Um contista em face do sobrenatural
Wilson Castelo Branco

Crítica publicada no jornal “Folha de Minas, Belo Horizonte, 1944.

Murilo Rubião já se firmou como contista da moderna literatura nacional. Dispõe de técnica própria, estilo pessoal e temas originais. Está sujeito a estudos de toda natureza, pois sua obra esparsa e o livro de contos, “O Dono do Arco Íris” , em via de publicação, constituem inegavelmente valores bem sólidos no cenário das Letras brasileiras. Aceitá-lo ou não, será atitude crítica – o que não se pode fazer é negar sua legítima posição de contista. Esta a justificativa do presente estudo.

*****

O sobrenatural, plasmado no cotidiano, representa quase sempre uma atitude de revolta do homem contra as traições da realidade. Quando menos, é um modo de captar o que vai pela vida de absurdo e incompreensível. Donde o paradoxo de chegar-se ao natural através dos caminhos e soluções do irreal.
Já se disse que a arte não modela o que é verdadeiro, mas sim o verossímil. O ficcionista está longe de ser redator de relatórios, sua missão é muito outra e maior. Agindo sob o signo da sensibilidade e da imaginação criadora, ele quase sempre despreza os dados positivos para aproveitar deles apenas a sugestão ou a trilha que inconscientemente abrem caminho à fabulação.

Seja como for, o processo da ficção só se realiza através da realidade. Os romanceadores do cotidiano ou do excepcional se colocam no mesmo plano. Nesta corrente de pensamentos, vamos concluir que a riqueza da vida permite ao criador, que nela se baseia, a construção de obras sem nenhum sentido aparente de realidade. Numa declaração datada de 1923, Picasso diz: - “Todos sabemos que a arte não é a verdade. A arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade, pelo menos a verdade que nos é dado compreender. O artista deve saber a maneira pela qual convencer os outros da veracidade de suas mentiras”. Ora, é justamente nesta “mentira que nos faz compreender a verdade” que reside a maior soma de razão, da parte daqueles escritores que porfiam em descobrir o real no irreal, ou o natural no sobrenatural. (“Revista do “O Jornal” – 11 – 6 – 944).

*****

Em Murilo Rubião, o dualismo realidade e supra-realidade assume proporções que, à primeira vista, pareceriam caóticas se não se justificassem simplesmente pela filosofia da vida esposada pelo autor e sutilmente destilada em todo o livro. É que sua visão do mundo está longe de se restringir ao natural, ao que a realidade apresenta como verdadeiro na sua aparente simplicidade. O certo, o que é insofismável, é que existe uma lógica até mesmo naquilo que nos parece ilógico, sendo dever nosso investigar para além dos véus e das cortinas de fumaça, a ver se descobrimos o sentido essencial das coisas. O tratamento de certos temas não se compadece também com a linguagem direta e objetiva (melhor diríamos “diurna”), mas sim com o pensamento simbólico, mais apropriado no sugerir que no descrever. E a forma de seus contos supera a forma comum das histórias e narrativas para se adaptar ao curso tortuoso e não raro regressivo de fabulosos enredos, criados antes pelos personagens que pelo próprio autor. Murilo Rubião realiza no conto muito daquilo que Pirandelo efetivou no drama: foi obrigado a criar formas novas, capazes de se amoldarem aos complexos problemas psicológicos postos em jogo na cena.
Por tudo isso, a leitura dos contos de Murilo Rubião exige, da parte do leitor, um determinado estado de espírito e uma forma de sensibilidade mais condizentes com os temas analisados em quarta dimensão. Não se quer dizer, com isto, que o contista só esteja destinado à compreensão dos “raros”, pois sua obra é objetivamente accessível a todos – mas a participação do leitor com as experiências humanas, que fluem nos contos, há de ser, forçosamente, um ato interessado, de procura do sentido fundamental dos problemas e conflitos decorrentes da ação. Caso contrário, este só compreenderá o enredo, a anedota e o “humour”, deixando de parte a feição mais original da obra.

O contista de “O Dono do Arco Íris” forma, ao lado dos abstracionistas, daqueles que vêem nas coisas e nos seres o que estes representam no plano universal, abandonando a significação que acaso tenham do pondo de vista material. Seu método se enquadra de certa maneira no de Picasso, acima referido, ressalvadas as peculiaridades da pintura e da literatura. No caso de Murilo Rubião, não podem também ser esquecidas as soluções que ele obtém por via dos fenômenos de supra-consciência individual. Aproveitando-se dos estados de emotividade intensa ou de anomalia psíquica dos personagens, o contista cria para eles ambientes estranhos, em que a realidade e a fantasia correm paralelas e muitas vezes se entrecruzam, oferecendo ao leitor as mais ricas perspectivas. A técnica de Papini, em “Palavras e Sangue”, dá uma idéia aproximada do que desejamos dizer.

