As façanhas de um escritor mágico
Alexandre Marino

O escritor Murilo Rubião segue uma trajetória tão estranha quanto a de seus personagens, sempre entregues a destinos inexoráveis, metamorfoses e à frieza diante do insólito. Há 5 anos, foi dado como condenado, depois de diagnosticado um câncer na laringe, mas conseguiu curá-lo. A doença provocou um atraso em seus projetos literários, e depois de recuperar-se perdeu, dentro de um taxi, os originais de 5 dos 8 contos que compunham o livro no qual ele está trabalhando até hoje, A Diáspora.
Precursor do que se convencionou chamar de Realismo Fantástico Latino-americano – publicou seus primeiros textos na década de 40, antes de Jorge Luis Borges, por exemplo – ele é um grande vendedor de livros, embora sua modéstia mineira o impeça de admitir. Seu livro mais conhecido, O Pirotécnico Zacarias, lançado em 1974, vende com regularidade impressionante, e já está a beira dos 200 exemplares. No exterior, tem traduções em quase 20 países, entre livros e participações em antologias.
De formação católica, Murilo Rubião é leitor da Bíblia, que assim como os sonhos é uma de suas fontes de inspiração. Diz que, ao tornar-se ateu, deixou de acreditar na eternidade e passou a preocupar com a mutação contínua das coisas. Aos 73 anos, solteiro, sem filhos, vive sozinho num amplo apartamento no centro de Belo Horizonte. Nascido em Carmo de Minas, é advogado e funcionário público aposentado. Foi adido cultural da Embaixada do Brasil na Espanha de 1956 a 1960. Na década de 60, fundou o Suplemento Literário de Minas Gerais.
Publicou 6 livros, todos de contos, que são, na verdade, três porque, como admite, sua obra “vem encurtando com o tempo”. Esta e outras coisas ele falou nesta entrevista, concedida em seu apartamento em Belo Horizonte, decorado com obras de artistas como Chanina e Nello Nuno, inspiradas em seus misteriosos personagens.

*Participou o jornalista e escritor Francisco de Morais Mendes.


Há tempos o senhor não publica. O que está preparando para seus leitores?
- Estou trabalhando em um novo livro de contos, que vai se chamar A Diáspora. Mais tive que interromper o trabalho várias vezes, até porque perdi vários contos, já terminados, dentro de um táxi. Tinha todas as anotações, mas me deu um desânimo muito grande para recomeçar tudo. Depois, fui acometido de um câncer e fiquei dois anos em tratamento, tive uma convalescença demorada. Somente agora, no início deste ano, ou seja, 5 anos depois, recomecei:

E o senhor já está bem de saúde?
- Agora estou completamente bom.

Esse episódio do táxi parece coerente à literatura que o senhor faz, na linha do realismo fantástico... Por que o senhor carregou para dentro de um táxi o único original que tinha? Como foi isso?
- Fiz uma reforma no apartamento onde eu morava, na Serra, e passei a escrever em outro apartamento, no centro. Um dia, com o material já bem adiantado, resolvi pegar toda a papelada e levar pra minha residência. Havia também correspondências, pastas com endereço. Como era muita coisa, coloquei em várias sacolas de plástico. Dentro do táxi, a sacola que estava com os originais deve ter escorregado para debaixo do banco... Só dei falta depois. Cheguei a colocar algumas notinhas em jornais, deu na televisão, mas a verdade é que quem encontrou aqueles papéis, cheios de rabiscos, deve ter jogado num lote vazio.

Este livro de contos é seu único projeto?
- Antes de retornar os contos eu recomecei uma novela que tinha começado a preparar há muito tempo, mas ainda não consegui terminá-la. Demorei muito a entregar o livro de contos aos editores e eles começaram a pressionar, e por isso tive que interromper a novela. Primeiro tenho que entregar os contos à editora, o que farei no início do próximo ano.

Fale um pouco sobre essa novela.
- Terá umas 100 páginas e vai se chamar O Senhor Huber e o Cavalo Verde. É uma história bem mágica, sobre o presidente de uma companhia que, por força das circunstâncias, é obrigado a sair com um cavalo pelo mundo afora. Com esta novela eu estou saindo da preocupação da síntese do conto, porque se numa novela, ou romance, você é sintético, fica uma coisa muito esquemática. Este é um texto mais solto.

