A “Academia” da Liberdade

Maria Luiza Ramos
Diário de Minas, 07 de outubro de 1951


O sr. Juscelino Kubitschek de Oliveira é mesmo um admirador das artes. Quando prefeito da Capital, s. excia tornou público o seu interesse pela arquitetura procurando dar à cidade um aspecto novo, através das linhas livres e arrojadas do Cassino, do Iate Clube, da discutidíssima Igreja de São Francisco e até de sua própria casa de campo, que mandou construir à beira da lagoa da Pampulha.

Não satisfeito, s. excia determinou que também a decoração desses edifícios fosse entregue a renomados artistas, que, principalmente naquela época, assombravam o pacato e tradicional público mineiro com seus painéis e murais de concepção modernista.
Niemayer, Portinari e Santa Rosa atraíram para a Pampulha caravanas de turistas que pensavam encontrar em Minas apenas Ouro Preto, Mariana, Sabará e Diamantina, com seus relicários da época colonial.

Mas não foi só isso. A música e a arte cênica atraíram também a atenção do prefeito Kubitschek, que sentiu a necessidade de dotar a cidade de um grande teatro, onde os mineiros tivessem oportunidade de apreciar as representações de celebrados artistas, não só importados como também descobertos no seio de nossa própria gente, que teria, assim, maiores possibilidades de se dedicar ao aperfeiçoamento artístico.

Pena é que esse grande plano não passou de utopia, e somente os morcegos possam voltear com suas longas asas, noite adentro, no enorme palco que nunca foi concluído e que apenas a luz furtiva de um ou outro vagalume ilumina.

Mas estas são coisas do passado. Agora, como governador, s. excia quis variar de musa. Deixou de lado as artes plásticas (o que tem provocado muitas queixas dos interessados, tendo mesmo o pintor Santa Rosa feito uma crônica a respeito) e tomou-se de amores pelas belas letras.

Não que esteja escrevendo o seu Esperidião. Pelo menos, ainda não ouvi boato algum sobre isto. Entretanto, embora suas inúmeras ocupações o impeçam de enveredar literatura a dentro de maneira direta e positiva, como fez o sr. Benedito Valadares, procurou estar em contacto constante com as nossas letras, recorrendo ao recurso útil e agradável de cercar-se de intelectuais.

Assim, convocou para o serviço de seu gabinete alguns dos nomes mais ilustres da moderna literatura mineira, o que é, sem dúvida, um fato inédito na história dos governos de Minas.

O palácio da Liberdade tomou ares de academia, tantos são os ilustres escritores que têm já o seu “bureau” e cruzam a todo instante as muitas portas que dão acesso ao gabinete de S. Excia.

Quando, há pouco, fui a palácio, querendo falar com o Chefe de Gabinete do Governador (naturalmente, para amolar e pedir coisas, como todo mundo) e encontrei o Murilo Rubião numa salinha apertada e entulhada de calhamaços de processos, confesso que tive pena. Fiquei procurando naquele homem que falava em dois telefonemas ao mesmo tempo, dando ordens e assinando papéis, o Murilo artista que escrevia os contos mais malucos que se possa imaginar.
Sim, porque o atual chefe de gabinete é escritor premiado pela Academia Brasileira de Letras, pelo seu livro de contos “O ex-mágico”, publicado em 1947, no Rio de Janeiro.

No meio daquela barulhada de máquinas de escrever e campainhas, fiquei pensando se ele se sentiria como a sua personagem que, tendo entrado para o Serviço de uma Secretaria de Estado, perdeu a sua faculdade sobrenatural de fazer mágicas – a burocracia a havia aniquilado – e o coitado passou o resto da vida a se lastimar: “sem os antigos e miraculosos dons de mago, não posso abandonar a pior das profissões humanas”...

Mas parece que, felizmente, a burocracia ainda não atuou sobre ele, pois, segundo tive notícia, já anunciou para breve a publicação de mais um livro de contos – “Os Dragões” – que vem aí numa edição Hipocampo.

O secretário particular de s. excia - Cristiano Martins – é outro escritor de projeção nacional.

Escrevendo primeiramente sob o pseudônimo de Marcelo da Sena, obteve uma apreciação do crítico Tristão de Ataíde que o qualificou de “excepcional”. Depois, com seu verdadeiro nome, publicou dois ensaios de grande repercussão: “Rilke – o poeta e a poesia” e “A elegia de Mariembad”.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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