Os dragões e ...
Nelly Novaes Coelho

“Estado de São Paulo” (Suplemento Literário), 06 de agosto de 1966

Ao terminar a leitura deste surpreendente “Os Dragões e Outros Contos” e ao verificar, pela nota da contracapa, que Murilo Rubião já publicara antes dois livros: “O Ex-Mágico”, em 1947 e “A Estrela Vermelha”, em 1953, e dos quais nunca tivéramos notícia, não pudemos nos impedir uma funda sensação de desânimo. Ou melhor, de impotência frente à multiplicidade das coisas que por aí existem à espera de nossa descoberta; uma quase frustração diante da irremediável condição do homem de hoje, por não poder abarcar (mesmo restringindo-se ao próprio campo de sua especificidade) a não ser uma ínfima parte daquilo que necessariamente deveria ser conhecido.

Sem dúvida, temos de aceitar que vivemos lançados em um mundo aberto, eclético; cuja soma de saber acumula-se gigantescamente e tende a fazer de nós seres dispersados pelas coisas, pondo em perigo a nossa consciência individual de ser íntegro ou arriscando a deformação de nossa personalidade. Essa contingência é, portanto, algo a que não nos é dado escapar, pois somos, ao mesmo tempo, filhos e autores da nova civilização. O que nos resta, talvez, como um dos caminhos para fugir à opressora sensação de impotência, é assumirmos os nossos limites e dentre deles darmos o máximo de nós...
A descoberta deste estranho livro de Murilo Rubião foi, pois, o motivo concreto dessas reflexões desencorajantes, quando nos demos conta de que este contista mineiro, de invulgar qualidade (e singular leitor da Bíblia...), vem publicando sua obra há já vinte anos e que, aqui em S. Paulo, ao que me consta, ainda mantinha-se rigorosamente inédito. Esse divórcio cultural que perdura entre os nossos Estados é realmente melancólico e infecundo; e quando nos deparamos com um caso como este não podemos deixar de lastimá-lo.

Enfim, fora essa melancólica “constatação”, a descoberta de “Os Dragões e...” só nos trouxe emoções positivas e é delas que nos interessa falar.
Consta o livro de uma coletânea de vinte contos, de cuja leitura, logo às primeiras páginas, nos vem a impressão de estarmos diante de uma literatura fantástica para crianças. Narrativas onde vemos aparecer dragões, em meio ao prosaico mundo real de uma cidadezinha comum; dragões que, com a maior naturalidade, convivem com os homens, conversam, são educados ou deseducados e apresentam vícios e virtudes muito humanos. Onde assistimos as pitorescas e depois dolorosas metamorfoses do coelhinho Teleco ou onde um dromedário triste e seu irmão Joaquim andam em busca de compreensão e amor. Onde vive também um mágico extraordinário e insatisfeito e um “homem de boné cinzento” que se desfaz no ar, depois de um longo e misterioso processo de desintegração física.

À medida, porém, que nos deixamos levar pelas narrativas, uma certa estranheza vai-se apoderando de nosso espírito e sentimos que ali há algo mais profundo, do que a princípio podíamos supor. Ali, decididamente, não estamos diante de um simples e gratuito jogo de sucessos fantásticos, como os coelhos, pombas ou lenços que um mágico tirasse da cartola. Há ali uma essencialidade enigmática que nos atrai e nos obriga a refletir.
Sem dúvida, a mescla do real cotidiano ao fantástico (que é a constante destes contos), apresentada de maneira tão direta, simples e objetiva, é o primeiro elemento a arrancar o leitor de sua acomodada visão normal para atirá-lo, em seguida, a um insólito mundo, com todas as características aparentes daquele tão seu conhecido, no dia-a-dia; onde, porém, de repente parece faltar-lhe o chão aos pés, pois as coisas mais inverossímeis começam a acontecer, sem que ninguém ali se sinta perturbado ou se dê conta do extraordinário que aquilo representa.

E por detrás desse estranho cotidiano familiar, parece-nos ouvir o eco da lição de Kafka: “Não é preciso que saias de casa. Fica assentado à mesa e escuta. Nem mesmo escutes, espera simplesmente. Nem mesmo esperes, permanece silencioso e solitário. O mundo vai oferecer-se a ti para ser desmascarado, não poderá impedir que o faças”. [sic] Tendo ouvido ou não a recomendação kafkiana, (pois não o podemos assegurar...) o que Murilo Rubião tenta, ao longo de seus escritos, é justamente esse desmascaramento.

Sua linguagem despojada, concisa e prosaica, mantida com segurança, é indiscutivelmente um dos elementos fundamentais na criação dessa atmosfera, real e irreal ao mesmo tempo, que flui de seus contos. Mergulhados todos eles num suceder de coisas absolutamente fantásticas ou simbólicas, a sensação de verossimilhança que transmitem não seria tão forte como é, se tivesse sido usada uma linguagem também impregnada de simbolismos ou penetrada de poesia. Parece-nos ser este sóbrio manejo do instrumento verbal um dos fatores mais característicos da arte de Murilo Rubião; o que produz o primeiro impacto; numa linguagem seca e neutra, de quase relatório, conseguindo criar no leitor a atmosfera sobrenatural que seus temas exigem.

