Um escritor na arena política

Affonso Ávila para o Diário de Minas, 16 de setembro de 1955

O contista Murilo Rubião passou do realismo mágico ao realismo político – Responsável pela propaganda de Juscelino e Bias, acredita na vitória do candidato pessedista ao Catete – Os golpistas de hoje são os mesmos românticos signatários do chamado manifesto dos mineiros – Nacionalista e cem por cento com a Petrobrás – Os escritores mineiros herdeiros do espírito dos inconfidentes.

O leitor de Murilo Rubião, envolvido por aquele mundo fantástico em que decorrem os contos do “Ex-Mágico” ou da “Estrela Vermelha”, é fatalmente levado a confundir a personalidade do autor com a alma complexa e misteriosa de seus personagens. Apanhado de surpresa numa conversa de bar ou num encontro imprevisto de rua, o grande escritor poderá mesmo parecer estranho, complicado, às voltas com mil e um problemas de ordem psicológica ou metafísica, jogando-nos de repente, pelo efeito de uma frase, numa atmosfera que tanto pode ser surrealista como apocalíptica. Mas essa é uma das suas faces, aquela que o artista exprime muito bem em suas criações. O homem, o animal político de que falava o filósofo, este é bastante diferente em Murilo Rubião. Lançado desde cedo em dois meios onde se sentem mais de perto, pelo testemunho cotidiano, os grandes dramas do povo, o jornalismo e a política, ele formou uma consciência muito lúcida de participação e responsabilidade. Começando a vida como repórter simples, noticiarista de fatos sem destaque, foi galgando postos de relevo no jornalismo, na radiofonia, da administração: diretor da “Folha de Minas”, diretor da Rádio Inconfidência (mais de uma vez), diretor da Imprensa Oficial (interino), oficial de gabinete do interventor João Beraldo, oficial de gabinete e depois chefe de gabinete do governador Juscelino Kubitschek, etc. Foi a Murilo Rubião que o político diamantinense confiou sua campanha de publicidade quando candidato ao governo do Estado, foi a ele que Juscelino e Bias entregaram agora a direção da sua propaganda entre as populações de Minas.

Ninguém, pois, melhor que Murilo Rubião para trazer aos nossos leitores a palavra do intelectual esclarecido e participante neste momento em que tantas vozes responsáveis se calam diante de contínuas ameaças à liberdade de expressão e ao regime democrático. Principalmente porque se colocou corajosamente contra os dilapidadores da democracia, desde o 24 de agosto, desde os primeiros rumores de golpe em princípios deste ano. Escutamos então, isenta de paixão partidária, a voz daquele mesmo escritor que, ainda jovem demais, não se intimidou a chefiar a representação mineira ao congresso de escritores reunido em São Paulo em plena ditadura, congresso que forçou a queda da ditadura.


O POVO E OS INTELECTUAIS REAGIRÃO AO GOLPE

Nossa conversa com Murilo se deu num destes últimos dias agitados pelos boatos de esquina, pelas manchetes inquietantes, pelos pronunciamentos desencontrados. Ele acabava de voltar, em companhia do deputado Renato Azeredo, de uma viagem ao interior e veio achar a cidade e os amigos tomados pela psicose golpista. Naturalmente, fomos caminhando para a discussão do assunto. Murilo, ainda denotando cansaço da viagem, nem por isso deixou de discorrer longamente sobre a situação política:

- Não acredito em golpe, não só porque creio sinceramente na maioria democrática do Exército, como também porque o povo, na sua totalidade, não deseja soluções extra-legais. Já superamos uma época em que o Brasil se dividia em castas e não seria agora que ficaríamos na dependência de uma minoria que se jacta de falar em nome das forças armadas e do judiciário. Ainda acredito no bom-senso dos patriotas responsáveis pelo destino do país. O que se passa é apenas reflexo da ambição de homens que não tiveram como nós, intelectuais mineiros e de outros estados, a coragem de enfrentar a ditadura comparecendo ao congresso de escritores de 1945 em São Paulo, mas sim o gesto romântico de assinar um manifesto chamado dos mineiros, que faria envergonhar qualquer dos inconfidentes. Não querem perder a situação privilegiada que desfrutam depois de 24 de agosto, mesmo que para tanto tenham de recorrer a mais um golpe de Estado. Mas podem estar certos que nós, o povo e os intelectuais, reagiremos.

