O mágico desencantado

Caderno B, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, sábado, 26 de outubro de 1974

Belo Horizonte – Quase 10 anos após a publicação de seu último livro – Os Dragões – Murilo Rubião volta às livrarias com O Pirotécnico Zacarias, editado em grande tiragem pela Ática, de São Paulo. São oito histórias, nenhuma inédita, mas todas reelaboradas pelo autor, que insiste em reescrever sua obra.

No próximo mês a Editora Quíron, também de São Paulo, lançará O convidado, com nove contos inéditos. Considerado o precursor do realismo mágico na literatura brasileira – O Ex-Mágico, publicado em 1947, influenciou seguidas gerações de contistas – Murilo Rubião acha que, aos 58 anos, já é tempo de finalizar sua obra. Diáspora, seu único livro de contos inédito, será publicado no próximo ano, e ele pretende que seja o último.
- Escreverei contos apenas esporadicamente, publicando-os em revistas ou suplementos – diz – pois acredito que até o final de meus dias terei de trabalhar sobre o texto de minhas duas novelas, O Navio e O Senhor Uber e o Cavalo Verde, ambas já iniciadas.


O burocrata desencantado

“Uma frase que escutava por acaso, na rua, trouxe-me nova esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos.

Não me encontrava em condições de determinar qual a forma de suicídio que melhor me convinha: se lenta ou rápida. Por isto empreguei-me numa Secretaria de Estado” (O Ex-Mágico).

Cercado de papéis burocráticos numa sala pequena e mal ventilada da Imprensa Oficial de Minas, Murilo Rubião passa o dia inteiro a assinar memorandos, cartas, a preencher formulários e a atender ao telefone. Vez ou outra, porém, se esquece das coisas para anotar, num pedaço de papel qualquer, uma idéia que mais tarde se transformará em conto ou em capítulo de uma das duas novelas que está escrevendo. Nesta sala, onde passa quase todas as horas do seu dia, ele se julga mais escritor que burocrata.

“Quem escreve, principalmente o ficcionista, acaba pautando sua vida um pouco pela literatura. Geralmente o escritor vive a literatura 24 horas por dia, o que vai influenciá-lo não só como autor, mas também como homem, no seu comportamento e atitudes.” (Murilo Rubião, num depoimento para a Editora Ática).
- Nasci no ano de 1916 numa cidade que se chamava Nossa Senhora do Carmo do Rio Verde. Hoje seu nome é Carmo de Minas. Nasci entre livros, com pai e avô escrevendo, o que deve ter sido importante para minha vocação.

Francisco Alves de Barros Rubião, seu avô, deixou um livro de memórias e outro de pensamentos, ambos inéditos. E Eugênio Rubião, seu pai, era poeta e filólogo, membro da Academia Mineira de Letras. Possuía em casa extensa biblioteca, e nela o menino Murilo consumia as horas. Ainda criança leu toda a Bíblia e a obra completa de Machado de Assis.


Caminhada para o fantástico

A preocupação de escrever surgiu-lhe aos 15 anos, quando já trabalhava numa livraria de Belo Horizonte. “Escrevia versos, como todo escritor que se inicia”, lembra acrescentando que só aos 19 anos faria o seu primeiro conto.

- Naquela época minhas estórias ainda não tinham nada do que são hoje, embora as personagens – psicopatas, anormais e desequilibrados de toda ordem – já prenunciassem minha tendência para o mistério e para o fantástico. Havia influências de Hoffmann e Poe, mas principalmente de Machado de Assis.
Seu primeiro livro, Elvira e outros mistérios, foi recusado pela Editora Guairá, do Paraná, em 1939, e pela Cruzeiro, em 1940. Até 1945 foi recusado sucessivamente pela Editora Vitória, do Rio, pela Globo, de Porto Alegre, e pela José Olímpio. Entre uma peregrinação e outra, Elvira ganhava um novo conto e perdia outro. Até que, em 1947, tinha-se transformado no Ex-Mágico, com 15 contos, e era finalmente aceito pela Editora Universal, do Rio.
- A Universal publicou Sagarana, de Guimarães Rosa, em 1946, e O Ex-Mágico no ano seguinte, ambos por interferência do escritor Marques Rebelo.
O segundo livro – A Estrela Vermelha – seria publicado seis anos depois, em edição de luxo, pela Hipocampo, do Rio. Tinha seis contos. Só 12 anos depois – em 1965 – sairia, pelas Edições Movimento/Perspectiva, uma tímida edição de Os Dragões, com 21 histórias. Apenas nove eram inéditas, mas as outras 12 tinham sido reescritas.


