Sedutora Profecia do Contemporâneo

Walter Sebastião
Jornal Tribuna de Minas, 03 de junho de 1988


Não existe vida comum, a vida é extraordinária, parece lembrar continuamente Murilo Rubião. Ele não é só um dos mais importantes escritores brasileiros. Tem algo mais que o diferencia de seus colegas de ofício: é único, sensibilidade singular a produzir textos igualmente singulares. Sempre foi assim. Em 1947, fazia sua estréia com “O Ex-Mágico”, que em mais de duas dezenas de críticas já era identificado como um trabalho solitário, inesperado, no panorama da literatura brasileira tão marcado pelo realismo.

“Poemas em prosa, às vezes devaneios sem ligação aparente, imagens soltas cuja fluidez é quebrada, de quando em quando, por violentos absurdos, assinalava Sérgio Milliet. Benedito Nunes apontava o contraste entre a “coerência do discurso narrativo, minucioso e imperturbável, e a incoerência da matéria narrada, acontecimentos extraordinários”. Álvaro Lins apontava defeitos e valorizava o jovem que “não procurava a forma fácil de expressão e nem fica a lidar com elementos já vistos e explorados.” Mário de Andrade, que conhecia alguns originais desde 1943, propunha em carta, que se chamasse de “fantasia” estas produções que o próprio autor não sabia como classificar.

A obra de Murilo Rubião continua, hoje, fascinando diversos intérpretes. No momento, o escritor está preparando mais dois livros: “A Diáspora”, de contos, que promete entregar à editora até o final do ano, e “O Sr. Urber e o Cavalo Verde”, uma novela, que está desenvolvendo há dois anos, sendo que as anotações para a construção do texto foram feitas nos últimos 10 anos. Não há como não ceder, fascinado, ao trabalho de Murilo. São contos de fadas modernos, pontuados por uma ironia trágica, pelo sentido poético da narração, e com uma intensa compreensão do drama humano contemporâneo: vivências meio desterradas, frente a frente com situações absurdas. Angústia, tédio, melancolia.

Nesta entrevista exclusiva concedida à Tribuna de Minas, Murilo Rubião fala do seu compromisso com a literatura, da origem de seus trabalhos, do processo de criação e influência. Para Rubião, os escritores são, de certa forma, “profetas de tempos modernos. Fazem parte desta vaga de filósofos, sociólogos, etc., que consegue cristalizar as novas noções éticas, as ideologias nascentes”. A sua opção pelo fantástico ele explica como resultado de leituras de infância e por ser uma pessoa “que acredita no que está além da rotina”.

-“ Nunca me espanto com o sobrenatural, com o mágico. A isto está aliada uma sedução profunda pelo sonho, pela atmosfera onírica das coisas.” Murilo Rubião tem 72 anos, seis livros publicados, o mais conhecido deles, “O Pirotécnico Zacarias” (Editora Ática), uma coletânea de trabalhos. (...) Em tempo: falando sobre o conto, Murilo afirmou ainda que Júlio Cortazar é o mais importante autor do gênero.


Como surgem as histórias que você escreve? De onde vem o elemento mágico?
Surgem de pequenas coisas que, com o tempo, eu vou aumentando. Construir uma história não é difícil. Passar para o papel, fazendo com que ela tenha uma ordenação lógica, uma boa estrutura, leva muito tempo. A elaboração é fácil, exige só um pouco de imaginação. O mágico no meu trabalho é resultado de uma série de coisas, fatos de vida, da minha vivência, e, principalmente, influência de leituras. Na minha infância eu fui muito ligado às histórias de fadas. As leituras que mais me entusiasmaram foram aquelas ligadas ao fantástico europeu. Na novela que estou escrevendo, por exemplo, tem alguma coisa de Dom Quixote, esta coisa dele sair pelo mundo com um cavalo. É pouco, mas tem uma ligação longínqua. Como ninguém consegue fazer uma coisa absolutamente original, nos meus textos trago influências destas leituras, amadurecidas e trabalhadas, que vão dar origem a este tipo de texto.

Que tipo de relação você estabelece com a produção dos autores latino-americanos ligados ao fantástico? Jorge Luis Borges, certa vez afirmou que vivemos num tempo em que “a fantasia contaminou definitivamente a realidade”. Você concorda com esta afirmação?
Eu não faço realismo fantástico no sentido dos autores latino-americanos. A minha literatura é bem diferente. Ela poderia estar ligada à mitologia grega, por exemplo. Eu uso a metamorfose em vários contos, e este recurso já existia nos textos gregos ou nestas histórias de fadas, onde a feiticeira transforma o príncipe em algum animal. O meu trabalho sempre tem uma ligação longínqua com estas minhas leituras. Eu não concordo com esta afirmação de Borges. Acho que fantasia não existe. Às vezes, a vida dá a impressão de ser absolutamente irreal e, mesmo, que a normalidade está é nestes textos da chamada literatura fantástica. A literatura fantástica é muito mais normal do que a vida. Esta irrealidade da vida é um dado muito concreto. De vez em quando, a gente fica espantado com as coisas do cotidiano. Acontecem coisas estranhíssimas. Basta abrir um jornal e conferir.


