O Ex-Mágico
Sérgio Milliet

Estado de São Paulo, 3 – XII – 47

O livro desigual de Murilo Rubião (O ex-mágico – Editora Universal – Rio, 1947), hesitante na realização técnica e artística e lembrando por demais as experiências de 22, contém, entretanto, alguns contos interessantes e um, pelo menos, delicioso: o que deu nome ao volume. Delicioso e profundo. Eis um mágico que se cansa de fazer mágicas. Torna-se funcionário público e quando, para justificar uma estabilidade que não tem, resolve fazer a grande mágica, aquela mediante a qual tirará do bolso um título de nomeação de mais de dez anos, nada consegue. Perdeu o dom da mágica, esmagado pela burocracia e pelo amor infeliz que o manteve preso tanto tempo ao emprego. Só então compreende o mágico o que poderia ter realizado com seus dotes de feiticeiro: “arrancar do corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, negros; encher a noite de fogos de artifício; erguer o rosto para o céu de deixar que, pelos lábios saísse o maior dos arco-íris jamais visto. Um arco-íris que fosse de um extremo a outro do mundo e cobrisse todos os homens”, realizar poesia, em suma, poesia para os velhos e crianças, os que as demais seduções do mundo já não tentam e os que ainda têm virgens os sentidos.

Todo o passado do mágico fora uma manifestação de poder, mas de sua força criadora ele só tirara um mínimo concreto, coelhos, pombos, lapiseiras, guloseimas. E de ter ao alcance das mãos essas vulgaridades o entediara até o desejo do suicídio. Não percebera que na criação da beleza desinteressada é que estava a salvação.

É possível que o conto do sr. Murilo Rubião não tenha intenções filosóficas tão transcendentes. Pouco importa. Como toda verdadeira obra de arte permite a quem procura entrar na sua intimidade uma grande latitude de interpretação. [Nem sempre, porém, são os seus contos tão acessíveis assim. Outros, como “A Casa do Girassol Vermelho”, se desenvolvem numa atmosfera de surrealismo quase impenetrável. Então a riqueza de imaginação do autor é que nos comove, sua gratuidade literária é que nos encanta. São pequenos poemas em prosa às vezes, devaneios sem ligação aparente, imagens soltas cuja fluidez é quebrada de quando em quando por violentos absurdos que são como advertências de um pudor arisco contra o sentimentalismo ameaçador.] É esse medo da banalidade piegas, da confissão pessoal, uma das características da poesia das novas gerações, escrevam seus poetas em prosa ou em verso. Mas a atitude de permanente controle e desconfiança nem sempre pode ser mantida. Então sobe lentamente uma vaga de angústia, maré montante que tudo submerge e provoca acentos de um desespero tanto mais denso quanto refreado, tanto mais intenso quanto sem as válvulas de escape para as explosões líricas.
O conto que se intitula “Marina, a intangível” começa com esta imagem convincente: “Antes que eu tivesse tempo de abrir a janela e gritar por socorro, o silêncio me envolveu completamente”. Continuar nesse tom fora entregar-se, tornar-se talvez ridículo nestes tempos de escárnio e desmoralização. Que a piada intervenha, portanto, o paradoxo, que a confusão reine sobre a superfície das águas, afastando as inteligências maliciosas, capazes de descrever em todas as suas minúcias os mais complexos processos psicológicos e sociais, pois antes de passar por louco, fechado em seu hermetismo, eu por tolo... As irreprimíveis solicitações da angústia, do tédio, da melancolia, do amor insatisfeito, da insolubilidade no mundo falso, virão à tona sob a forma agressiva da sugestão vaga, da alusão esotérica, e então os papéis serão invertidos, o burguês é que ficará com medo do mistério, e sairá “pelos jornais” a denunciar o “olho de Moscou”.

Gostaria que o sr. Murilo Rubião tivesse dado a seu livro de contos um título um pouquinho diferente. Não o “Ex-mágico”, mas “O mágico”, pois sua prosa é bem a de um desses sujeitos que moem o relógio do espectador dentro de um copo e, quando descobrem o recipiente, sai dele um pombo-correio com a carta da bem-amada no bico. Acontece que o espectador não sabe que fazer da carta, não entende e exige, prosaicamente, de volta o seu relógio...



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