A sedução pelo sonho

Em 1938, Murilo Rubião trabalhava na Folha de Minas, onde fazia de tudo, desde reportagem policial até esportiva. Naquele tempo o jornalista era bem diferente do jornalista de hoje. Escreviam-se sueltos , notas sociais, e isto até de madrugada, quando, invariavelmente, o trabalho terminava com uma sessão de bebedeira. “Estávamos no Estado Novo” – lembra – “e um dos assuntos proibidos era a política.” A literatura, entretanto, não era proibida.
- A literatura é sempre uma transformação da realidade. Eu acho que um jornalista pode pegar fatos reais e mantê-los reais, enquanto que um escritor, um ficcionista, não consegue fazer isso. O escritor sempre vê um sentido nas coisas que os outros não enxergam.

Só em 1943 iniciou-se na carreira burocrática, como oficial de gabinete do Interventor João Beraldo. Foi chefe de gabinete do Governador Juscelino Kubitschek, e de 1956 a 1960 chefe do Escritório de Propaganda do Brasil em Madri.

A burocracia parece entediá-lo, assim como a mágica entediava um de seus mais perfeitos personagens, O Ex-Mágico da Taberna Minhota, que afinal se torna burocrata como forma de morrer – e se arrepende, mais tarde, ao descobrir que, na burocracia, “não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas aflições, maior o meu desconsolo.”

“Quando era mágico, pouco ligava com os homens – o palco me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea que me causavam. (...) Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico,” lamenta a personagem.

Um mundo que seu criador, Murilo Rubião, acabou criando com suas fantásticas histórias.
- Minha opção pelo fantástico foi herança da minha infância, das leituras que fiz, e também porque sou um sujeito que acredita muito no que está além das coisas: nunca me espanto com o sobrenatural, com o mágico, com o mistério. Sempre senti uma sedução muito grande pelo sonho, pela atmosfera onírica das coisas. Quem não acredita no mistério não faz literatura fantástica.

Acha, entretanto, que o maior dos mistérios – o Absoluto – é inacessível ao espírito humano.
- A eternidade foi uma coisa que sempre me preocupou. Em criança eu era um pouco místico. O ateísmo, e mais tarde o agnosticismo, provocou em mim uma ruptura muito forte: deixei de acreditar na eternidade, e passei a me preocupar com a mutação contínua das coisas. Essa preocupação teve muita influência em minha obra.


Metamorfoses patéticas

Essa “mutação contínua” reflete-se praticamente em todos os seus contos e personagens. O Ex-Mágico enfastia-se do ofício para tornar-se burocrata, o pirotécnico Zacarias transforma-se em cores. Bárbara, que tudo deseja e tudo devora, transforma-se numa gorda monstruosa. Essa metamorfose alcança expressão máxima, caótica e patética em Teleco, o coelhinho, que na ânsia de se transformar em homem metamorfoseia-se em toda espécie de animal, real e imaginário. Até que, finalmente, transmuta-se numa criança morta.

Álvaro Lins, um ano após a publicação de O Ex-Mágico, comparou Murilo Rubião a Kafka, e apesar de reconhecer a originalidade do escritor, fez restrições à sua obra de estréia por acreditar que tinha influências exageradas do escritor tcheco. Para Murilo, entretanto, esta influência não existe. “Só vim a conhecer Kafka em 1946, já com O Ex-Mágico escrito.

- Minha cultura é européia, e isso se reflete em minha literatura. Mas o autor que acredito tenha exercido alguma influência em mim foi Machado de Assis. Fui muito influenciado também pela leitura constante da Bíblia. Nela você encontra trechos que são inteiramente surrealistas, fantásticos. O Apocalipse é um exemplo do que estou afirmando.

Acredita que tanto ele quanto Kafka buscaram inspiração nas mesmas fontes: na Bíblia e na mitologia grega.
- O que é Metamorfose senão a reinvenção do mito de Proteu, pastor do rebanho marinho de Júpiter, que por detestar predizer o futuro, dom que lhe foi concedido, transformava-se em animais para não o fazer? Era uma fuga do que não lhe agradava – a mesma fuga de Gregório Samsa, que, na Metamorfose de Kakfa, transforma-se em animal para fugir da família.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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