Os novos
Álvaro Lins

Jornal de Crítica
Correio da Manhã, Rio de Janeiro – GB – 2/04/1948


No que diz respeito aos livros de contos, como aos de poemas, o mais comum é que não tenham unidade substancial, sobretudo quando de autores jovens. Geralmente, eles são feitos em épocas diversas, e esse intervalo fica assinalado, em cada um deles, por diferentes estados de espírito, preocupações variadas, influências de momento. Os contos se diferenciam assim, uns dos outros, pela orientação e tratamento dados aos assuntos, ainda mais pela composição e pela técnica. Deste modo, eles são mais coletâneas do que propriamente livros, no que estes, como obras, devem significar em unidade substancial e formal. É raro um livro de contos em que todas as peças sejam convergentes, ligadas no final, por efeito de uma concepção uniforme do autor, que signifique ao mesmo tempo uma maneira única de tratar os seus temas e uma forma de construção lançada sempre com as mesmas bases e objetivos. Esta é sem dúvida a primeira qualidade de O ex-mágico, livro de contos do sr. Murilo Rubião, escritor mineiro . Trata-se de uma obra de estréia, mas na qual o autor, segundo fui informado, trabalhou durante vários anos, fazendo e refazendo os contos, que têm não só unidade, mas um caráter pessoal e inconfundível. Não me parece que o sr. Murilo Rubião tenha realizado plenamente a maneira de ficção que idealizou, nem que tenha atingido todos os fins visados, mas devemos estimá-lo e admirá-lo, antes de tudo, por essa circunstância de ter levantado para si próprio um tipo particularíssimo de realização artística e de se haver mantido conscientemente dentro dela, aliás, com bastante originalidade e talento. [Ele não procurou uma fácil forma de expressão, nem ficou a lidar com elementos já vistos e explorados. Buscou um caminho novo e soluções próprias. Se não está dotado de uma originalidade absoluta no sentido universal, o livro do sr. Murilo Rubião representa, no Brasil pelo menos, uma novidade, com um tratamento da matéria ficcionista que não me fora dado ainda encontrar em qualquer dos nossos autores.] Não vamos cometer o exagero de proclamar que o sr. Murilo Rubião é o nosso Kafka, mas indicar que esse tipo de ficção, dentro do qual ele se colocou, está representado no plano universal, e da maneira mais perfeita, pela obra de Kafka. Já afirmou o sr. Murilo que não sentiu nenhuma influência direta de Franz Kafka, pois só veio a ler o tchecoslovaco genial depois de haver escrito O ex-mágico, e não temos motivo para duvidar da sua declaração. Pouco importa: não estamos definindo uma influência, mas sugerindo apenas uma aproximação no que diz respeito a uma determinada concepção do mundo, geradora por sua vez de uma concepção artística, que lhe é correspondente. É verdade que sob muitos aspectos os contos do sr. Murilo Rubião nada têm a ver com os de Kafka, mas será razoável aproximar o autor brasileiro do autor universal no seguinte ponto de partida: o tratamento como que objetivo e exato do imaginário; a criação de um mundo que, embora com as mesmas coisas e pessoas do nosso mundo, difere deste quanto às situações de movimento, tempo e causalidade; a apresentação deste outro mundo de forma a colocar o leitor em estado de vertigem ao ponto de levá-lo a sentir que aquela criação supra-real é que tem verossimilhança e mesmo verdade, enquanto o nosso ambiente visível e sensível fica sendo, aos seus olhos, transfigurados pela ficção, uma realidade inverossímil e mesmo falsa. Em síntese: é o “absurdo” que o autor constrói e impõe como o “lógico”. E neste último ponto, o mais importante e decisivo, é que me parece ainda falho e incompleto o sr. Murilo Rubião; nem ele consegue, como autor, essa transfiguração, essa transposição de planos, nem consegue naturalmente lançar nela o leitor. É como se disséssemos que o escritor mineiro construiu o seu mundo estranho de ficção, mas sem conseguir animá-lo de toda a atmosfera extracomum que lhe é própria e característica. Entre os dois mundos, o real e o supra-real, ficou sempre, em O ex-mágico, alguma coisa perturbando o estado emocional da ficção, de modo que permanecemos insatisfeitos quanto aos resultados, que no caso, não devem ser apenas literários, mas psicológicos e humanos de modo geral.

Depois da leitura de dois ou três contos do sr. Murilo Rubião, é possível que alguns leitores indaguem: não haverá nestas páginas, ao lado do delírio poético perfeitamente legítimo explicável, um pouco de mistificação? Não, nenhuma mistificação por parte de um autor que sentimos sempre consciente e honesto dentro da sua arte. Apenas, em vários contos, o sr. Murilo Rubião não convence quanto ao problema de tornar lógico o absurdo. O leitor fica, então, perfeitamente frio e indiferente diante de contos como “O ex-mágico”. “O pirotécnico Zacarias” ou “Bárbara” da série intitulada “Mulheres”. Os dois primeiros são engenhosos, curiosos, mas sem intensidade psicológica, enquanto o último é apenas pitoresco e de um pitoresco de mau gosto. É o perigo do tipo de ficção adotado pelo sr. Murilo Rubião: que a alucinação poética, não sendo completa, transmita como resultado apenas o pitoresco, o gracioso, a mágica descoberta pelo leitor. Usemos uma comparação sugerida pelo próprio título do livro do sr. Murilo Rubião. Sabemos que é uma “ilusão” a realidade criada pelos mágicos, mas não nos lembramos dessa circunstância quando o seu trabalho tem integridade e perfeição. Temos a idéia de todo um mundo que desaba, porém, quando descobrimos o segredo ou o artifício das transformações mágicas. Sendo muito inteligente, cético, racionalista e lúcido, o sr. Murilo Rubião como que desdobra todo o seu jogo ao olhar do leitor, deixando-o às vezes desencantado. Isto decorre também da circunstância de não ser bastante forte e poderosa a capacidade de interiorização do autor, o que seria de todo necessário ao seu tipo de ficção. Falta-lhe justamente aquela “mística sem Deus” que caracteriza a obra de Kafka, segundo uma expressão que encontro citada em ensaio do sr. Carlos Burlamaqui Kopke. Mas há alguns contos de O ex-mágico que estão excelentemente construídos e realizados, como peças literárias, sem levarmos em conta, para aferições, um tipo especial de ficção. Um deles, por exemplo, é A noiva da casa azul; outro da mesma qualidade é “Os três nomes de Godofredo”. São contos estes, como vários trechos de outros, que caracterizam o sr. Murilo Rubião como uma personalidade de escritor, ainda em busca de certos recursos de concepção e realização, mas já consciente e aparelhado na sua arte com assuntos nada convencionais e uma forma verbal que, sendo muito simples e discreta, não deixa de ter senso estético e bom gosto.



A arte do conto de Murilo Rubião
Animais de estimação
As visões do invisível
Coisas Espantosas
Entre o humano e o animal
O Convidado
O Ex-Mágico
O fantástico em Murilo Rubião
O mágico desencantado ou as metamorfoses de Murilo
O Pirotécnico Zacarias
O sequestro da surpresa
Os dragões e ...
Os novos
Pirotécnico Santanna
Realidade, fantasia.
Romance daqui e dalhures
Um contista em face do sobrenatural
Visões da crítica
© 2012 . Murilo Rubião . Todos os direitos reservados