rubião vai colhendo em Belo Horizonte, onde saboreia os vagares de uma aposentadoria como servidor público estadual. Seu amplo e bem-decorado apartamento de solteiro, no centro da cidade, sofre o permanente assédio dos mais variados tipos de leitores – de adolescentes fascinados com a magia de suas histórias a scholars decididos a escarafunchá-las com bisturis universitários. Há um brutal contraste na magra produção do escritor – 32 contos distribuídos por 6 livros – e nos calhamaços que dela se ocupam. No Brasil e na França, nove teses de mestrado e doutorado, até agora, se dedicaram à tarefa de esmiuçar a literatura de Murilo Rubião.

A revelação do artista para o grande público se deve a Antonio Candido. Ele foi um dos amigos a quem Rubião enviou seu primeiro livro, O Ex-Mágico, lançado em 1947. Na época, não se impressionou. “Eu me penitencio de não ter dado a Murilo, desde o primeiro momento, a atenção que ele merecia”, diz hoje o crítico. “Achei interessante, mas apenas interessante. Fui descobri-lo quase vinte anos depois, em 1965, quando ele lançou Os Dragões, que continha várias das histórias de O Ex-Mágico”. Sob o impacto dessa leitura, Antonio Candido escreveu ao contista: “... só agora vejo como você estava desde há muitos anos, e sem que eu percebesse devidamente, instalado de pleno direito no cerne das melhores experiências da ficção contemporânea”.
Difundido por Antonio Candido, seu nome chegou aos ouvidos de um jovem professor de literatura, Jorge Schwartz, que em 1971 buscava um tema para sua tese em teoria literária na Universidade de São Paulo (USP). Chegou também ao editor Jiro Takahashi, que procurava um ficcionista de qualidade para inaugurar a coleção Nosso Tempo, da Àtica. Jiro foi a Belo Horizonte e propôs a Rubião lançar O Pirotécnico Zacarias com 30 mil exemplares. O escritor, que em 1953 precisara pagar pelas 116 cópias de A Estrela Vermelha, reagiu com incredulidade. “Esse camarada está louco”, pensou. Os primeiros 30.375 exemplares saíram em outubro de 1974 e, menos de um ano depois, tirava-se uma segunda edição, com 10.132.

De uma hora para outra, Murilo Rubião saltou da quase total obscuridade para a berlinda literária. “Me assustei um pouquinho”, admite. Parece absurdo, hoje, que sua obra tenha permanecido na sombra por tantos anos. Povoada de mágicos e dragões, de elementos fantásticos tratados como se fossem ingredientes banais do dia-a-dia, ela era, na verdade, algo extremamente solitária na paisagem da literatura brasileira de então. O próprio Mário de Andrade, sempre atento às manifestações do novo, confessou a Murilo, numa carta, não compreender a sua ficção. “Ele não entendeu o gênero, mas fez tudo para gostar do autor”, desculpa Rubião. O contista mesmo, no início, vacilara. Por volta de 1940, quando escreveu seu primeiro texto na linha do fantástico, Eunice e as Flores Amarelas, hesitou em mostrá-lo a Fernando Sabino, seis anos mais novo, com quem costumava trocar figurinhas literárias. “Tive medo que ele achasse que eu estava doido”, lembra, “e por isso lhe contei a história como se fosse sonho”. Sabino lhe recomendou que esquecesse o sonho e escrevesse o conto. “Aí começou o fantástico para mim”, data Rubião. Nunca mais lhe faltou autoconfiança. “Eu sabia que estava trilhando um caminho que era meu e absolutamente novo no Brasil”, recorda.

Um quarto de século antes de Júlio Cortazar e Gabriel García Márquez popularizarem o realismo mágico, era fatal que houvesse reações de estranheza. Na época, o contista criara uma personagem, o Grão Mogol, um velhinho que possuía uma fortuna em diamantes e de quem não se sabia se tinha 90 anos e 40 mulheres ou 40 anos e 90 mulheres. Publicava suas aventuras no jornal onde trabalhava, a Folha de Minas. Certo dia, deparou com um fecho que não era seu, acrescentado pelo editor da página literária: “Nesse momento, eu acordava”. Justificativa do autor da emenda: “Você acha que alguém ia acreditar nisso?” Era através das crônicas na Folha de Minas que Murilo exercitava a mão. O Ex-Mágico ficou pronto em 1945, mas até conseguir publicá-lo colecionou recusas de seis editoras. Financiou 500 dos 2 mil exemplares da edição e comprou mais 1 mil para distribuir. Ele guarda lembrança muito viva de sua estréia: saiu procurando os amigos, para autografar o livro, e dormiu com O Ex-Mágico debaixo do travesseiro. “Nunca mais me emocionei tanto com uma publicação”, diria anos depois. “O que me emociona hoje é a elaboração de um conto.”

