Exposição do Galo

O texto a seguir foi publicado no Diário da Tarde, Belo Horizonte, 27 de maio de 1944. No arquivo, na folha em que está colado o recorte, o próprio Rubião escreveu, em máquina de datilografia: Moacir Andrade. O texto é assinado por Gato Felix e diz que Moacir Andrade já havia falado sobre a exposição. Ao final do texto, aparece um “homem da rua” dando sua opinião sobre a exposição de arte moderna em BH. O texto não aparece em sua íntegra no recorte que consta no acervo. A parte final se perdeu.

Bar do Ponto
Gato Felix

A “Exposição do galo” e o “homem da rua”

E a Exposição de Arte Moderna?
Destinada a promover debates, ela parece meter medo aos que deveriam pronunciar-se.
Até agora, sobre a Exposição do Edifício Mariana, só escreveram Jair Silva, Djalma Andrade e Moacir Andrade. Todos três, traduzindo impressões que não são de técnicos em pintura: as impressões da maioria...
O “Estado de Minas” anunciou uma série de entrevistas, para manter o debate. Falou, porém, exclusivamente o nosso amigo e brilhante colega Guimarães Menegale. É a favor da Exposição. É contra a arte esclerosada. Quer vida, mudança, criação. Considera que os pintores antigos já deram o que tinham de dar, explorando suficientemente os velhos termos. A seu ver esgotaram o verde das paisagens...
Guimarães Menegale não admite que alguém saia rindo da Exposição. Permite que a critiquem e até a insultem, mas rir é que não! A entrevista de Guimarães Menegale, que deveria abrir caminho para outras – pois assim prometera o jornal – mereceria atenção, porque entre nós aquele jornalista e escritor está na vanguarda dos homens de inteligência e de cultura, com autoridade, portanto, para falar e ser ouvido. No caso, entretanto, da Arte Moderna, Guimarães Menegale tem o seu julgamento comprometido: ele é um dos pais da criança, pois foi o seu organizador, como inspetor de Cultura e Saúde da Prefeitura. Deveria defender a sua obra. Já se viu o pai considerar o filho aleijado um monstrengo? Isso fica para os de fora...

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Ninguém mais se pronunciou sobre a Exposição. Por quê? Se estava o debate aberto, o repórter com o ouvido atento e o lápis pronto, por que não se conhecem outras opiniões?
Por que não temos a opinião de Aníbal Matos, cujo grande valor de artista os “modernistas” não podem reconhecer, porque Aníbal Matos tem um mal que eles não toleram: pinta uma floresta e a gente sente e vê a floresta, enquanto a floresta para eles pode ser confundida com uma omelete. E a opinião de Genesco Murta, outro nome conhecido de nossa pintura? E Renato Lima? Eugenia Rubião? Esses os pintores. Por que não falaram – depois de Menegale – outros escritores que embora não sejam técnicos em pintura, têm igualmente autoridade para opinar? Seriam interessantes, sem dúvida, as opiniões de um Mário Casassanta, um Mário Matos, um Emílio Moura, um Ciro dos Anjos, um Abílio Brandão, um Murilo Rubião, uma Henriqueta Lisboa e outros, que, poetas e escritores de sensibilidade, poderiam dizer palavras – a favor ou contra, não importa – mas, enfim, palavras de orientação para os visitantes da Exposição.

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Ninguém, porém, se pronunciou. Ninguém. E podemos informar que alguns foram procurados e esquivaram-se..

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Pois bem: a Exposição está aberta para o povo. Os “leaders” recusam-se a falar? Mas o povo fala. Diz o que sente, porque o povo supõe que a Arte é para ser sentida e compreendida...
Não lhe explicaram que o “modernismo” não é para ser compreendido.
E o povo está falando...
E o povo está falando...
E, ao contrário do que deseja o meu querido e intransferível amigo Guimarães Menegale, está rindo, rindo demais mesmo.
Se coisas muito sérias, seríssimas, até trágicas, sugerem ao nosso povo pilherias deliciosas ( e Guimarães Menegale sabe que é assim, e com que autoridade!) por que ele quer que alguns quadros da Exposição de Arte Moderna sejam vistos de cara fechada, quando eles valem por dezenas de dedos fazendo cócegas em cada lugar que o indivíduo tiver mais sensível?