Explorando com técnica segura, num estilo todo pessoal, as várias possibilidades da narrativa fantástica, o nosso contista envereda pelo reino da metamorfose (distante do sentido da kafkiana...); dos símbolos; do enigma ou do surrealismo. Em todas essas direções, porém, ele não se afasta, em momento nenhum, da realidade cotidiana e dos gestos humanos mais comuns, infiltrando-lhes, ao mesmo tempo, uma dimensão inexplicável, irredutível ao comentário racional.
Imergindo na simbologia de “O Edifício” ou de “O Ex-Mágico da Taberna Minhota”; compartilhando do desespero agônico de Alexandre preso na “Armadilha” ou mergulhando na atmosfera kafkiana de “A cidade” e de “Os três Nomes de Godofredo”, o que nos fica, afinal, é a opressora consciência de que por trás das palavras, gestos ou acontecimentos mais comuns existe um mundo onde nada é certo, onde nada oferece uma base que sirva de apoio. E sobretudo sentimos a presença de um Autor, convencido da natureza incerta do universo e da precariedade da razão humana, na aferição da verdade das coisas. “O homem do boné cinzento”, “A cidade”, “Alfredo” ou “o Pirotécnico Zacarias”... são alguns dos contos que chegam a abalar em nós, leitores, a convicção de sermos seres absolutamente reais, e dão-nos o pressentimento de nossa muito plausível condição de criaturas irreais.

É principalmente nesses relatos que vemos transparecer o cetecismo fundamental que, indisfarçavelmente, alimenta os contos de Murilo Rubião. Cetecismo que brota de quem não crê na verdade aparente do mundo e das coisas; não crê na possibilidade de comunicação e amor entre os seres humanos ou não crê na possível realização integral do indivíduo. Daí o enigma, a impossibilidade de identificação pessoal (veja-se “A cidade”...), a metamorfose, a magia...
Tem-se a impressão de que, acossado por um mundo excessivamente real e lógico, porém despido de sentido, Murilo procura anulá-lo, criando dentro dele um mundo fantasmagórico ou mágico, cuja coerência e verossimilhança nos fazem duvidar, inconsciente e instintivamente, da realidade palpável que nos rodeia. Como não aceitar o gradual desaparecimento de Anatólio e de Artur frente ao olhar estarrecido do irmão e de nós, leitores? Como não crer na “verdade” do defunto Zacarias; na visita de Marina, a Intangível ou na dolorosa busca de Alfredo? Seria o mesmo que não acreditarmos na metamorfose de Sansa Gregor ou no processo contra K...

O leitor desprevenido poderá espantar-se, repetir a leitura ou deixar-se engolfar por ela; tudo depende do estado de espírito com que se lhe aproxime; apenas... não poderá ficar indiferente. Os tipos humanos que povoam o fantástico universo de Murilo não permitem a indiferença. Movendo-se na área da estrita realidade, a cada momento evadem-se dos quadros habituais e passam a viver numa zona limítrofe entre loucura e normalidade, revelando-se, em última análise, apenas tristes e solitárias criaturas que aceitam com humildade ou com revolta o Mistério do Ser; criaturas, acima de tudo, desgastadas pela imperiosa condenação à vida.

Apontamos neste sentimento de condenação ao viver eterno, o que essencialmente distancia as narrativas de Murilo Rubião da linha nitidamente kafkiana, isto é, dos ficcionistas que, partindo de um mundo familiar (que assume simultaneamente as dimensões de um pesadelo absurdo) desembocam na destruição total do homem, na sua anulação mais absoluta: única solução possível pra o absurdo vital que invadiu certo setor da consciência contemporânea. Nessa literatura tudo morre... tudo se destrói...

Estranhamente, sentimos confluir nos contos de Murilo Rubião posições de pensamento que parecem colidir: a aceitação da eternidade da vida, paralelamente à aceitação da dissolução da personalidade e da anulação do mundo real. Note-se que um dos elementos mais aflitivos, nos fantásticos sucessos registrados nesses relatos, é a evidência da continuidade do fenômeno em pauta. O conto acaba, mas persiste em nós a certeza de que aquele absurdo vai prosseguir indefinidamente, numa inexorável condenação. Note-se, por exemplo, o desespero agônico frente ao imperativo de viver, que está fixado em “O Edifício”.
Aliás, se tivermos o cuidado de examinar um por um os desenlaces dos contos, veremos que apenas cinco (entre vinte) terminam com a morte do protagonista e que, unida a ela, está sempre uma sensação de libertação, de poesia, de paz. (veja-se, por ex., “Teleco...” ou “A lua”...) Os outros todos sugerem uma repetição do fato central, “ad infinitum”. “Aqui ficaremos: um ano, dez, cem ou mil anos”: é a última frase de “A armadilha”, dando-nos a aterradora certeza de um encarceramento eterno. O conto, “O Edifício”, termina e também deixa-nos a visão daquela monstruosa construção condenada a crescer inexoravelmente até o final dos tempos: “E, risonhos, os obreiros retornavam a tarefas, enquanto o edifício continuava a ganhar altura.” (Note-se aqui, nesta última frase do conto, como a arte expressional do contista consegue intensificar a opressão da tragédia, através de um único adjetivo, “risonho”; condensando nele todo o drama da inconsciente ignorância com que voluntariamente nos entregamos a um destino absurdo e sem sentido).



A arte do conto de Murilo Rubião
Animais de estimação
As visões do invisível
Coisas Espantosas
Entre o humano e o animal
O Convidado
O Ex-Mágico
O fantástico em Murilo Rubião
O mágico desencantado ou as metamorfoses de Murilo
O Pirotécnico Zacarias
O sequestro da surpresa
Os dragões e ...
Os novos
Pirotécnico Santanna
Realidade, fantasia.
Romance daqui e dalhures
Um contista em face do sobrenatural
Visões da crítica
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