O senhor escreve pouco?
- Eu escrevo muito e aproveito pouco, e também publico pouco. Observando exemplos passados, percebo que é uma coisa inútil você ter uma obra extensa, que é uma ambição te todo escritor, para mais tarde ficar com apenas um ou dois livros que sejam realmente bons. Tomemos exemplo de Machado de Assis. A obra dele é muito importante, mas apenas três romances são obras-primas: Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Dos muitos contos que escreveu, destacam-se apenas dois livros. OU seja, apenas 5 livros de uma obra extensa, publicada, nas edições da Ajax, em 31 volumes. Isto no caso de Machado de Assis, que é um gênio. Quanto a outros escritores, tanto os que escreveram pouco quanto os que escreveram muito acabaram ficando apenas com uma obra de renome. Manoel Antônio de Almeida, que morreu ainda moço, deixou Memórias de um Sargento de Milícias. Do Mário de Andrade, citamos hoje 5 ou livros, mas dentro em pouco vamos citar apenas um, Macunaíma, que é o mais importante.

E como o senhor conseguiu dominar a vontade de colocar muitas obras na rua?
- Por uma certa insatisfação com a minha literatura, por achar que ela não fosse tão importante assim. Estou convencido de que para atingir um certo grau de qualidade tenho que trabalhar muito e dar o melhor de mim, sem a preocupação de publicar um livro a cada um oi dois anos. Trabalhando muito não se tem essa possibilidade. E também por estar convicto de minhas limitações, por saber até onde posso ir, o que não é fácil. Mas depois de certa experiência tem-se condição de saber o que se pode e o que não se pode fazer.

Em que momento começou essa sua insatisfação com sua própria literatura?
- Isso surgiu principalmente depois da publicação de meu primeiro livro. O Ex-Mágico, em 1947. Fiz várias releituras e verifiquei que tinha tanta coisa ruim que, ao reeditá-lo, anos depois, retirei três, dos 15 contos do livro original, e os outros 12 reescrevi violentamente, cortando parágrafos e até páginas inteiras. Fiz o mesmo com o segundo livro. Os Dragões. Mais tarde, quando a Editora Atiça me pediu uma seleção de contos, que publiquei com o título de O Pirotécnico Zacarias, eu compus com textos retirados de Os Dragões e O Ex-Mágico, novamente reelaborados. A Casa do Girassol Vermelho, composto de contos de várias épocas, também reescritos. Na realidade eu tenho três livros publicados.

Isso daria um total próximo de 25 contos?
- Isso porque eu deixei de fora vários contos de Os Dragões e vários outros de O Ex-Mágico. Esses saíram apenas nas primeiras edições e dariam mais um livro, mas são contos que não me satisfazem. Quando eu morrer, talvez acabe sendo publicados, mas aí já não será uma iniciativa minha, uma coisa de convicção. Só espero que não publiquem o que saiu em jornais, revistas...

Ao contrário de todos os outros escritores, parece que sua obra vem encurtando com o tempo.
- Exatamente. E se fosse para publicar toda a obra em apenas um livro e eu o faria, retirando a maioria dos contos.

O senhor acha que este é um processo infinito, de reescrever sempre e jamais ficar satisfeito com o resultado?
- Jamais fico satisfeito.

Tem algum conto desses livros já publicados que o senhor republicaria hoje da forma como está, ou o senhor sempre sente necessidade de reescrever?
- De O Convidado talvez eu mexesse, porque trabalhei muito para montar o livro, mas não para as outras edições. Do Pirotécnico Zacarias e A Casa do Girassol Vermelho eu não mexeria, mas apenas por tédio, porque todas as vezes que meus contos foram publicados saíram com modificações – reedições em livros, jornais, de um livro para outro, coletâneas, etc.

Isso explicaria o fato de até hoje o senhor não ter publicado um texto mais longo, como uma novela ou romance?
- Desse livro diado os contos são mais longos, os de O Convidado são mais longos que os anteriores. Mas na verdade eu sigo a teoria de que não há nada que não se possa dizer em poucas páginas. Algo que enchesse muitas páginas pode ser reduzido até chegar à medida certa.

