Realidade, fantasia.
Rachel Jardim

O GLOBO, domingo, 22/10/78

Cronologicamente, “A casa do girassol vermelho”, publicado com o nome de “A estrela vermelha” (Ed. Hipocampo – 1953), é o segundo livro de Murilo Rubião, editado nove anos depois do aparecimento do “Ex-Mágico”. Profundamente diferente dos realistas mágicos que o precederam e mesmo dos hispano-americanos, com quem foi tantas vezes comparado, Murilo Rubião confessa duas influências: Machado de Assis e a Bíblia, dois mananciais de inesgotável riqueza para o conhecimento do homem. Se tanto na Bíblia como em Machado a visão do ser humano é a mais despida de fantasia possível, em Murilo, a partir do desencanto do ex-mágico, a fantasia serve justamente para encobrir uma visão cética e irônica do mundo, tão cética e irônica quanto a da Bíblia.
Basicamente não se pode dizer que Kafka influenciou Murilo Rubião, a não ser por um fenômeno kafkiano, pois ele não o conhecia nem de nome quando escreveu seu primeiro livro. Mas esse parentesco, assinalado por Mário de Andrade em 1947, não pode deixar de ser mencionado.

Guardadas as devidas diferenças entre Praga e Belo Horizonte, aquele escritor é realmente o mais aparentado com Rubião. Kafka não conhecia Machado e certamente não era um aficcionado da Bíblia. Nada serviu para lhe atenuar a angústia, nem o cetecismo, nem a ironia, nem a leitura da Bíblia. Digamos que em Murilo o fantástico e a angústia são um elemento lúdico, peças de um quebra-cabeças que joga com extrema lucidez, ao passo que em Kafka elas estão no cerne da própria visão de mundo.

No último conto deste volume, o personagem, Alfredo, tenta a metamorfose, numa tentativa lúcida de fugir aos conflitos humanos. Em Kafka, pelo contrário, a metamorfose é sempre imposta ao personagem, que não a procura, mas a aceita como inevitável. Aí está, provavelmente, o fulcro da diferença entre os dois autores, um noturno e outro solar, como também acentua Mário de Andrade.

No conto que abre esta coleção, “A casa do girassol vermelho”, a visão onírica do mundo se transforma de repente: “Um futuro mesquinho nos aguardava... Mariazinha e Nanico – dois idiotas – olhariam um para o outro indefinidamente, alheios a qualquer determinação de romper com o mundo... Dei-me por vencido. Não adiantava lutar. Tudo se quebrará”.

Emergindo do ventre de Belinha, um minúsculo girassol vermelho dá sinal de que tudo recomeça, não obstante, tão inexoravelmente como se multiplicam os coelhos na cartola do fatigado ex-mágico. O que há de insólito e original no mundo de Rubião é que nele a realidade, tão fantástica quanto a fantasia, é igualmente tediosa. O desencanto de Murilo é aquele mesmo constatado pelo Eclesiastes (nada acontece de novo sob a face da terra...) e por Orlando, personagem de Virgínia Woolf, que começa a ver tudo se repetir, através dos séculos. Também o do próprio Machado, este salvo pela sensualidade...
Em “O homem do boné cinza”, a figura principal, Anatólio, lembra, às avessas, a heroína do conto “Bárbara’ (publicado no “Ex-Mágico”). Aqui, o personagem emagrece até se transformar numa minúscula bola negra, ao contrário de Bárbara, que engordava. A gordura e a magreza são elementos do grotesco presente em toda a obra de Rubião.

Em “Dom José não era”, aparecem todos os equívocos do mundo muriliano. Num gesto de coerência, o personagem se enforca, pois não conseguia corresponder à imagem que se fazia dele.

A impossibilidade do diálogo e a falência da memória (antiproust), estão presentes em “Os três nomes de Godofredo”. Como Barba Azul, Godofredo mata as suas mulheres, não conseguindo conservá-las na memória, condenado definitivamente a se esquecer delas. Em “A lua” (o mais poético dos contos) e em “A armadilha”, surge novamente o tema do assassinato, neste último transformado num quase emparedamento e numa inexorável convivência até o final dos tempos. A inexorabilidade é, aliás, um dos elementos mais usados pelo autor em toda a sua obra. Em “Marina, a intangível”, do caos ergue-se o poema da heroína, “feito de pétalas rasgadas e de sons estúpidos”, sobrepondo a sua realidade a todas as forças deflagradas contra ele.

Em “Bruma”, a presença do feérico e do onírico novamente se manifesta: estrelas vermelhas, luas, astros coloridos, constelações, sóis, fogos de artifício fazem parte do mundo feérico do pirotécnico Zacarias. “Alfredo” fornece a chave da obra muriliana: - “E o que faz aí, plantado como um idiota no cimo desta montanha? Parou de gemer e fitou-me com indisfarçável curiosidade:“Bebo água”.

Assim, os gestos mais triviais e até mesmo lógicos deflagram forças incontroláveis, mas tudo se repete de forma inexorável, conduzindo ao desencanto e à solidão.

Ao fundo, o sorriso irônico de Murilo, sabedor que os lobisomens existem como os funcionários públicos, e que ambos são cômicos por estarem vivos e repetirem cotidianamente os mesmos gestos.



A arte do conto de Murilo Rubião
Animais de estimação
As visões do invisível
Coisas Espantosas
Entre o humano e o animal
O Convidado
O Ex-Mágico
O fantástico em Murilo Rubião
O mágico desencantado ou as metamorfoses de Murilo
O Pirotécnico Zacarias
O sequestro da surpresa
Os dragões e ...
Os novos
Pirotécnico Santanna
Realidade, fantasia.
Romance daqui e dalhures
Um contista em face do sobrenatural
Visões da crítica
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