A Última Entrevista
Um depoimento do autor, nove dias antes de morrer.
Publicada na Folha de São Paulo, em 5 de outubro de 1991.

ADRIANA KAUFFMANN
FERNANDO BASTOS
MONICA SCHOENACKER
NAO YUSA
VINICIUS REZENDE
Especial para a Folha


“Não tenho medo de morrer, nem me preocupo com o terno que vão escolher para a viagem”, afirma o escritor Murilo Rubião na entrevista a seguir, feita nove dias antes de sua morte, ocorrida em 16 de setembro. Foi realizada no apartamento do escritor, no centro de Belo Horizonte, com o objetivo de discutir a adaptação para vídeo de um de seus contos, “Teleco, o Coelhinho”. Rubião acabou por falar de quase tudo: de vida após a morte (na qual ele preferia não acreditar), da sua opção exclusiva pelo conto, da Bíblia e até de LSD: “O Paulo Mendes Campos insistiu muito que eu experimentasse, mas eu me acovardei”.



Pergunta – O senhor é muito assediado por pessoas interessadas em conhecê-lo?
Resposta – Eu procuro escapar muito. Toda vez que elas me procuram eu vou adiando. Agora, com a doença, eu tenho ótimas desculpas. Mas isso varia muito. Como o sujeito que chega aos 75 anos está sempre em véspera de morrer então tem muita gente também que pensa: “Preciso conhecer esse cara antes que ele bata as botas. Pode embarcar antes de se despedir”.

Pergunta – O senhor tem medo da morte?
Resposta – Não, não tenho medo da morte. Até receberei ela bem. Às vezes me preocupo um pouco com os problemas que eu vou causar: enterro, missa de sétimo dia, que a família não vai dispensar convite de jornal... O resto vai ser muito simples, nem me preocupo com o terno que eles vão escolher para a viagem.

Pergunta – E vida após a morte, o senhor crê?
Resposta – Eu vou ter certa surpresa se tiver vida após a morte. Eu não acredito muito em vida após a morte, não. Eternidade... Você imagina se o negócio for eterno... É o castigo. Eu tenho uma das epígrafes... “naquele dia...”, eu não me lembro de cor, mas, que os homens vão desejar morrer e não conseguirão (“E naqueles dias os homens/Buscarão a morte e não a acharão/Desejarão morrer e a morte/Fugirá deles “– Apocalipse, 9, 6 – epígrafe do conto “ Os Comensais”).

Pergunta – O Sr. é cristão?
Resposta – Eu não tenho religião, não. E nem sei se tenho Deus. Mas também não sei se não tenho, ou se tenho também um pouco. Eu fui profundamente cético, mas com um sentimento religioso muito profundo.

Pergunta - o Sr. costuma abrir cada um dos seus contos com uma epígrafe da Bíblia...
Resposta – E só do antigo testamento, que é exatamente o mais mitológico, o mais forte, e de uma religiosidade violenta... Não tem aquela coisa de multiplicar pão nem peixes. É aquela violência das profecias, do mundo acabar, do castigo, de Deus castigar violentamente os infiéis, um Deus que expulsa Adão e Eva do Paraíso, que é pouco compreensivo, mas autêntico.

Pergunta – Como o Sr. Alcança esse trágico em sua literatura?
Resposta – Eu procuro fazer literatura o mais friamente possível. É a maneira do sujeito chegar ao trágico, tratar o negócio com frieza e ir envolvendo o leitor.

Pergunta – Por que o senhor só publicou contos?
Resposta – Eu tenho algumas novelas inacabadas, toda esquematizadas, mas romance não. Porque a minha vocação foi sempre a síntese. Acho que no romance você perde muito tempo, um tempo desnecessário. Aquilo que poderia ser perfeitamente um conto, o sujeito estica com... É o caso do romance “Grande Sertão: Veredas”: é uma série de contos.

Pergunta – O senhor cria, recria, reescreve, reelabora, demora anos às vezes para chegar a uma forma definitiva. Qual é a estrutura de seus contos?
Resposta – Geralmente meu conto, principalmente o “Teleco”, começa como se não fosse acontecer nada e de repente começam a acontecer coisas incríveis. É profundamente trágico o Teleco.

Pergunta – Em que circunstâncias, o senhor escreveu “Teleco, o Coelhinho”?
Resposta – Foi o único que escrevi na Espanha. Esse conto, eu estava com ele entalado até aqui. Não conseguia... tinha uma porção de idéias... mas quando estava na Espanha, fui ao Norte da África passando por Gilbraltar eu tive a impressão de que vi o Teleco naquelas rochas de Gilbraltar. Ele me veio forte, eu voltei para Madri e escrevi o conto. Já tinha quase tudo detalhado. Trabalhei meses no conto que me perseguia desde 1950... Não, desde 1945 no Rio, porque eu morei no Rio, e só fui escrever em 1958, em Madri, quando comecei a dar a forma definitiva.