O senhor aceita com tranqüilidade essa classificação de realismo fantástico, realismo mágico, para sua literatura?
- Aceito.

A crítica compreendeu o seu trabalho? A leitura dita pós-moderna facilitaria mais o entendimento de sua obra, ou a ótica modernista seria suficiente?
- Alguns críticos compreenderam, mas a maioria não teve muita sensibilidade. Quando saiu o primeiro livro, o Ex-Mágico, todo mundo achava meu trabalho um negócio muito estranho. Falou-se muito, publicaram muita coisa, mas a crítica não entendeu bem. Com a publicação de O Pirotécnico Zacarias e O Convidado, houve melhor compreensão e maior sensibilidade. Mas eu também atribuo a aceitação dos meus últimos livros ao realismo fantástico dos hispano-americanos.

O senhor veio antes dessas correntes?
- Sim. No início minha literatura foi comparada com a de Kafka. De fato minha literatura vem nessa linha. Mas se você observar para autores anteriores, verá que outros influenciaram Kafka, e mesmo que não tenham influenciado, usaram linguagem parecida. Na verdade, Kafka não inovou nada. Essa coisa do real transformar-se em irreal já existia nos contos de fadas. Como as crianças são mais puras, sempre aceitaram isso tranquilamente. A metamorfose está ai, está na Mitologia Grega. Kafka pode ter tido essas influências, e também do Antigo Testamento, que é leitura obrigatória dos judeus. E também de outros escritores da admiração dele, como Edgar Allan Poe, que é um precursor do fantástico, como outros autores, numerosos, do Século XIX. Eu tive influência de vários desses escritores – Poe, contos de fadas.

Quando José Saramago lançou A Jangada de pedra e disseram que ele estava fazendo literatura fantástica, ele retrucou dizendo que elementos de magia fazem parte da literatura desde que ela existe.
- Exato. Isso explica também, em parte, o fantástico dos hispano-americanos. E também D. Quixote... Não há outro escritor de língua espanhola tão fantástico quanto Miguel de Cervantes, com seu D. Quixote.

O senhor também tem muita influência da Bíblia...
- Tenho. E o título deste meu último livro, A Diáspora, refere-se à diáspora dos judeus. De tanto ler a Bíblia, às vezes ao escrever uma estória eu me lembrava de uma citação ou capítulo que tinha alguma relação com o que estava escrevendo.

Quando o senhor tomou conhecimento de que estava com câncer, assustou-se com a possibilidade de morrer? Isso passou a influenciar seu comportamento?
- Eu encarei o câncer como uma moléstia qualquer, curável ou não, e não fiz dramas nem escondi. O pior da doença foram os incômodos, a cirurgia, a convalescença.

O câncer assusta as pessoas. Como chegou a curá-lo?
- Quando diagnosticaram o câncer, na laringe, comecei a fazer tratamento de radioterapia. Isso foi de julho a setembro, e em outubro fui operado. Depois da cirurgia fizeram um exame de material, e o resultado foi negativo. Na verdade a radioterapia curou o câncer, como tinha sido previsto pelo médico que me acompanhou. Ele dizia que o tipo de câncer que eu tinha era curável em 99 por cento dos casos.

Voltando à literatura latino-americana: a crítica aproxima o senhor do Jorge Luiz Borges...
- Em 1946, publiquei um conto (O Ex-Mágico) numa antologia de contos brasileiros na Argentina.
(Murilo Rubião retira-se da sala e volta com exemplar do livro. Chama-se Pequena Antologia de Cuentos Brasilenos, Coleccion Mar Dulce, publicado pela Editorial Nueva a 7 de janeiro de 1946, como consta no exemplar).
- A antologia começa com uma obra-prima de Machado de Assis, Missa do Galo. Nessa época, eu não conhecia Borges, que só havia publicado poesias. Ele não deve ter lido esse meu conto, e se lesse não daria importância, porque eles não levam nossa literatura muito em conta. Mas para mim é um documento, eu não tive influência dos latino-americanos, se aconteceu alguma coisa foi o inverso. Eles podem ter sido influenciados.

