Murilo Rubião: o mágico desencantado dribla o câncer e ri

Mirian Christus

Há alguns anos, o escritor mineiro Murilo Rubião enfrentou um câncer na garganta. Por sorte, era curável. Penou bastante e compensou os sacrifícios com substanciosas mudanças em sua vida, testemunhadas por amigos mais próximos. Antes, andava pelas ruas de Belo Horizonte com terno cinza e sapatos de verniz preto. Agora, prefere camisa esporte e tênis. Machadiano confesso, menino independente na infância, amante da solidão, ele gasta seu tempo escrevendo e reescrevendo sua obra. Foge dos chatos. Já tentou se informar minuciosamente sobre os estudos acadêmicos acerca de seus livros. Desistiu. De alto astral, mineiramente ele vai driblando a morte, deixando sua obra inconclusa.

A expectativa era de uma entrevista em clima sombrio, entre as peças sacras e móveis antigos de fazendas do apartamento de Murilo Rubião. Há quase dois anos ele vem se tratando de um câncer na laringe.
A campainha soa. Murilo Rubião abre a porta e diz:
- Olá! E, então, você soube que estive mais para lá do que pra cá?
E a conversa começa descontraidamente por uma espécie de balanço de vida. Murilo de camisa xadrez miúdo e tênis preto. O detalhe parece confirmar o que os amigos andam comentando: depois da cura do câncer o escritor ficou mais alegre e adquiriu uma outra vontade de viver. Será que nós mudamos muito com a vida? Ou será que permanecemos os mesmos, na essência?
Murilo Rubião acredita que as mudanças são externas. O essencial permanece, intocado. Tanto é, que as primeiras lembranças que tem dele mesmo, criança, lá em Silvestre Ferraz (hoje Carmo de Minas) são de um menino sociável, mas muito independente, e já cultivando sua solidão. Um menino que brincava, jogava bola, mas sempre, num determinado momento, se afastava de todos com um livro na mão. E já tinha angústias.
E não era ruim sentir-se diferente dos outros? Como os outros reagiam?
- Ah, mas eu não confessava que era diferente deles. Isto só eu sabia.
E os livros iam sendo devorados. Primeiro, a biblioteca do pai, um intelectual que também escrevia seus versos, depois a de um colega. Mesmo assim, o pai obrigou o filho a uma tarefa extra – ler os clássicos portugueses: frei Luís de Souza, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco. Na época, foi um suplício. E não tinha jeito de escapar – o pai ali do lado, vigilante.
O pai. A impressão mais forte que ficou foi esta: um homem austero que mantinha até com os filhos um relacionamento cerimonioso. A mãe, filha de fazendeiros, nunca deu um beijo nos filhos. Mas isso não incomodava em nada o menino.
- Como eu era muito independente, achava até boa essa distância. E, no meu tempo, isto de muito beijo em filho era considerado uma frescura.
Lembro a Murilo as belas páginas escritas por Marcel Proust acerca do beijo da mãe antes de o filho dormir. A expectativa do beijo, a frustração quando ele não acontecia, etc., etc., etc.
- Pois é. E deu no que deu. Parece que os antigos tinham razão.
Uma coisa que poucos sabem é que o futebol já fez parte do lado social, extrovertido de Murilo Rubião. O time era o Goitacazes, time de rua. E ele jogava na posição de zagueiro. Mais tarde participou do juvenil do América em Belo Horizonte. Depois largou as lides esportivas e, como naquele tempo “o sujeito tinha de se formar em alguma coisa”, foi estudar direito. “Curso ideal para quem não tinha vocação alguma”. Trabalhou um ano na profissão, conseguiu o reconhecimento de uma associação de tecelões em sindicato (coisa muito complicada durante o Estado Novo) e, aos 19 anos, começou a trabalhar como jornalista na Folha de Minas. É a fase da “literatura braba”. Não se pensava em outra coisa. O jornal era o ponto de encontro de todos que escreviam. As discussões nos botequins, intermináveis.
A turma de Murilo era formada por João Dornas Filho, Jair Rebelo Horta, Fritz Teixeira Sales e Fernando Sabino, o mais jovem do grupo. As críticas eram impiedosas.
- E isso não provocava ressentimentos, inimizades?
- Não, porque a gente sabia que no outro dia era a nossa vez de dar o troco.
Nesse ambiente surgiram os primeiros contos de Murilo Rubião. A turma aprovou. E achou que ele tinha de deixar para lá o poeta que coexistia dentro dele com o contista. Desta fase só sobrariam uns poucos poemas.
E a turma foi crescendo. Passaram por lá Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Cyro dos Anjos, Emílio Moura. Misturavam-se as gerações.