A vida passada a limpo numa mágica leitura da realidade

Você poderia falar um pouco desta questão de você ser considerado o autor brasileiro que mais cita a Bíblia. Você tem alguma preocupação, nas suas fábulas, com um valor moral, com uma moral da história?
Existe no meu trabalho uma ligação com a Bíblia porque ela é bem fantástica. Até surrealista, como no caso do Apocalipse, que é inteiramente surrealista. Como eu li muito a Bíblia, então tive influência. Entretanto, toda vez que estou escrevendo um conto, procuro uma epígrafe na Bíblia e encontro, com facilidade, textos que quase explicam o conto. Eu não tenho uma preocupação com um valor moral da história. Deixo sempre as coisas bem em aberto. Acho que a história tem em si uma moral ou fato social. O fantástico tem sempre uma característica de ser uma crítica social. Um autor que teve uma influência enorme sobre o meu trabalho foi o Von Chamisse, um naturalista alemão, que escreveu histórias para crianças com influência das narrações do folclore alemão. Ele tem um texto chamado “O Homem que Perdeu a Sombra” que é estranhíssimo. Ele realizava, ainda no final do século passado, esta literatura do tipo do Kafka.


E esta constante aproximação do seu trabalho com o de Kafka...
Kafka não teve influência sobre o meu trabalho. Quando li os seus textos, no final da década de 40, já tinha escrito a maioria de contos que iria publicar no “Ex-Mágico”. Era muito difícil o acesso aos textos dele. Uma ocasião, eu tinha mandado meus contos para o Mário de Andrade, pedindo opinião dele, e ele me respondeu que era um tipo de literatura que o deixava muito insatisfeito. Explicava que era um trabalho inteligente, bem feito, mas que não o convencia plenamente, que não era o tipo de coisa que ele gostava e – completava na carta – “como também é a literatura de Kafka”. Achei estranho aquele negócio. Nunca havia ouvido falar dele. Escrevi pedindo emprestado. Mário, então, respondeu que tinha dois livros. “A Metamorfose” e “O Processo”, mas que estavam em Alemão. Só muito mais tarde consegui ler “O Processo”, e vi que havia identidade com a minha literatura. Achei curioso. Mas o fato é que eu já havia escrito três livros – eu só consegui editor para o terceiro – e, neste momento, você conhece um autor que poderia ter te influenciado. Verifiquei, ainda, que a identidade talvez se devesse às mesmas leituras. Kafka tem influência da mitologia grega; é possível que ele tenha influência da Bíblia, do Velho Testamento, que os judeus lêem muito; que conhecesse os autores do fantástico alemão e francês. Sabe-se, ainda, do seu conhecimento das obras de Edgard Alan Poe, que teve muita influência sobre a minha literatura. Eu não tenho influência do Kafka, mas se tivesse seria ótima, é um bom autor. Agora a diferença é que a literatura dele é mais escura, noturna, enquanto a minha é mais solar.


De alguma forma, Minas Gerais deixou marcas nos seus textos?
Muitos dos meus contos se passam em pequenas cidades do interior e são influências do tempo em que morei nas pequenas cidades de Minas. O meu fantástico também tem esta ligação com Minas, especialmente a Minas Gerais antiga, que era povoada por fantasmas, de coisas estranhas, de histórias de assombração, que iriam marcar diversos autores modernos. Se você pegar a literatura do velho Afonso Arinos, sobre o sertão, vai encontrar todos estes temas, que iriam marcar, ainda, um escritor como Guimarães Rosa, que sofre também influência de Arinos. Engraçado é que são dois sujeitos muito civilizados, escrevendo aquelas histórias tão regionais. Seria difícil imaginar Guimarães escrevendo as histórias dele longe de Minas Gerais. Só Minas Gerais tem aqueles cenários. Outro aspecto de Minas que teve muita influência sobre mim é o fato do mineiro ser muito sóbrio e a minha literatura, a minha frase, é de grande sobriedade. Tanto é verdade este gosto do estilo mineiro que já se disse que Machado de Assis parecia um escritor mineiro. Ele foi o escritor que teve a maior influência sobre a produção mineira. São numerosíssimos os que têm influência dele muito visível. Até Drummond, com aquela linguagem despojada. Machado é mais cultuado em Minas do que em qualquer outro lugar.


Considerando os dois livros novos que você está preparando, são oito volumes ao longo de 40 anos de trabalho. É muito ou é pouco?
Acho muito. Se de um escritor fica alguma coisa – e raramente acontece de ficar alguma coisa – é um livro, no máximo. A não ser quando ele é absolutamente genial, como Machado de Assis, que conseguiu escrever vários livros que ficaram. Mas, mesmo ele, que tem uma extensa obra de 31 volumes, e realmente o que ficou? O que é realmente genial? “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “Dom Casmurro” e o “Quincas Borba”. Os seus contos, você pode reunir em apenas um volume. Dois. Dos quatro publicados, dá para fazer dois. Se ele, que é um gênio, você pode reduzir a obra – ele só cometeu o erro de publicar poesias (risos), mas todo mundo está sujeito a seus enganos – imagina de um camarada que não tem genialidade. Para que alguma coisa tenha possibilidade de permanecer, é necessário dar um duro danado, dar o melhor de você. Eu não sei se os meus livros são definitivos. O que mais gosto é “O Convidado”. Se pudesse reduzir tudo em dois livros – o que acho bastante - publicaria todos os contos de “O Convidado” e mais uma seleção de obras de outros volumes. Mesmo assim, em “O Convidado” gosto mesmo dos textos “O Botão de Rosa”, “Equidólia”, “O Convidado” e “Aglae”.