O senhor te muita repercussão fora do Brasil?
- Na América Latina, não. Tem contos meus em antologia, na Argentina, mas só agora publicarei o primeiro livro em Espanhol, em Barcelona, na Espanha. Quem escreve em português não tem muita repercussão na América do Sul nem na Espanha, os escritores de língua espanhola se consideram muito suficientes. Já na Europa e Estados Unidos tenho maior repercussão. Tanto que agora na França, O Pirotécnico Zacarias e A Casa do Girassol Vermelho foram adotados num curso de agregação para professores de curso secundário e superior de português. Tenho livros nos Estados Unidos, Alemanha, Tchecoslováquia, vou sair na Espanha e Itália. Em antologia tenho traduções em 16 países – Inglaterra, Japão, Canadá, etc.

As traduções e edições brasileiras permitem que o senhor viva bem às custas da literatura?
- Não. Isso só é possível no caso de Jorge Amado. Se viver de literatura já é difícil, ainda mais literatura fantástica. As publicações estrangeiras ainda dão algum dinheiro. Também recebo alguma coisa da Ática, mas não dá pra viver.

O senhor tem idéia de quantos livros já vendeu?
- Somente o Pirotécnico, dois anos atrás, tinha vendido 100 mil exemplares. Deve estar chegando aos 200 mil. No Brasil, é um fenômeno para um livro de contos. No exterior as vendas são limitadas, no máximo duas edições de bolso de 15 mil exemplares, sendo que 2 mil venderam em uma semana.

O senhor lê muito? Acompanha a literatura que se faz hoje no Brasil?
- Não leio tanto como gostaria. Leio mais escritores meus contemporâneos, como Lygia Fagundes Telles. Estou com 73 anos e não tenho muito tempo para usar com leitura. Às vezes folheio um livro e, se não me interessar muito, não leio. Também reconheço uma certa incompreensão do escritor maduro para com o escritor jovem. Não temos muita sensibilidade para outra literatura a não ser aquela de nossa época.

Pode-se perceber uma certa tendência da literatura brasileira hoje na direção do romance policial, com João Gilberto Noll, Rubens Fonseca, até o último livro de Lygia Fagundes Telles. O que o senhor acha?
- Sempre fui leitor fiel do conto policial, a começar de Poe, que foi o precursor. No Brasil nunca houve tradição, e sim tentativas isoladas. No caso de Rubem Fonseca, não é herança literária. Ele foi delegado de polícia. O conto policial dele é bom porque ele é um grande escritor.

O senhor acha que está havendo no Brasil uma tendência de se criar fórmulas de best-seller, uma literatura mais comercial?
- Acho que não, e se houvesse seria perda de tempo. O único brasileiro que faz best-seller é Jorge Amado, mas os livros dele têm mais saída no exterior do que aqui.

A que o senhor atribui o sucesso de Jorge Amando:
- Para mim é inexplicável.

A receptividade de O Pirotécnico Zacarias - que já está chegando aos 200 mil exemplares vendidos, ou seja, é um best-seller no Brasil – não o incentivou a escrever mais?
- Me deu mais responsabilidade.

O senhor disse que a sua idade não tem muito tempo a gastar com literatura. Essa idéia da passagem do tempo, de não ter tempo a perder, é muito forte para o senhor?
- Já foi. Hoje, não me perturba. Se der tempo, publico os contos, as novelas que estou preparando. Se não der, azar... Quando jovem eu tinha medo de não escrever tudo o que tinha a escrever. Hoje não.

Isso seria uma característica de idade? O jovem tem pressa e a pessoa madura ser mais tranqüila?
- Essa minha tranqüilidade vem da sensação de que minha literatura não é tão importante assim. Quando o sujeito está preocupado com a posteridade é porque ele acha a literatura dele importante. Até agora a literatura foi para mim um jogo, que eu joguei sério, mas se perdesse não haveria problema. Fiz o melhor que pude, mas isso não é suficiente, é preciso ter sorte e uma vocação.


Correio Braziliense, 27 de agosto de 1989

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Entrevista com Murilo Rubião por Elizabeth Lowe
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