As rodas literárias eram masculinas. E muito raras as mulheres que se interessavam por literatura. Algumas delas tiveram de esperar os maridos morrer para publicar os seus escritos. De maneira geral, as mulheres “não tinham muito assunto”. E, segundo Murilo, com elas só era possível “o relacionamento amoroso”.
As mulheres. Muitas passaram, mas poucas marcaram. Entre as que marcaram está Rachel Jardim. Para Rachel, ele mandou um dia uma cesta com jabuticabas cobertas por orquídeas. Mais tarde ela escreveu sobre isto.
E veio a redemocratização. Nessa época Murilo Rubião se acreditava um socialista.
E por que não comunista?
- Nós mantínhamos amizade com os comunistas. Mas simpatizávamos com o socialismo. Um pouco por moda, talvez. E havia uma preocupação com a liberdade, com o povo. Tudo muito romântico, meio lírico.
Depois veio a polarização entre a UDN e PSD e “não deu para se entusiasmar mais”. A política – que já não tinha sido algo prioritário, “por falta de ideologia dos partidos” – nunca mais ocupou lugar relevante em sua vida.
Os trinta anos foram um divisor de águas. Nessa idade, Murilo Rubião tomou uma decisão extrema: viver para a literatura. A publicação de O Ex-Mágico em 1947 precipita coisas que já vinham sendo pensadas.
Uma coisa ficou clara para ele. Casar, ter filhos, significaria uma sobrecarga econômica. Dividir espaço dentro de uma casa, um desvio de energia. Como na infância, a solidão parece algo a ser preservado. Principalmente dos chatos.
Às vezes a solidão incomoda. Mas no geral ele a percebe “como algo bom, rico”.
E o suicídio? O escritor já pensou em suicídio?
Já. Quem não pensou? Uma vez eu pensei mais demoradamente. Não era uma fase difícil. Pelo contrário: eu não tinha problema algum. Eu estava na fazenda de um tio meu e tinha um revólver em cima da mesa. Pensei em suicídio olhando aquele revólver. Mas sem muita convicção.
O assunto morte invade a sala. Murilo Rubião fala muito à vontade do câncer na laringe. Um ano e dez meses de tratamento: dores insuportáveis, dia e noite. Não chegou a pensar na morte porque resolveu “acreditar logo” na palavra do médico de que se tratava de um câncer curável. Apenas por um momento duvidou: na véspera da primeira operação (fez duas) foi promovido um almoço em sua homenagem. E estavam lá Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. Quando bateu o olho nos quatro amigos vindo do Rio, Murilo sentiu um calafrio: “Devo estar mesmo perto de morrer”, pensou.
Dessa frase só ficou a raiva por ter perdido a epiglote, o que o obrigou a ter de reaprender a engolir, e algumas glândulas salivares, o que provoca uma secura na boca o dia todo. “Mas já encontrei um remédio alemão bom para isto”, diz ele tomando uma dose de uísque ao seu gosto: com muita água.
Muitos amigos dizem que Murilo Rubião ficou uma pessoa mais alegre, mais disposta, mais disponível. Ele admite algumas mudanças provocadas pela saída “do fim do túnel”.
Mais uma vez a conversa envereda por uma discussão sobre a vida e a morte. Murilo diz que pensou muito na morte “até os 40 anos”. Depois, resolveu não pensar mais nesse tipo de assunto “sem solução”.
Voltamos a falar sobre o suicídio. O que ele acha da idéia de cada um determinar o seu tempo de vida? Ou prefere a continuar vivendo até quando a natureza determinar?
- É isso mesmo, responde ele. Continuar vivendo até onde der.
Mas o que a vida tem de tão bom?
- Basta viver. Nada mais importa.
E o que Murilo Rubião, segundo o historiador Francisco Iglesias, “o melhor personagem de si mesmo”, faz com o seu tempo livre, com a sua vida?
Uma das coisas é reler alguns clássicos. Entre eles Dom Quixote. E, claro, Machado de Assis. Murilo Rubião é um machadiano ardoroso. Sempre foi. Coisa que os críticos descobriram há cerca de dez anos. O delírio do surrealismo mágico contido em uma linguagem disciplinada e despojada.
Para ele, ser machadiano é algo muito simples. É colocar Machado acima de todas as coisas. E reler Machado muitas vezes, em busca do prazer da frase. Ele se recorda que era ainda jovem quando já tinha relido Memórias Póstumas de Brás Cubas umas vinte vezes.
Mas, evidentemente, não é só a técnica do texto de Machado de Assis que o atrai. É o pessimismo. E mais do que isto: o cetecismo. Murilo Rubião se considera um cético em relação à humanidade. A partir dele mesmo. Embora acredite que esteja passando uma fase de generosidade, que também implica uma condescendência maior com os outros e consigo mesmo.
