Ao mestre Rubião

Artigo de Carlos Herculano Lopes para o Jornal Estado de Minas, caderno Cultura. 25 de Julho de 2006

Nestes dias, quando toda a imprensa brasileira está reverenciando o mestre Murilo Rubião pelos 90 anos do seu nascimento, e ainda devido ao oportuno relançamento, pela Editora Companhia das Letras, de A casa do girassol vermelho e O pirotécnico Zacarias, livros indispensáveis para quem quiser conhecer o melhor da literatura brasileira, me vêm à lembrança algumas passagens que tive com ele aqui em Belo Horizonte. Além de termos sido vizinhos no Bairro Serra, sempre nos encontrávamos nos bares do Edifício Malleta, ou na Imprensa Oficial, onde ele foi diretor durante um tempo. Eu dava meus primeiros passos na literatura e, às vezes, poder desfrutar da companhia de Murilo Rubião, que foi uma lenda para a minha geração, sempre era um privilégio.

Em 1982, quando lancei meu segundo livro de contos, Memórias da sede, cujas histórias vinham sem nenhum tipo de pontuação, embalado pela leitura de alguns textos de Gabriel García Márquez, sobretudo O outono do patriarca, lembro-me que Murilo me disse, depois de tê-lo lido: “Com essa bobagem de não pontuar seus textos você acabou perdendo a chance de publicar um livraço”. Tempos depois, vi que ele tinha razão, pois é um trabalho que não pretendo reeditar. Outra vez, lá
pela metade dos anos de 1980, quando andava procurando um nome para o meu primeiro romance, aconteceu de me encontrar com ele e o poeta Antônio Barreto no Pelicano para tomarmos uma cerveja. Mais tarde, Bartolomeu Campos Queirós e Oswaldo França Júnior também apareceram.

“Já arranjou um nome para o seu livro, Herculano?”, ele quis saber. “Estou pensando em Isauras”, respondi. Na hora Murilo Rubião franziu a testa, deu mais uma tragada no cigarro, outra golada no uísque e disse, do alto de sua autoridade: “Não está bom, e além do mais já tem A escrava Isaura”. Foi o suficiente para ali mesmo, naquele exato momento, eu desistir da idéia. Algumas semanas depois, em Diamantina, onde me encontrei com o cantor Tadeu Franco – que acaba de lançar um CD belíssimo, em nome do amor –, o título acabou surgindo, “roubado” de uma música sua: A dança dos cabelos, que ele cantou divinamente para nós em um dos bares do velho Tejuco, onde tive a alegria de voltar recentemente. Quando o livro saiu e dei um para o Murilo, na hora em que o recebeu, ele não fez nenhum comentário. Mas depois me disse: “O nome não é lá grandes coisas, mas desta vez você acertou”.

Voltando àquele encontro no Pelicano, onde ficamos quase até meia-noite, Bartolomeu Queirós disse a Murilo Rubião que estava querendo parar de fumar. Sem se fazer de rogado, ele respondeu, enquanto acendia o terceiro ou quarto cigarro: “Será que a vida merece isso?”. Naquela noite, no seu famoso Opala azul, Oswaldo França Júnior, que era outro ídolo da minha geração, nos deu uma carona até nossas casas. Poucos dias depois, Murilo Rubião, que costumava demorar até 20 anos para escrever uma história, esqueceu os originais de um livro dentro de um táxi, e ficou muito triste por não ter conseguido encontrá-los, apesar
de todo esforço que fez.

A última vez que o vi, de novo lá no Malleta, foi no início de setembro de 1991, após eu ter lançado Sombras de julho, com o qual, no ano anterior, havia vencido a Bienal Nestlé de Literatura. “Gostei muito do seu livro e queria convidá-lo para tomar um chope hoje à noite”, ele me disse em um telefonema para a minha casa. Eu já não morava mais na Serra. Alguns dias depois, aos 75 anos, o mestre Murilo Eugênio Rubião nos deixou.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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