Pirotécnico Santanna
Sérgio Sant’Anna

Nota: Este prefácio inédito para O Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, foi escrito a pedido da Editora Companhia das Letras e do site No., para uma série de prefácios escritos para clássicos da literatura brasileira, a serem publicados na Internet, no referido site e, posteriormente, constituírem um livro só de prefácios a ser editado pela editora paulista. Por mudanças na editoria do site o projeto não foi adiante, mas este autor o publica aqui no Suplemento Literário como uma homenagem ao amigo Murilo Rubião neste décimo ano de sua tão sentida morte. Relendo o texto, preferiu não fazer nenhuma modificação, e assim pede aos leitores que entendam uma ou outra referência a um “livro de prefácios”.

- Sérgio Sant’Anna.


Fogos do Além

Sérgio Sant’Anna

Escreveu Jorge Luis Borges no conto O Aleph, na primeira pessoa de um narrador que Borges, ironicamente, assume em grande parte como ele mesmo, aqui citado na tradução de Flávio José Cardozo, para a Editora Globo:

Na ardente manhã de fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu... observei que os painéis de ferro da praça Constituiçón tinham renovado não sei que anúncios de cigarros vermelhos; o fato me desgostou, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira numa série infinita.

Por ironia, da qual, com certeza, Borges não era inocente, tanto o autor, falecido em 1986, como a personagem adorada e o próprio conto estavam destinados à imortalidade. Na série infinita de mudanças de pessoas e gerações permaneceriam eles, Borges, Beatriz e O Aleph, cumprindo aquilo que Ezra Pound distinguia nos clássicos, em seu ABC da Literatura: uma certa juventude eterna e irreprimível.

Murilo Rubião morreu, aos 75 anos, em setembro de 1991 e, como Borges, evitando-se comparações de valor, não estacionou no limbo do esquecimento, estágio que costumam cumprir muitos escritores, alguns para sempre; outros para ressurgir adiante.

Para escrever esta homenagem a Murilo, representado por seu livro O Piroctécnico Zacarias, me valho de sua 19a edição, publicada pela Editora Ática, em janeiro de 1998. A obra de Murilo, portanto, continua viva.

Evidentemente, não foi nada casual a citação de Borges em prefácio de um livro de Rubião, pois ambos cultuaram o fantástico e escreveram, como ficção, apenas contos, exigindo de si mesmos um apuro máximo, tendo em vista a economia de um gênero em que, escrevendo-se menos, acaba-se por obter mais e melhor.

Falando de Murilo, sempre haverá, também, a lembrança de Kafka e seus magistrais romances e contos do absurdo, à falta de outro termo. Mas foi o próprio Rubião, em entrevista que abre a citada edição de O Pirotécnico... quem declarou que só veio a saber de Kafka em 1943, por uma carta de Mário de Andrade, quando já havia escrito a maior parte dos contos de O Ex-mágico, publicado em 1947. A afinidade com Kafka, segundo Murilo, podia se dever à influência do Velho Testamento e da mitologia grega. “O que seriam” afirmou ele “a Metamorfose e Teleco senão a reinvenção do mito de Proteu, pastor do rebanho marinho de Netuno, que por detestar predizer o futuro, dom que lhe fora concedido, transformava-se em animais para não o fazer?” Quanto a influências reais, Murilo citou autores como Henry James, Edgar Allan Poe, Pirandello e outros, mas, principalmente, Machado de Assis. Para quem, como eu, acredita que os nomes das pessoas inflenciam sua personalidade, não custa sugerir que essa influência maior poderia ter-se dado, pelo menos em parte, pelo nome Rubião, o mesmo de um personagem de Machado, em seu Quincas Borba.

Mas, afinal, quem foi o homem e escritor Murilo Rubião, se é possível enfeixar uma personalidade rica como a sua em algumas páginas?

Como tive a satisfação de gozar de alguma convivência com Murilo, vou usar um pouco da memória; mais um pouco de material crítico e jornalístico cedido pelo amigo comum Humberto Werneck, autor de um saboroso e elegante livro sobre jornalistas e escritores em Minas Gerais: O desatino da Rapaziada (Companhia das Letras, 3a reimpressão, 1998.) E, finalmente, tentarei refletir um pouco sobre o livro que me foi confiado para prefaciar, num borgeano livro constituído só de prefácios. Meu Deus, que responsabilidade, mas...vamos lá.

Murilo era um homem de faces distintas e complementares, e, por favor, não me acusem de acaciano, antes de verem onde quero chegar. De um lado, era o funcionário público exemplar, pois sempre dava o melhor de si em tudo o que fazia, o que levou o então governador de Minas, Juscelino Kubitschek, a nomeá-lo chefe de seu gabinete, em 1952. Depois, em 1956, exerceu por quatro anos o cargo de Adido junto à Embaixada do Brasil na Espanha, berço de surrealistas, o que me leva a pensar se tal fato não influenciou em sua decisão de aceitar o cargo, ou se foi um acaso necessário, tão ao gosto dos mesmos surrealistas.