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Não querer que o povo desça rindo da exposição é uma crueldade digna de um espírito tenebroso de fascista, mas não de um democrata como Guimarães Menegale, que prega, com rara eloqüência, liberdade nas tribunas. Verdadeiramente me surpreende a sua indignação ( que eu tanto admiro contra o Integralismo, Hitler, Mussolini e a estupidez humana) manifestada agora contra o povo que ri ... Até parece que foi ele quem estrangulou o galo do Portinari, que lá está adiante da pobre ave, que nem Zuquim e o dr. Passos Junior conseguem identificar...

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Já que os técnicos se calam, o povo ( esse povo por cuja palavra livre tanto se batia Guimarães Menegale) tem o direito de dizer o que sente. Não pusessem, então, a Exposição aberta para ele... Fizessem convites especiais e vedassem a entrada do “homem da rua”.

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É de um desconhecido “homem da rua”, que recebi a seguinte apreciação sobre a Exposição de Arte Moderna, que publico, porque o repórter nunca iria atrás deles.

EXPOSIÇÃO DE GRANFINOS

Visitei, ontem, a Exposição de Arte Moderna. Como homem do povo, quero também me manifestar, afim de que o assunto não percorra, apenas, o clássico ciclo de Helena... Noto que a chamada Arte Moderna é tão somente sugestiva, às vezes grosseira, marcadamente infantil. Sugere apenas o inacabado. Nada mais. A impressão, que o artista quis transmitir, ficou sacrificada pela pressa ou velocidade, palavrinha de ouro na boca dos Portinari exóticos.
Unidade, Velocidade, Brasilidade, Universalidade – são os fundamentos da mutilada Arte. Ao lado de paisagens raquíticas ( mais parecem trabalhos de principiantes retardados), deparamos quadros disformes, monstrengos, verdadeiros magatérios. Duas telas, entretanto, nos agradaram – nºs 28 e 66. A primeira é de autoria de Percy Deane e fixa uma pose de Marques Rebelo; a segunda é contribuição de Osir Rossi, tendo como legenda “Sono”.
O mérito nº 1 da Arte Moderna deve ser unicamente o impressionismo: daí o excesso bruto de tintas berrantes, sacrificando a pureza das linhas. Com a preocupação única da originalidade, os modernos deturpam a realidade. Como que temem as nuances vulgares da arte clássica (Veja-se, por exemplo, o par de beiços de “Mãe Moça”. Aquilo nunca foi beiço de mulher loura. Mais se assemelha a chafariz de praça pública, ou cabeça de porco espinho...). O artista moderno-velocíssimo-enlouqueceu, enxergando as coisas mais simples com vidros de aumento.
Arte tumultuária, sobrecarregada de complexos subjetivistas, só compreensível a um reduzido número de iniciados, a nova arte peca pela seriedade. O “animal róseo”, que é o homem comum, nada pega. Tarsila do Amaral e sua valorosa equipe de arte coreográfica estão brincando de passar susto nos mineiros. Nos intervalos, caem no samba (nº 120 – “Samba do morro”), ou dançam a cirandinha com modestos roceiros (nº 96 – “Casamento na roça”). E o mineiro, sentencioso, de olhar malicioso, compreendendo a “blague”, deixa o recinto da Exposição, safado da vida. É que, em Minas, existem solares antigos, ocupados por homens de espírito, que, intoxicados, embora por Gides, Prousts, Bretons, Alains, Cedrars, Valerys, Rimbauds, Vauvenargues... veneram ainda telas da velha e difamada arte, que produziu monumentos como “Pietá”...
Realmente que não acredito na Seriedade da Arte Moderna. Arte de excitados, nevróticos, de tendências oscarualdianas, ela não passa de revanche de um grupinho de moços originalíssimos só explicável nos grandes centros, nas grandes capitais.





1944 Mai. - Exposição do Galo
1945 Jan. - 1º Congresso Brasileiro de Escritores
1947 Out. - 2º Congresso Brasileiro de Escritores
1951 Jun. - Notícias Literárias
1951 Out. - A “Academia” da Liberdade
1955 Set. - Um escritor na arena política
1968 Jun. - Grande espetáculo por mês
1971 Mai. - Um conto em 26 anos
1972 Set. - Curt Lange
1974 Out. - O mágico desencantado
1984 Out. - AIRP homenageia Murilo
1986 Mai. - Geração Mineira
1986 Nov. - No vigor dos 70
1987 Set. - Murilo Rubião: O mágico desencantado dribla o câncer e ri
2006 Jul. - Ao mestre Rubião
2006 Out. - Fantasmas, fantoches, fantasias
2006 Set. - O Homem dos Contos
2010 Jun. - Um certo Rubião
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