Um certo Rubião

Matéria para o Jornal Hoje em Dia, caderno Cultura. 25 de Junho de 2010

Quando Murilo Rubião (1916-1991) estreou em livro, em 1947, com os contos de “O Ex-Mágico” – que abre com uma citação bíblica dos Salmos (“Inclina, Senhor, o teu ouvido, e ouve-me; porque eu sou desvalido e pobre”) e uma frase afirmativa e amarga (“Hoje sou funcionário público e este não é o meu desconsolo maior”) – houve quem apontasse a semelhança entre os textos do escritor mineiro de Carmo de Minas e certas obras do tcheco Franz Kafka (1883-1924), nome de destaque do onírico e do fantástico na literatura universal e um dos maiores da língua alemã no século 20. Rubião nunca admitiu as semelhanças e, décadas depois, em entrevistas, argumentava que quando chegou a ler Kafka já tinha publicado a maior parte de seus contos.

Rubião também não admitia filiação aos escritores do chamado “boom” do realismo mágico da literatura latino americana, que a partir de 1960 ganhou repercussão no mercado editorial na Europa e Estados Unidos por conta do prestígio adquirido por escritores como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Gabriel Garcia Marquez, entre outros. Homem público destacado em Minas Gerais, fundador e redator de jornais e revistas, criador do “Suplemento Literário do Minas Gerais” (semanário que, sob seu comando, será por alguns anos uma das melhores publicações do gênero no Brasil), Oficial de Gabinete do governador Juscelino Kubitschek de 1951 a 1955 e chefe da publicidade de JK a disputa pela Presidência da República, em 1956, Adido Cultural do Brasil na Espanha de 1953 a 1960, Murilo Rubião ocupa um lugar ímpar na literatura brasileira, com sete livros publicados de 1947 a 1990, reunindo 32 contos breves.

Morto em 1991, Rubião retorna à cena com a edição de sua “Obra Completa” (232 páginas, R$ 24) pela editora Companhia das Letras, que reúne 33 textos. “Incluímos na edição o conto ‘A Diáspora’, que não foi publicado em vida pelo autor, mas que estava em versão final, datilografada e revisada por ele, nos arquivos que fazem parte do Acervo dos Escritores Mineiros instalado na UFMG”, explica a professora aposentada de literatura da UFMG, Vera Lúcia Andrade, responsável pela transferência dos arquivos de Rubião para a universidade e pelo estabelecimento dos textos na nova edição.

“A obra completa do Rubião foi estabelecida para publicação na editora Ática, em 1998. Mas as obras saíram em edições separadas, e não em um único volume, como agora”, explica a professora. Rubião morreu às vésperas da abertura de uma grande exposição no Palácio das Artes sobre sua vida e obra, com curadoria de Márcio Sampaio. Com a morte do escritor, arquivos e objetos da exposição foram transferidos para o acervo da UFMG.

“Ele passou a vida reescrevendo os mesmos textos, de tão perfeccionista e cuidadoso que era”, destaca Vera Andrade, revelando que há ainda no acervo de Rubião vários textos incompletos que permanecem inéditos. “Os herdeiros não autorizarama publicação porque o próprio autor disse que eles ainda não estavam concluídos. Então, permanecem inéditos”, explica.

O espantoso talento de Murilo de narrar, como se fossem fatos corriqueiros, acontecimentos os mais inusitados, transparece nas 33 obras-primas reunidas na “Obra Completa”. Como na história só aparentemente absurda do pirotécnico que, morto, segue vivendo. Ou no caso da mulher que engorda desmedidamente conforme seus desejos vão sendo atendidos. Ou o coelhinho falante que aborda o narrador comum pedido e, mutante, se insinua em sua vida. Ou ainda no desespero do mágico devorado por sua própria capacidade de operar prodígios. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista com Vera Andrade sobre a obra de Murilo Rubião.

Quem foi mais importante e influente, o Rubião da política ou o escritor?
Ambos são igualmente importantes, o escritor, porque é o precursor da literatura fantástica no Brasil e o seu exemplo mais bem acabado; já o Murilo da política cultural influenciou toda uma geração de escritores, que ficou conhecida como a “Geração Suplemento”. Ele foi o “guru” dessa geração.

Que lugar ele ocupa na literatura e na cultura brasileira?
Murilo ocupa um lugar de destaque porque foi um homem público comprometido com o seu tempo, além de ser um escritor de uma escrita impecável, preocupado sempre em escrever e reescrever seus textos.

Ele sempre dizia que seus contos traziam a influência de Machado de Assis, da Bíblia e da Mitologia Grega. Esta tríade resume o universo de Rubião?
Na verdade, essa tríade representa bem as influências que ele traz em sua obra, mas não “resume” o universo de sua literatura, que é riquíssimo: Murilo foi leitor também de Hoffmann e dos demais românticos alemães, bem como de Pirandello, para citar apenas alguns autores.

Qual a importância da publicação da “Obra Completa”?
É de grande importância, por dar mais visibilidade ao autor, colaborando para uma maior divulgação de sua obra, não só para o grande público leitor, mas também para os especialistas.

O que ainda existe de inédito entre os escritos de Rubião?
Existem contos praticamente acabados, além de esboços de outros contos, e até de uma novela, mas esses textos, parece-me, continuarão inéditos, pelo menos por muito tempo.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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