De todo modo, o importante a apontar é que, embora trabalhando e organizando serviços públicos, em vários cargos – dentro dos ternos e gravatas, e, na juventude, até chapeús, como se fosse um daqueles homens pintados por Magritte – Murilo trazia dentro de si o destruidor da lógica aparente da vida social. Como se fosse o pacífico cidadão durante o dia, para, de noite, debruçado sobre páginas, tornar-se o mágico pirotécnico fabricando seus fogos e bombas.

Em 1966, a mão esquerda e a direita de Murilo – uma espécie de machadiano abstracionista, – se juntaram para fundar o Suplemento Literário do Minas Gerais, encartado, aos sábados, no órgão oficial do governo de Minas, muitas vezes para que seus colaboradores contrariassem e até sabotassem a ideologia oficial, o que deu margem a inúmeros conflitos, e isso, vejam bem, em plena ditadura militar.

A dupla face de Murilo se manifestava, também, ao final de cada tarde, quando, já ocupando a chefia do Departamento de Publicações da Imprensa Oficial, atravessava a avenida Augusto de Lima para adentrar a galeria do edifício Arcângelo Maletta e sentar-se à mesa do Lua Nova, botequim dos mais chinfrins, onde se reunia, diariamente, a geração mais madura dos intelectuais e artistas de Belo Horizonte. O boteco era apelidado por alguns de Lua Nava por causa da freqüência assídua do historiador e oficial-médico da Polícia Militar, José Nava, irmão do memorialista e também médico Pedro Nava. Para melhor definir um estilo de vida tipo Jekyll & Hyde, José Nava costumava dizer que de dia era psiquiatra e, de noite, psicopata. E houve quem se definisse também como psicoputa. Na mesma galeria do Maletta, no Lucas, os artistas mais jovens se reuniam para beber e subverter o que quer que fosse. E o mais legal era que a convivência entre os dois grupos se dava na maior cordialidade, e pode-se dizer que Murilo, com seu terno impecável, era um embaixador promovendo um encontro de gerações.

Mas, afinal, o que vem a ser esse livro que me proporciona tanta conversa-fiada?
O Pirotécnico Zacarias é um livro constituído de apenas oito contos, muitos deles, ou quase todos, já publicados em outros volumes, o que torna esse pequeno volume uma espécie de antologia do autor. Como sempre, na obra de Murilo, os contos são precedidos de uma citação do Velho Testamento e lidam com a supra-realidade, numa linguagem tão despojada que não parece ser literatura. Ou, como disse Davi Arrigucci Jr. em seu prefácio (verdadeiro) da obra: O seu discurso...realiza uma trajetória abstrata e desligada das obrigações da verossimilhança realista. Próxima do mito, a sua transformação constante instaura o reino do insólito onde tudo pode acontecer.

Assim, o Zacarias do conto-título é um narrador defunto, que fala de si para os outros com tremenda naturalidade:
No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos que Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos com a diferença que aquele era vivo e este, um defunto. ( Aqui passa um arrepio por este falso prefaciador como se o Murilo que conheceu fosse também um morto-vivo, aqui na Terra, até dar o ponto final da reescrita de seu último conto.)
Já Teleco, o Coelhinho é visto na terceira pessoa, com uma simplicidade tal que, em alguns momentos, julgamos estar diante de um conto infantil, não conduzisse ele a um destino trágico. Mas a linguagem é essa, lembrando um pouco Lewis Carrol:
-- Por acaso o senhor gosta da carne de coelho?
Não esperou ele pela resposta:
-- Se gosta, pode procurar outro, porque a versatilidade é o meu fraco.

Dizendo isto, transformou-se numa girafa.
Bom, um prefácio não é feito para contar os contos de um livro e sim para dizer algo que os mostre em sua unidade, contribua para a melhor revelação de uma obra e de seu autor. Mas não resisto e conto mais um pouco, desta vez do tragicômico O Ex-mágico da Taverna Minhota, em que o referido mágico perde o controle de suas artes e quer parar com elas, mas...se mexia na gola, logo aparecia um urubu. Em outras ocasiões, indo amarrar o cordão do sapato, da minha calça deslizavam cobras.

Sofrendo de grande melancolia, o ex-mágico não consegue nem se suicidar, ainda que tire do bolso uma dúzia de leões, que, afinal, revelam-se inofensivos e até entediados. Então o personagem se emprega numa Secretaria de Estado, onde o espreita um destino pior do que a morte: ser funcionário público, o que aniqüila até seus poderes de mago.