Além de reler livros, Murilo Rubião dedica-se a reescrever seus próprios. Tempos atrás ele estava com planos de publicar ainda neste ano dois livros: um de contos e uma novela. Os contos haviam sido perdidos há uns quatro anos dentro de um táxi. Na época fez uma reportagem para a televisão sobre isto. E foi triste dirigir Murilo Rubião em algumas filmagens: o escritor perdido entre os carros amarelos como se estivesse procurando pelos contos perdidos. No final da reportagem vinha o apelo: que devolvessem os originais pois para os outros eles eram apenas papéis. Para o escritor, porém, representavam um trabalho de mais de vinte anos.
Os contos não foram devolvidos – mas acabaram recuperados, graças a um extraordinário esforço de memória. Entre eles estão A ilha, A cidade mutilada e A mulher que fugiu de Bratislava.
A novela, que segundo ele já está “quase pronta”, se chama O senhor Úber e o cavalo verde. Tudo começa quando um pobre diabo, vigia numa construção, resolve comprar uma bicicleta. Entrando na loja errada, um pequeno empresário à beira da falência fala horas seguidas das virtudes de um cavalo. O vigia termina virando ele próprio um cavalo verde. E começam as aventuras desse cavalo verde, que desmantela a rotina e a lógica por onde passa. O final é o cavalo e um menino andando sobre as águas do mar, em busca de um rei.
A idéia da novela surgiu há trinta anos. No começo, como em quase todos os trabalhos de Murilo Rubião, havia pouca coisa, um cavalo verde e o final, um cavalo e um menino andando sobre as águas. “O problema é o meio”, brinca ele.
Muito já se falou desta característica de Murilo Rubião, de reescrever eternamente os mesmos escritos, como uma aranha tecendo eternamente a sua própria teia. A crítica já explorou muitos ângulos deste aspecto e de outros. Aliás, é interessante notar que Murilo Rubião, cuja obra se compõe de seis livros de contos escritos em 40 anos, tenha mais de duzentos artigos de jornais e comentários sobre seu trabalho. E oito teses de mestrado e doutorado sobre sua obra.
E o que ele acha das análises contemporâneas sobre seu trabalho? Entende esta análise acadêmica?
Murilo confessa que houve uma época em que procurou entender a fundo. Comprou um monte de livros e começou a estudar. “Um dia me encontrei com o Fritz Teixeira Salles e contei a ele: estou estudando Semiótica, estruturalismo, o diabo”. O Fritz virou para mim e disse: “E você acha que um escritor tem necessidade de entender dessas coisas?” Voltei para casa e joguei todos aqueles livros fora.” Mas a crítica hoje para ele está melhorando: já consegue entender “quase a metade” do que os críticos escrevem sobre os seus livros! E, de qualquer forma, para ele a crítica acadêmica tem também um grande mérito: ter acabado com aquela busca do sentido da obra na vida do próprio autor. “O que importa se Machado de Assis era um mulato? Ou se Lima Barreto bebia muito? A obra do escritor supera o homem, vai além dele mesmo.”
Quanto à vida de Murilo Rubião, esta continua a mesma há muitos anos. Ler através do Jornal do Brasil e do Estado de Minas “o que está acontecendo”. Encontrar amigos, receber homenagens de acadêmicos que podem ser longas dissertações ininteligíveis a maioria das vezes. E reescrever seus trabalhos. Mesmo O Convidado, que começou a ser escrito em 1945, durante o I Congresso Brasileiro de Escritores e só foi publicado em 1974, ele ainda encontra” algumas frases provisórias”.
Mas não há pressa. Ele diz que, se tivesse a perspectiva de ter de realizar ainda muitos livros, talvez aceitasse o conselho do amigo Fernando Sabino de comprar um computador. Mas ele, que pensa em encerrar sua obra com mais este livro de contos e mais duas novelas que estão “quase prontas”, prefere continuar escrevendo na sua velha máquina Olympia, alemã.
Lembro a Murilo o que ele mesmo disse dias atrás sobre o fato de Carlos Drummond de Andrade ter parado de escrever há uns quatro anos: Um escritor mais velho, quando pára de escrever é porque está perto do fim”. Por um instante um silêncio denso invade a sala. Mas Murilo Rubião, rindo, quebra a tragicidade da cena:
- Por isso é que eu reescrevo sempre. Para esticar a vida mais um pouco.


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A partir da década de 40, Murilo passou a declarar-se agnóstico.

Essa entrevista foi feita logo após o seu tratamento de um câncer na laringe.

Chrystus, Mirian. “O mágico desencantado dribla o câncer e ri”. Caderno 2. O Estado de São Paulo. 20.09.1987.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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