Coisas Espantosas
Aires da Mata Machado Filho

04 de julho de 1965

Na temática do conto brasileiro, do próprio conto universal, desenvolve-se copiosamente o ciclo da inadaptação à cidade pequena. Inconformado com a mesmice das situações e dos enredos, Murilo Rubião entendeu de personificar em dragões esse desajustamento, no seu “Os Dragões e Outros Contos” (Edições M P Movimento-Perspectiva, Belo Horizonte, 1965). Ainda quando volta ao descompasso entre a gente de fora e a cidadezinha, em “Dom José Não Era”, com tipos já isentos de exagerada fantasia, a suspicácia interiorana, que tudo pode, manifesta-se naquilo que, ao cabo, constitui o seu forte – o gosto das coisas espantosas.

No segundo conto, urde-se a efabulação em torno das relações sutis, mantidas entre o homem e um coelhinho de nome Teleco. Pode ver-se, na delicada criatura, que enorme pensão veio a dar ao protetor, o símbolo do filho. O coelhinho cinzento, olhos meigos e tristes, sem dentes – metamorfose final depois de tais e tantas – representam os dois extremos da encantadora recriação. O ilogismo da presença de Teresa, seu tanto enigmática acrescenta nova complicação do inusitado. Em tudo e por tudo, realça a originalidade.

Curioso é que, ainda aceitos como tais, sem a desejada admissão de símbolos, esses e outros contos prendem o leitor. No tratamento estilístico aplicado a sucessão dos fatos transfere tudo para a região da poesia, mediante processos oníricos.

Previna-se, antes de mais nada, que o autor não recorre à metalinguagem, entretecida de achados surpreendentes. Naturalidade e fluência constituem as grandes virtudes de sua maneira de escrever. Entretem a plena consciência de que a prosa é arte, tão dificultosa, pelo menos, quanto a poesia. De par com o despojamento, assim na língua como no enredo, ressalta a maestria com que entra no assunto, esquivando preparativos desnecessários.
Nunca falta entre os dons do contista, em manifestação predominante, o senso da poesia. Há peças em que domina a tranqüila fruição do poema, como se fosse mesmo um “soneto em Prosa”.

Contadores de Histórias, com mais ou menos graça, todos nós o somos, ou podemos sê-lo. Contista, ao que demonstra a fina arte de Murilo Rubião é o capaz de criar beleza literária por meio do conto, mas nunca em termos de banalidades. Tal concepção, é claro, não exclui outras ainda.
Dos vinte contos incluídos na coletânea, apenas oito são inteiramente novos. Figuram os restantes no primeiro livro do nosso autor, “O Ex Mágico”, publicado há quase vinte anos, em 1947. Quando percebi a mistura, que diga-se de passagem, estava a exigir um prefácio explicativo, terminava a leitura de “A casa do girassol vermelho” e já havia engolido como novos Bárbara, Elisa e A Noiva da Casa Azul. Isso não se explica unicamente como fraqueza de memória; resulta da revisão transformadora a que o autor submeteu os contos já inseridos no livro anterior.

As emendas, as mais das vezes, favorecem a expressão. Daqui, a freqüência de pequenas obras primas de aprimorado artesanato.

São alterações que dariam matéria a sugestivas discussões estilísticas.

Embora não raro profundas, eu gostaria que tivessem ido mais longe ainda, no final do conto intitulado “Os Três Nomes de Godofredo” que assim termina respectivamente, no texto primitivo e no atual:
“Desejava pensar no que me acontecerá amanhã e senti que a vida se repetia incessantemente, sem possibilidades de fuga, silêncio e solidão”. “Desejava pensar nos dias futuros e me veio o pressentimento de que a vida se repetirá incessantemente sem possibilidades de fuga, silêncio e solidão”.

Inegável a beleza do tríptico “Fuga, silêncio e solidão”. A versão adotada ainda melhor o evidenciaria, a meu ver, se prescindisse do vocabulário “possibilidades”. Vou além. Por mais que desse ao criador, cioso do feliz achado, o preferível seria suprimir essa conclusão desnecessária. Procedesse o autor como em outros casos, em que nem lhe foi preciso propriamente narrar, para que o conto se projetasse, em completa vitória de realização literária.
Se valeu a pena a incontestável procura da perfeição, depara-nos obra de escritor consciente, senhor de fino ouvido estilístico, além de original. Nem fique sem especial menção o débito aos processos e à linguagem da Bíblia. Também nisso o autor apresenta-se modelo a quantos penam e duram, na prática da esquiva arte de escrever, cujo aprendizado nunca chega a terminar.



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