Já teve alguma história que você não conseguiu escrever?
Tenho várias histórias que eu rasguei, porque eram desimportantes. Tem as que eu tenho até hoje as anotações e não consegui escrever de modo satisfatório. Outras eu havia guardado as anotações, porque não davam histórias, e depois deu. O conto “O convidado” foi concluído e publicado em 26 anos depois de eu ter tido a primeira idéia. Quando ele finalmente ficou pronto o Paulo Mendes Campos até publicou uma crônica sobre o assunto, contando a história da criação deste conto. Em um congresso de escritores, realizado em 1945, em São Paulo, nós ficamos no mesmo quarto. E, numa noite, eu escrevi alguma coisa. Falava de uma festa, era a primeira anotação, um esboço longínquo do que seria o texto definitivo. Como ele acordou mais cedo, viu as folhas e o título “O Convidado”. Eu havia escrito no final: o convidado não existe. E ficou nisso. Como nós convivemos muito, de vez em quando, ele me cobrava a história e dizia: “O convidado sai ou não sai?



Você imagina um leitor ideal para os seus textos? Gosta de ver a sua obra analisada?
Eu não tenho um leitor ideal, mas fico muito satisfeito quando encontro um leitor inteligente, porque ele começa a descobrir coisas. Essa é uma vaidade da qual nenhum músico, nenhum escritor, nenhum artista consegue escapar, ou seja, ver alguém dizer que gostou do que você produziu e demonstrar que leu mesmo. Não é só elogio, é você sentir que ele leu mesmo. Essa é a maior recompensa que o escritor pode ter. Eu também gosto muito de ver o meu trabalho analisado. Existem muitas teses sobre a minha obra e isto é uma coisa que gratifica muito. Já que a literatura não me deu dinheiro, e nem vai dar, a melhor paga que eu poderia ter é ser bem estudado. No princípio eu estranhava um pouco, mas às vezes os trabalhos revelam aspectos que não tinham me ocorrido. Os professores descobrem muitas coisas interessantes. O leitor mesmo é um pouco assim, descobre coisas. Eles fazem o que a gente pode chamar uma nova leitura daquilo que você produziu.


Como você viu o modismo do conto seguindo, posteriormente, de uma crítica ao que seria um “excesso” de contistas mineiros? Nós ainda vamos ver um romance de Murilo Rubião?
O conto esteve em moda por uma série de coisas, entre elas, o concurso do Paraná, que fez com que aumentasse o número de escritores produzindo este tipo de texto. Em Minas sempre se escreveu muito e o concurso acabou revelando vários escritores. Diversos outros eventos, do mesmo tipo, acabaram premiando os mineiros. Isso acabou gerando uma certa inveja, e surgiram as críticas. Uma bobagem. Além disso, os gêneros literários têm a sua época. Os 70 foram uma época do conto. São fases cíclicas. Hoje está começando a época do romance. O romance do Murilo Rubião não existe. O que existe são estas duas novelas. Nem elas estavam nos meus planos, mas surgiram. Agora, um romance... não. O que eu sou, bem ou mal, é contista. Um contista de obra tão reduzida que eu nem sei se sou contista. Ou melhor: sou um contista de poucos contos.


Os seus textos têm, ainda, uma força poética muito grande? Você gosta de poetas?
Gosto muito. Até de uma série de autores antigos, inclusive do próprio Camões, para falar nos modernos, citaria Drummond, Emílio Moura, Henriqueta Lisboa, e outro que, junto com Drummond, é dos maiores: Fernando Pessoa, que, por sinal, teve muita influência na poesia brasileira. Um fato curioso é que até 1960, mais ou menos, ele só era conhecido entre outros poetas. Em 1958, quando estive em Portugal, existia muita coisa dele ainda inédita. Murilo Mendes é também um grande poeta. Um poeta diferente de todos os outros porque era um revolucionário, surrealista. Revolucionário não no sentido ideológico, mas no da renovação, da coisa nova. Entre os que estão em atividade, Adélia Prado é, sem dúvida, a mais brilhante.


Um poeta já disse que “o mundo existe para terminar num livro”. Você concorda?
A frase é muito inteligente, mas não me convence. É um belo achado. Menos pelo que ela diz, mas por mostrar o que Mallarmé era visceralmente. Só um escritor escreveria isso. (pausa) Mas a afirmação é verdadeira para o escritor. O escritor não separa a vida da literatura, vida e literatura são uma coisa só.




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Entrevista com Murilo Rubião por Elizabeth Lowe
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