Este é, para Rubião, um longo e torturado processo. Vagaroso, ele provavelmente registrou um recorde ao demorar 26 anos para escrever uma história. O Convidado. O poeta e cronista Paulo Mendes Campos assistiu ao começo desse conto, em 1945, quando os dois dividiam um quarto de hotel em São Paulo. Segundo Paulo, o amigo consumiu uma noite e todo um bloco de papel sem conseguir passar do cabeçalho: “O Convidado – Conto de Murilo Rubião”. Sem chegar a esse extremo, quase todos os demais textos do escritor exigiram anos antes de baixar, definitivos, numa das três máquinas Olympia que ele utiliza.

Não convém, contudo, usar a palavra definitivo, porque para Rubião um texto nunca está pronto. “Nunca fiz uma releitura de livro meu que não mexesse”, confessa, eternamente em luta pela clareza, pelo termo exato. Essa obsessão pôde ser devidamente avaliada pelo professor Jorge Schwartz: sua tese pioneira sobre a obra de Rubião, de 1976, tem um anexo com mais de 200 páginas, datilografadas em espaço 1, com variantes que garimpou em 23 contos. “Murilo reescreveu mais do que escreveu”, constata Schwartz. “É uma espécie de Gustave Flaubert do Brasil.”

A ruminação literária é um hábito que ele nunca abandona – nem mesmo nas largas temporadas em que não produz contos novos. Foi assim nos anos em que trabalhou como chefe de gabinete do então governador de Minas, Juscelino Kubitschek, no início da década de 50, ou mais tarde, de 1956 a 1960, quando viveu em Madri como chefe do escritório comercial e adido à embaixada do Brasil. Na Espanha, Rubião escreveu apenas um conto – Teleco, o Coelhinho, um de seus textos mais conhecidos; mas não foram anos perdidos para a literatura: leu como nunca – e, pela primeira vez, mergulhou na obra de Franz Kafka, que, segundo alguns críticos, teria tido uma influência poderosa em sua ficção. Ele lembra, porém, que penetrou no fantástico muito antes de saber da existência do autor checo. As influências que ele reconhece são o alemão Adelbert von Chamisson (1781-1833), Edgar Allan Poe, Hoffmann, Dom Quixote, a mitologia grega, o folclore germânico – e, sobretudo, Machado de Assis. “Aos 21 anos eu já tinha lido Memórias Póstumas de Brás Cubas vinte vezes”, conta.

Influência maior que a de Machado e seu cetecismo, revela, só a da Bíblia, em especial o Eclesiastes. Lê o Antigo Testamento desde os 12 anos e nele vai pinçar epígrafes para seus contos – todos, sem exceção. O que pode parecer estranho num escritor totalmente agnóstico. “Mas em Murilo essas epígrafes bíblicas não têm conotação religiosa”, explica Jorge Schwartz, que delas se ocupou em sua tese. “Ele usa a Bíblia como uma espécie de grande livro inspirador.” O escritor confirma: “Toda a experiência humana está na Bíblia”. Educado na religião católica, ele abandonou-a de forma “dilaceradora” aos 16 anos e garante que nunca teve recaída.

“Uma ‘prova estupenda’ disso”, conta, “foi o extenuante período em que lutei contra um câncer da laringe, a partir de 1984. Não tive o menor medo”, diz sem bravata. “Não teria nem o susto de morrer e encontrar a vida eterna.” Foi um ano e oito meses de batalha – primeiro, na radioterapia, em seguida numa cirurgia que lhe custou a ablação da epiglote (ficou com a voz ligeiramente modificada) e penosos meses de recuperação. Diz que quase morreu das seqüelas dessa operação brutal, a seu ver desnecessária. “Eu estava com 73 quilos quando fui operado, e cheguei a pesar 46”, recorda. Lembra-se também da véspera da cirurgia, quando, durante um jantar em sua homenagem, teve a surpresa de ver chegarem amigos queridos que vivem no Rio – Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino, entre outros. “Percebi que era uma despedida”, evoca.

Não era, felizmente. Murilo Rubião está recuperado, e o sinal mais evidente disso é a disposição com que voltou a trabalhar em seus projetos literários. Está terminando um conto grande, quase novela, A Ilha, para uma coletânea de nove histórias, A Diáspora, que ele pretende entregar ao editor no final do ano que vem. “Será meu último livro de contos”, avisa. Depois vai atacar duas novelas: O Sr. Urber e o Cavalo Verde, para a qual vem enchendo uma gaveta de anotações desde 1965, e O navio, cuja idéia inicial navega há mais de 30 anos. “Espero ter tempo de terminar as duas”, diz Murilo. Ninguém duvida de que vai conseguir.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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