O fantástico em Murilo Rubião
Jorge Schwartz

Revista Planeta, número 25, São Paulo, setembro de 1974

A realidade de Murilo Rubião é quase uma realidade de ficção. No apartamento de Belo Horizonte, grande número de obras inspiradas nos seus contos. Um quadro repleto de coloridos dragões, no meio da sala. É a vida de um homem que cultiva o hábito de estar só. Nada fora do lugar. Cada detalhe é pensado, um fruto de vivência. Aquarelas ilustradas com a sua própria escritura. Estatuetas e quadros espanhóis, do país onde foi adido cultural por quatro anos. Finalmente, uma sala de livros, a mesa e a máquina de escrever, indicando batalhas na produção das obras. Murilo, o caso de um escritor que ficou relegado na história das letras brasileiras. Sua primeira obra data de 1947. Pioneiro da narrativa fantástica na literatura brasileira.

E os aspectos vanguardistas de Murilo Rubião? Do ponto de vista geográfico temporal, a sua obra surge de maneira insólita (como é a própria temática dos contos), desengajada de qualquer movimento literário no Brasil. Anterior a Júlio Cortazar, que publica os primeiros contos em 1951 (Bestiário), tematicamente se vincula aos escritores de vanguarda hispano-americanos, os exploradores do chamado “realismo mágico” (Jorge Luis Borges, Júlio Cortazar, Juan José Areeola, Gabriel Garcia Márquez etc.). Em Murilo Rubião, o fantástico está no cotidiano. Ausência de rupturas bruscas na seqüência narrativa ou de efeito de suspense no leitor. Acontecimentos referencialmente antagônicos e inconciliáveis conciliam-se tranqüilamente pela organização da linguagem. Dragões, coelhos e cangurus falam, mas não há mais o clássico “enigma” a ser desvendado no final.

E a função do relato fantástico, já que o elemento suspense e conseqüente explicação final ficam totalmente diluídos na escritura? Uma das explicações possíveis é a da fruição como um pacto lúdico com o leitor, o que implicaria em reduzir a obra a mero jogo de arte pela arte. Não é propriamente o caso de Murilo Rubião. O fenômeno fantástico de sua escrita é justificado na medida em que há a percepção dos níveis simbólicos e alegóricos de significação. A leitura atenta de Os Dragões sirva-nos de exemplo. Nítido esquema de oposição binária: Dragões x Sociedade. A luta da sociedade para integrar os dragões. A sociedade age e os dragões são integrados. Participantes ativos da vida em grupo acabam por ser corrompidos e chegam ao fim. Uma crítica subjacente aos valores e preconceitos sociais. Os dragões se apresentam desprovidos de qualquer repertório histórico ou cultural. No início representam o elemento neutro, amoral. Vivem à margem da sociedade e simbolizam a própria dimensão da pureza, tanto assim que só podem ser compreendidos pelas crianças. Mas os valores sociais os corrompem e os destroem. Um círculo vicioso. João, o último dos dragões, se iniciara em jogos de cartas e retomara o vício da bebida. E os dragões não voltam mais à cidade. Foram desintegrados no próprio processo de integração. A escritura bíblica é o lugar de leitura dos contos murilianos. Em cada um deles, uma epígrafe extraída do Velho ou do Novo Testamento. E assim como Adão e Eva perdem a chance de continuar vivendo no Paraíso, os homens também perdem a oportunidade de conviver com os dragões. Esperam e esperarão e sempre em vão o retorno dos dragões...
A crítica à sociedade inverte também os valores do fantástico. O elemento extraordinário não é a presença dos dragões no meio humano, mas a condição do meio e das relações nele criadas. Aqui um paralelismo possível com as obras de Kafka. Na Metamorfose o fantástico deixa de ser Gregório, convertido em monstruosa barata e fantásticas são as reações da família diante do fato. Em Murilo e Kafka, o código social possibilita a leitura ideológica e não se trata de simples recriação na leitura do fantástico.

Na moderna narrativa hispano-americana, outras convergências dos temas tratados por Murilo Rubião. Um dos últimos contos de G.G.Márquez, Um Señor Muy Viejo Com Unas Alas Enormes (1968), um ser angelical aparece magicamente, (como o diz o título). Imediatamente inserido na sociedade de consumo, é industrializado e exposto à visitação pública. Os valores da sociedade são postos à prova. Seu súbito desaparecimento é análogo à inútil espera pela volta dos dragões.

Em autores brasileiros, o mesmo tipo de organização temática, de narrativa pode ser observado. Um evento anormal serve para testar as reações da sociedade. Em José J. Veiga, no conto “A Máquina Extraviada”, uma inexplicável máquina causa alvoroço e desarticula as normas da população da pequena cidade. Na novela “Sombras de Reis Barbudos” uma enigmática e alegórica Companhia põe em xeque os valores da pequena cidade local.
Conhecer Murilo é penetrar no mundo do fantástico. Penetrar no mundo do fantástico é ler a escritura muriliana. Murilo, o homem que vive no apartamento em Belo Horizonte.


Narrativa muriliana:
O Ex-Mágico (1947), Os Dragões e Outros Contos, (1956), O Pirotécnico Zacarias (1974), O Convidado (1974).
O Ex-Mágico (Ed. Universal, RJ), esgotado.
O Pirotécnico Zacarias (Ed. Ática, SP).
O Convidado (Ed. Quiron, SP).



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