Saindo do particular, todos – críticos ou não – são unânimes em reconhecer em Murilo Rubião a originalidade de ser o primeiro realista-mágico, ou mesmo surrealista, na literatura brasileira. Os exemplos aqui mostrados refletem isso, e o realista vem do fato de que, como em Kafka, surgindo o insólito e o fantástico, o restante das paisagens, das pessoas, etc, permanece absoluta e minuciosamenete real. Seus contos são como sonhos bem guardados, ou criados, e eu apontaria os filmes de Buñuel como seus parentes próximos, só que com mais humor. Ou fará parte do humor de Murilo ser sempre sério? Aliás um fake do sério. Definindo-se ele como um celibatário, não poderá ser como um dos personagens da Máquina Celibatária de O Grande Vidro, ou A noiva despida por seus celibatários, mesmo, de Marcel Duchamp?

Todos lhe reconhecem, também, a palavra enxuta, a ponto de Murilo sempre ter modificado suas obras nas novas edições, na busca da perfeição impossível, que acabou por se cristalizar na própria busca, tornando-se esta a obra, o perfeito possível.

Davi Arrigucci Jr. foi muito feliz, ao escrever em Juan Rulfo: Pedra e Silêncio ( em Enigma e Comentário, Companhia das Letras, 1987) que é possível fazer grande literatura com muito ou com pouco. Ao contrário de Guimarães Rosa, por exemplo, Rulfo escolheu a probreza e brevidade. O mesmo se pode dizer de Rubião. Mas há no Pedro Paramo, de Rulfo, no meio das pedras, no meu entender, uma arte e artesanato perfeitos, mas visíveis, um bordado do mais puro ouro, enquanto Murilo despoja sua escrita a um ponto tal que parece e se quer anti-literatura. O que pode parecer aos incautos que Rubião escrevia fácil, quando, na verdade, esse fácil é dificílimo.

Que se dê a palavra ao próprio autor, na entrevista que precede esta 19a edição de O Pirotécnico Zacarias:
-- Reelaboro a minha linguagem até a exaustão, numa busca desesperada de clareza. Se usasse palavras impregnadas de símbolos ou concebidas em laboratórios, a leitura de meus textos seria dificílima.

A este prefaciador tardio, Murilo disse mais ou menos o mesmo, certa vez: “que o entrecho de seus contos pedia uma forma absolutamente inteligível”. Estava certo, Murilo, em relação a seus contos, sua opção, que ele executou com maestria.

Mas me permito, neste livro de prefácios, semear a dúvida e dizer que o precursor de muitos, Lewis Carrol, tanto detonou a palavra quanto seus significados, em seus dois Alices. Quando, por exemplo, a Falsa Tartaruga disse à mocinha que, na escola, estudava Histeria Antiga e Histeria Contemporânea, além das quatro operações – Ambição, Distração, Derivação e Mortificação – era todo o mundo vitoriano e sua linguagem que vinham abaixo. E foi dessa cartola que James Joyce retirou uma infinidade de coelhos em sua História do Mundo, o Finnegans Wake. Por outro lado, Kafka inverteu todos os significados sem mexer na sintaxe e estrutura do verbo.

Voltando ao Brasil e Minas, não podemos esquecer que foi adentrando a linguagem que Guimarães Rosa pôde penetrar no inconsciente brasileiro e da língua falada no Brasil. É por meio da palavra ancestral que um matuto se transforma em onça, em Meu Tio Iauaretê. Os caminhos, porém, são vários, e, retornando à obra já sedimentada de Murilo Rubião, não poderíamos mais entendê-la sem sua total nudez, contrastando com o hermetismo do seu conteúdo. E podemos entender também o hermético como significações totalmente abertas, múltiplas.

Como gostaria eu de voltar no tempo, sentar-me à mesa do Lua Nova com Murilo Rubião e perguntar o que acharia ele desses versos, de 1916 (aqui transcritos parcialmente), do dadaísta alemão, refugiado na Suiça, Hugo Ball, num poema apenas fonético, simultaneamente concretíssimo e abstratíssimo:

KARAWANE
jolifanto bambla
grossiga m’pfa habla horem
égiga goramem
higo bloiko russula huju
......................................
tumba ba- umf
kusagauma
ba – umf *

E por que não aproveitar aqui um pequeno trecho de Edward Lear ( outro nome predestinado? ), do século XIX, retirado de um ensaio de Anthony Burgess, Vamos falar de nonsense?, publicado no Idéias, JB, de 31.10.87?
Lear escreveu uma carta a um amigo, que terminava assim:
“Okul, scratchabibblebongibo, viddle squibble tog-a-tog ferrymoyassity amsky flamsky ramsky damsky crocklefefether squiggs”.

Ou então esse texto, do mesmo Lear, tirado da mesma fonte:
“Um Rei Lear com um gato chamado Old Foss como bobo da corte, mas sem filhas ingovernáveis. Ele estava muito mais seguro sozinho. Sonhando com colheres runcíveis e chapéus runcíveis.

Ofereço esses textos ao amigo Murilo Rubião, onde quer que ele esteja, ou não esteja, mas de todo modo de terno e gravata.



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