Pergunta – O seu imaginário é muito rico, suas histórias são repletas de imagens alucinadas, vibrantes e insólitas. O senhor já experimentou o ácido lisérgico?
Resposta – Uma ocasião, o Paulo Mendes Campos chegou quase a me convencer a experimentar. Ele e depois outros também. Mas eu me acovardei, sabe?

Pergunta – O forte apelo visual de seus contos pede um exercício da imaginação. Como o senhor vê a transposição de sua obra para outras linguagens, como o vídeo ou o cinema?
Resposta – Os leitores têm a liberdade de interpretação. Eu deixo muita coisa para o leitor completar. Olha, eu fiquei sinceramente entusiasmado com vocês, que pretendem adaptar o “Teleco”. Não acreditava muito nessa coisa. Agora, de uns anos para cá, estão realizando filmes. Mas, antigamente, era muito comum o sujeito dizer assim: “Ah! Eu quero fazer um filme daquele conto seu ‘A noiva da Casa Azul’“. Alguns anos passados o sujeito dizia: “Ah! Não esqueci aquela idéia”. Eu falava: “Perfeitamente, eu sei que vai ficar um ótimo filme”. Eu não estava acreditando e nem o filme saiu. Vocês são uma ótima realidade. Isso dá um prazer muito grande ao autor, não é só filme, que é um pouco secundário, o importante é vocês caminharem tanto. Vão fazer o filme mesmo.

Pergunta – Publicar deve ser uma meta necessária quando da criação literária?
Resposta – O escritor não deve ser obrigado a publicar, mas deve ter sempre como meta editar. Porque você está acreditando naquilo que está fazendo, é uma necessidade de ver em letra de forma o que está apenas datilografado e há também o desejo de que os outros leiam a gente. Cada um tem instrumento de comunicação. O que não é possível é a pessoa ficar sem se comunicar.

Pergunta – Até agora o senhor publicou seis livros de contos. Considera sua produção literária pequena?
Resposta - É pequena. Os contos são basicamente de “Os Dragões” e de “O Ex-Mágico”. O resto foram contos que eu não quis publicar, foram contos publicados em jornais e revistas, que não tinham importância, não. Eu tinha uma noção do que eu queria e do que eu podia fazer, por ser uma obra muito rica e com uso muito intensivo da imaginação. Se eu me esparramasse em contos como Dalton Trevisan ou Tchecov, ia ser uma repetição infindável, porque escaparia um pouco dos meus recursos de imaginação, da limitação desses recursos, e também um certo tédio para ter uma obra literária.

Pergunta – O senhor tem escrito ultimamente?
Resposta – Ultimamente não tenho muita regularidade, não. Eu estou com um livro inédito e tenho a impressão que não vou publicar porque ele não acrescenta nada, todos são no clima de “O Convidado”. E, agora, com as plaquetas, me desanimei completamente. Tenho uma autocrítica violenta, mas a gente sabe... Os meus contos são basicamente os que estão no “Ex-Mágico” e em “Os Dragões”, onde juntei a maior parte dos contos que estão no Ex-Mágico e acrescentei novos. Já vieram com essa parte que mexe com os bichos e, depois, “O Convidado”, que é uma exacerbação do Velho Testamento, que castiga muito. Você pode imaginar, já não há transformação, aquela mulher que tem filhos constantemente, já não tem aquela ingenuidade, aquela alegria do “Teleco, o Coelhinho”. É mesmo um castigo.

Pergunta – A relação idílica com a natureza é uma constante em seus contos. Qual a sua vivência com o campo e os animais?
Resposta – A família de minha mãe é de fazendeiros. Então, nas férias a gente ia muito. Meu pai não. Meu pai era professor e não tinha muito contato coma terra. Mas do lado de minha mãe, minhas tias, meus tios eram fazendeiros e eu tive contato em criança com bichos e sempre gostei muito de bichos. Quando eu pude, morava em casa e tinha cachorro.

Pergunta – E coelho, o senhor já teve um Teleco?
Resposta – Não tive um coelho com medo do bichinho ficar muito.... falta de vocação de criar coelhos, eles iam acabar ficando maltratados... sempre adorei coelhos.

Pergunta – O senhor sempre morou no centro de Belo Horizonte?
Resposta – Moro no centro há oito anos. Vim para o centro por facilidade de locomoção, farmácia, médicos, amigos também. Porque amigo não gosta de lugar longe não, gosta da pessoa, mas acha que poderia morar mais à mão. Hoje é difícil morar perto.

Pergunta – Por que o senhor não se casou?
Resposta – Olha já não posso falar ainda não, com 75 anos... Mas não foi excesso de convicção, mas... afinal não me arrependo, porque o sujeito sendo solteiro tem a vantagem de que ele pode errar mais do que os outros. Não arrasta ninguém com ele, não precisa da solidariedade de ninguém.

Pergunta – O senhor se considera realizado?
Resposta – Não me considero realizado. Aliás, vou morrer sem fazer... Outro dia estava numa banca de jornal e o sujeito falou: “Se puser plaquetas...” Era plaquetas de automóvel! (risos). Tem várias plaquetas, não só as do sangue. E eu pensei que fossem só as minhas...



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