Um dos melhores contos de Murilo Rubião, “O Ex-Mágico da Taberna Minhota”, resume em si a quase totalidade das virtudes estilísticas e criadoras do autor. É a história de um homem, dotado de faculdades excepcionais, mas incapaz de sentir e entender a vida. Alguém cuja alma estava fechada para o mundo, embora o mundo vivesse a seus pés, implorando um pouco de amor e participação. Através do enredo humorístico – um mágico às voltas com seus passes e enfastiado deles – descobre-se o símbolo eterno e sempre novo da insatisfação humana, ilimitada como pensamento e enclausurada na ação. Não é o drama do ser inadaptado ou incapacitado para a existência – mas a tragédia superior do personagem que dispõe de todos os instrumentos necessários à luta e não os utiliza, sabendo antecipadamente que qualquer esforço é vão e inútil em face da desmesurada complexidade do eterno. Desenvolvendo o estilo livremente, sem grandes censuras do consciente, tal como o requeria o plano da narração, o contista transfere à obra o máximo de “humour” e naturalidade. Este, entretanto, é um aspecto secundário. Deve-se ver aí, antes de tudo, o desespero do homem em face do imperativo de viver, muito maior que o mistério da morte. Ele procura a explicação de sua presença no mundo, quer atingir as primeiras causas do cansaço e do tédio que o avassalam. As mágicas mais inesperadas e os sucessos de maior repercussão mal conseguem fazer vir à tona seu espírito indevassável. Enquanto erra entre multidões entusiasmadas, o mágico, anjo perdido em meio aos homens, prescruta as origens de seu destino e a finalidade de sua passagem sobre a terra. As exigências tirânicas do cotidiano agravam ainda mais a situação do personagem, quer solicitando dele maior comunicabilidade com o povo, quer predispondo-o a odiar os semelhantes. Os conflitos de natureza individual se hipertrofiam, com grande redução do sentimento de solidariedade. Diria que ele paira num mundo diverso, povoado de pensamentos e formas ideais, enquanto sua pessoa real se vê condenada à vida em sociedade. Agrilhoado a convenções intransponíveis, o mágico se debate à procura de alguma coisa essencial, ainda ausente para ele. E esta coisa impalpável, que busca, não está nele nem nos outros – é de natureza sobrenatural. Por isso mesmo, cuida encontrar no suicídio a solução do problema. O aniquilamento do corpo e da alma não lhe são, todavia, permitidos: razões superiores ordenam o prosseguimento de sua agonia.

Vem finalmente o desfecho e, com ele, a fórmula de resolução das angústias do personagem. Depois de perder os dons miraculosos que o distanciavam dos outros homens, o ex-mágico alcança um apaziguamento relativo e se instala na vida, funcionário público, com ordenado mensal, dívidas e um caso de amor irrealizado. Como é de sua própria condição estar sempre insatisfeito, lembra-se ele, agora, com nostalgia, dos tempos em que era mágico e podia “arrancar do seu corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, negros; encher a noite de fogos de artifício; erguer o rosto para o céu e deixar que, pelos seus lábios, saísse o maior arco-íris jamais visto. Um arco-íris que fosse de um extremo a outro do mundo e cobrisse todos os homens.”
Vê-se, pois, que nada pode haver de mais simples em matéria de narrativa. Todas as minúcias são cuidadosamente relatadas, os vários incidentes da história acham-se logicamente entrosados, sem a menor sombra de artificialismo. Deixando de lado as sugestões mais profundas do conto e esquecendo o que há de intencional nas passagens e pensamentos de maior simplicidade, aí teremos tão somente um caso objetivo; provido de princípio, meio e fim, contendo um fato perfeito e acabado. Entretanto, nada disso teria valor se o contista não transmitisse à sua obra o sopro de angústia e desespero que a agita nas menores parcelas. Assim como os personagens, também os ambientes e as paisagens estão impregnados de dolorosa essencialidade. Tudo se encontra soturnamente dominado por alucinações, rebeliões e crises de violenta loucura. A impressão que se tem, diante de todos os personagens de Murilo Rubião, é de que eles se perderam num deserto, onde perambulam sem rumo e sem destino. Forças metafísicas se incumbem de desviá-los constantemente das rotas salvadoras, condenando-os a cumprir, sempre, o mesmo destino.

Em “Alfredo”, outro conto do livro, Murilo Rubião nos oferece a mesma concepção agônica de mundo. Lançando mão de um simbolismo quase poético, o autor projeta em atividade um personagem cósmico, representativo de psicologia mística dos montanheses. O sentimento de solidão fica irredutivelmente preso ao símbolo da montanha e o personagem, quando abandona o seu meio físico e moral, perde, em conseqüência, os atributos marcantes de sua personalidade: “Eu apenas buscava no vale um lar feliz, uma serenidade que não encontrei. E como poderia encontrar, se o desassossego vinha do meu corpo e não das coisas que me circundavam?”.

Sente-se que Murilo Rubião está longe de ser um contista que fuja para mundos imaginários, desprezando os temas e os problemas do mundo presente. Ao contrário, ele procura sempre insinuar que as fugas e os sonhos dos personagens são antes conseqüência de desesperado sofrimento. Atormentados pelas injunções do meio e da sociedade, os comparsas de seus contos apresentam-se como tipos psicológicos anômalos, produtos típicos da chamada super-civilização. Seres neurastênicos, recalcados, confabuladores surgem nos diversos contos, relatando-nos a sua visão deformada do mundo. Percebe-se que não existem nestas almas torturadas apenas manias inconseqüentes – pois todas elas trazem, no mais fundo da alma, tragédias espantosas. E se criam para si um mundo imaginário, é porque não têm mais forças para suportar friamente os choques e entrechoques da realidade.



A arte do conto de Murilo Rubião
Animais de estimação
As visões do invisível
Coisas Espantosas
Entre o humano e o animal
O Convidado
O Ex-Mágico
O fantástico em Murilo Rubião
O mágico desencantado ou as metamorfoses de Murilo
O Pirotécnico Zacarias
O sequestro da surpresa
Os dragões e ...
Os novos
Pirotécnico Santanna
Realidade, fantasia.
Romance daqui e dalhures
Um contista em face do sobrenatural
Visões da crítica
© 2012 . Murilo Rubião . Todos os direitos reservados