O Homem dos Contos

Matéria para o Jornal Hoje em Dia, caderno Cultura. 25 de Julho de 2006

Introdutor do realismo fantástico na literatura brasileira, um dos principais nomes da cena literária nacional no século XX, o escritor Murilo Rubião (1916-1991) morreu há 15 anos, num 16 de setembro. Hoje, a partir de 19h30, no Palácio das Artes, o escritor será tema de debate com a participação do jornalista e pesquisador Humberto Werneck (“O Desatino da Rapaziada”) e os ensaístas Eneida Maria de Souza, Sérgio Alcides e Camila Diniz (atual editora do “Suplemento Literário de Minas Gerais”, idealizado e fundado por Rubião).

Além do microssimpósio, serão lançados hoje à noite os dois primeiros volumes da obra completa de Murilo Rubião, “A Casa do Girassol Vermelho” e “O Pirotécnico Zacarias”, publicados pela Companhia das Letras, de São Paulo (SP), com a organização de Humberto Werneck.

O terceiro volume, “O Homem do Boné Cinzento”, sai, pela mesma editora, em abril de 2007. À tarde, a partir de 15 horas, Werneck doa exemplares dessas duas obras-primas de Rubião, além de dois mil outros livros, para a biblioteca comunitária do bairro Urca, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. O escritor fala sobre a obra Rubião para professores e estudantes da região.

Murilo Rubião veio ao mundo na cidade de Carmo de Minas, sul do Estado, onde morou somente durante o primeiro ano de vida, mudando-se em seguida para Belo Horizonte. Em cinco décadas de ofício literário, Rubião
escreveu pouco mais de 50 narrativas curtas, a maioria publicada de forma esparsa em jornais e revistas.

Perfeccionista e rigoroso, suprimindo de epígrafes até parágrafos inteiros, selecionou apenas 33 textos, que se tornariam seu definitivo e apaixonado legado literário. As edições da Companhia das Letras são caprichadas, numericamente exatas (apenas 11 textos em cada um dos livros, como desejava Rubião), com novos posfácios, farta cronologia e tiragem inicial de três mil exemplares.

Rubião também foi o idealizador do “Suplemento Literário de Minas Gerais”, fundado em 1966, e que completou recentemente 40 anos de atividades praticamente ininterruptas, sempre apostando na revelação de talentos.

Na visão de Humberto Werneck, Murilo Rubião era autor absolutamente original. “Os escritores em geral se dividem, ou são didaticamente divididos pela crítica, em correntes, escolas, times. Rubião é um caso à parte. Durante muitos anos não houve no Brasil, e talvez não haja ainda, um contista tipo Murilo Rubião”, observa.

Werneck considera que, para entender melhor a singularidade da obra do autor de “O Pirotécnico Zacarias”, é preciso recuo temporal à segunda metade da década de 1960, quando acontece o chamado boom da literatura hispano-americana. “Autores como o colombiano Gabriel García Marquez e o argentino Julio Cortázar ganharam, então, leitores mundo afora, com uma prosa de ficção que, com sua atmosfera de sonho, leva o rótulo de realismo mágico, ou de realismo fantástico”, salienta.

O autor de “O Desatino da Rapaziada” lembra que, somente após o sucesso desses autores latino-americanos no Brasil, a crítica e o público começaram a perceber a importância do escritor mineiro. “A matriz da ficção de Murilo Rubião não era, porém, exatamente a mesma dos hispânicos. Cristalizou-se, sobretudo, na leitura apaixonada de Machado de Assis, além da Bíblia, livro em que ele, mesmo agnóstico, ia garimpar epígrafes para seus contos”, frisa Werneck. “E não teve, como sustentaram alguns, influência de Franz Kafka, pois era autor maduro e publicado quando leu pela primeira vez o escritor tcheco”, complementa.

Os três primeiros livros de Murilo Rubião, “O Ex-Mágico” (1947), “A Estrela Vermelha” (1953) e “Os Dragões e Outros Contos” (1965) tiveram tiragens modestas, foram pagos do próprio bolso do autor, sem contar a péssima distribuição. A obra de 1965, por exemplo, publicada pela Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais, mal chegou às livrarias.

Para Werneck, só no começo dos anos 70, os contos de Rubião começam a alcançar a merecida repercussão. “Não é de espantar que Murilo tenha reagido com ceticismo quando, no início dos anos 70, bateu em sua porta, em Belo Horizonte, o editor paulista Jiro Takahashi, disposto a publicar uma coletânea de contos seus”.

O escritor mineiro achava que tal edição seria um fracasso e entrou em êxtase quando foram vendidos mais de cem mil exemplares de “O Pirotécnico Zacarias”, na publicação da editora Ática.

A economia de Rubião é, conforme o raciocínio de Werneck, uma das razões de seu êxito. “O discreto Murilo foi uma prova de que não é preciso escrever pelos cotovelos para ser um grande escritor”, afirma, aludindo aos 33 contos escolhidos pelo autor para figurarem como sua legítima obra completa.

“Embora fisicamente magra, sua obra pára em pé na estante de nossa melhor literatura. E isso, em boa medida, pelo fato de Murilo ter sido um reescrevedor obsessivo. Rasgou livros prontos e jamais releu um conto seu sem retocar o texto, nesta busca da perfeição que vem a ser a marca dos artistas genuínos”.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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