Animais de estimação
Alexandre Eulálio

O Globo, 23-08-65, pg. 3 – Matéria e Memória

Os dragões de Murilo Rubião pertencem a uma zoologia doméstica e conformada. Se nem por isso ela é menos atroz, os bichos do escritor mineiro sofrem recolhidamente a própria monstruosidade. Cientes de que, afinal, o seu reino não é deste mundo, a eles parece que mais vale calar a própria mágoa, do que amolar à toa o vizinho com lamentações inúteis.

Semelhantes a estes dragões tão urbanos, os outros animais do novelista que também participam de qualquer natureza anômala – o coelho Teleco, Alfredo, o dromedário – acabam por adotar os mesmos costumes morigerados daqueles senhores, evitando exorbitar certa área civil das convenções, mesmo quando irrequietos por natureza.

Trata-se então de um fabulista? A pergunta já foi feita a propósito daquele herói sem perfil, protagonista invisível de “Dom José não era”, essa ficção dialética que é uma das suas melhores páginas. Mas a resposta sibilina vem lá no próprio texto: não, não era um fabulista. “Os monstros viviam na sua própria casa, ao alcance dos seus olhos”. Isto e o excesso de citações da Bíblia que Murilo distribuiu por todo o livro, segundo um rigoroso sistema de epígrafes, encerram a questão.

Daí estarmos – segundo afirmam alguns críticos severos – quando muito diante de um naturalista transviado, que abdicou por tédio dos seus sistemas classificatórios. Um naturalista demissionário que preferiu manipular as pranchas científicas, que antes ele apenas registrava, num calidoscópio fantasmagórico, que varia desde os ritmos mais lentos até os mais frenéticos.

Clássico da ficção pós-modernista, “Os dragões e outros contos” de Murilo Rubião reúne, em roupa nova, um terno azul muito bem cortado por Mário Silésio, os dois livros anteriores do escritor, “O ex-mágico” (1947) e “A Estrela Vermelha” (1953). Apesar de ser uma edição da Imprensa Oficial de Belo Horizonte, talvez consiga atravessar a clandestinidade que, quase sem exceção, assassina as edições da província pelas suas virtudes evidentes. Aliás, conseguindo conciliar dragões com tipografia estadual, pode ser que o autor consiga mais milagres além desse conciliar insólito de cotidiano e fantástico, matéria da mesma memória em diferentes dosagens.

Através de uma sensação fundamental de irrealidade, proposta de todas as maneiras, é que Murilo Rubião exprime o desencontro do homem com o seu espelho interior: Proteu, que de tanto se transformar, já perdeu toda a memória da sua perspectiva pessoal. Assim o tema da metamorfose, em todas as suas alianças e variações, e focalizado do ponto de vista do grotesco, é a principal constante da sua obra, resumindo a representação de exílio e abandono. Omnia fluunt: ironicamente nada se cria ou perde, mas se transforma numa revolta maré, onde, como num teatro de marionetes, as entradas, saídas e voltas à cena se repetem num penoso galope. A imagem do fluxo do tempo e da existência sofrido pelas pessoas e coisas, esse metamorfosear e transformar encerra-se, finalmente, numa derradeira máscara de cera pavorosa, com a morte. É aí que tem vez o macabro, epílogo de tantas estórias do livro.

Para expressar essa estranheza cotidiana o autor vai se afastando aos poucos do terra-a-terra, instalado num tempo a-histórico em que irreal e real têm a mesma valência. Oscilando entre Apocalipse e Gênese, esse leitor da Bíblia que é o mais empenhado dos diletantes, estabelece-se num submundo lírico de monstros, infames, loucos, retardados e incestuosos, denso de significação poética, e no qual ele talha o seu caminho.

Na linguagem, esse elemento monstruoso se insinua pé ante pé, através da deformação cuidadosa da frase corrente, cuja sobriedade ostensiva vai sendo aos poucos desgastada pelo sinônimo raro, pelo termo técnico, pela palavra exata demais, que abrem na oração aparentemente sem recursos a trilha para o elemento insólito. A dosagem sábia dessas mutações quase imperceptíveis pode acelerar-se até à mesma explosão da frase. Colocando em questão a própria univocidade vocabular e conceitual, acaba por desmembrar o raciocínio lógico com o mesmo minucioso furor frio do menino que destroça um inseto – primeiro uma asa, depois uma pata, depois uma antena – até que o raciocínio “roto, baço, vil” sucumbe de vez. Exemplos admiráveis dessa pesquisa lingüística são contos como “O Pirotécnico Zacarias”, “Marina, a intangível”, “O homem do boné cinzento”, “Mariazinha”.

Esta suspensão do juízo realista parte de uma cuidadosa exposição do óbvio a fim de atingir uma libertação vertiginosa, que é poesia e liberdade, uma nova gestação do mundo. Neste caos é que o autor busca a identidade e a unidade, e o sentido que tem o Tempo. Retomando dentro dele os arquétipos das histórias que são sempre as mesmas ( não existem temas originais) é que ele criou a sua obra. E contos como “Os dragões”, “O edifício”, “Bárbara”, “A casa do girassol vermelho”, “A flor de vidro”, “O ex-mágico” sem favor enriqueceram, com a sua meditação alegórica sobre os problemas do homem do nosso tempo, a nossa literatura.



A arte do conto de Murilo Rubião
Animais de estimação
As visões do invisível
Coisas Espantosas
Entre o humano e o animal
O Convidado
O Ex-Mágico
O fantástico em Murilo Rubião
O mágico desencantado ou as metamorfoses de Murilo
O Pirotécnico Zacarias
O sequestro da surpresa
Os dragões e ...
Os novos
Pirotécnico Santanna
Realidade, fantasia.
Romance daqui e dalhures
Um contista em face do sobrenatural
Visões da crítica
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