A uma pergunta nossa, sobre a possibilidade de um acordo em torno da adoção do parlamentarismo, o notável escritor respondeu fulminantemente:
- Falar em parlamentarismo num país que não alcançou a maturidade, que o experimentou na monarquia com resultados desastrosos, é um disparate.
Prosseguindo a nossa palestra, ouvimos o testemunho de Murilo sobre a receptividade que o nome de Juscelino está encontrando entre os seus próprios coestaduanos:
- Do meu contato diário com pessoas do interior, povo humilde e chefes prestigiosos, em razão de minhas funções no Comitê Central e também pelas viagens que tenho empreendido, posso concluir que é surpreendente a simpatia que cerca o nome de Juscelino em nossas cidades e vilas, mesmo entre elementos estranhos à coligação, pertencentes mesmo até aos quadros da UDN.
Mas – atalhamos nós – você crê que a base mineira garantirá a vitória de Juscelino, sabendo-se que pode ocorrer uma surpresa em outros centros eleitorais que consideramos francamente juscelinistas?
- Acredito sinceramente na vitória de Juscelino – respondeu o nosso entrevistado – porque há um desejo forte do povo brasileiro pela renovação completa dos quadros políticos. O homem brasileiro está cansado de ouvir estéreis discussões jurídicas e acadêmicas sobre problemas que nunca foram resolvidos. O mineiro, principalmente, que sente a obra realizada por Juscelino, que fez mais do que prometeu em sua campanha para o governo do Estado, caso virgem na política nacional.

Detendo-nos na questão do eleitorado do interior, perguntamos a Murilo Rubião se, derrotada a tese da cédula oficial, e efetivadas as eleições de 03 de outubro, não iriam os adversários de Juscelino atribuir à fraude a vitória do candidato mineiro? A sua resposta foi incisiva:
Respondo com uma pergunta: o ilustre ex-governador Milton Campos foi eleito com
uma fraude?


PETROBRÁS, NACIONALISMO E LITERATURA

Escritor consciente e colocado a serviço de uma campanha política de caráter nacionalista, pedimos a sua definição diante da tese da Petrobrás:
- Não sendo comunista – explicou-se Murilo – sinto-me perfeitamente à vontade para defender a tese da Petrobrás, que ainda poderia ser regulada por uma lei mais nacionalista que a atual.

Sobre o movimento nacionalista que, iniciado na poesia por João Cabral de Melo Neto, já se infiltra em outros setores de nossa literatura, depôs o consagrado contista, que acompanha e participa com relevo da vida literária brasileira:
- Estamos adquirindo um amadurecimento literário em que as forças vivas do nacionalismo obrigarão o aparecimento de uma corrente que se desenvolva na literatura paralelamente ao crescimento econômico do país.


PALAVRA DE ORDEM PARA O ESCRITOR

Finalizando a nossa entrevista, pedimos a Murilo Rubião que falasse um pouco aos leitores do Diário de Minas sobre o seu trabalho literário e também a respeito do ambiente intelectual de Minas. O escritor declarou então:
- A minha atividade política sufocou, por algum tempo, a literatura, mas penso que nos momentos difíceis da nacionalidade o escritor não tem direito de se alhear dos acontecimentos, ficando na posição cômoda da torre de marfim. O escritor é um cidadão com maiores responsabilidades, porque a ele cabe orientar os menos esclarecidos e não se isolar jamais dos problemas sociais e políticos. O movimento modernista de 1922 foi o autor intelectual da revolução de 30. Ser escritor não é somente candidatar-se à Academia Brasileira de Letras.

Com relação ao movimento literário de Minas, o que é mais animador é que os nossos escritores ainda se filiam à mesma linha da Inconfidência. Todos participam ativamente desta árdua campanha democrática. Para citar uns poucos nomes, devo assinalar que assinaram o manifesto já histórico de fevereiro deste ano, contra o golpe, escritores da estrutura de Emílio Moura, Mário Casassanta, Eduardo Frieiro, Bueno de Rivera, Oscar Mendes, João Dornas Filho, Henriqueta Lisboa, Abgar Renault, Lúcia Machado de Almeida, Aníbal Machado, José Carlos Lisboa, Cristiano Martins, Luiz de Bessa, Alphonsus de Guimaraens Filho, Laís Correa de Araújo, Fábio Lucas, Rui Mourão, Francisco Iglesias, e tantos outros democratas convictos.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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