O mágico desencantado ou as metamorfoses de Murilo
Davi Arrigucci Júnior

A descoberta não me espantou e
tampouco me surpreendi ao retirar
do bolso o dono do restaurante.
Murilo Rubião – O Ex-Mágico da Taberna Minhota.


O palco da mágica

Ainda hoje, pouco se pode acrescentar à apreciação crítica formulada por Álvaro Lins, em 1948, estréia de Murilo Rubião . Numa leitura rigorosa e exata, o crítico reconhecia o talento e a originalidade desse contista mineiro no âmbito da literatura brasileira, mas apontava também as imperfeições que minavam a realização plena do escritor.

Do ponto de vista da originalidade, o juízo é facilmente verificável. Pensada contra o quadro geral de uma ficção lastreada sobretudo na observação e no documento, escassa em jogos de imaginação, a narrativa fantástica de Murilo surge duplamente insólita. Ao contrário do que se deu, por exemplo, na literatura hispano-americana, onde a narrativa fantástica de Borges, Cortázar, Felisberto Hernándes e tantos outros, encontrou uma forte tradição do gênero, desde as obras de Horácio Quiroga e Leopoldo Lugones ou mesmo antes, no Brasil ela foi sempre rara. Contam-se nos dedos os exemplos do tipo dos Demônios, de Aluísio de Azevedo, ou do Assombramento, de Afonso Arinos, ou ainda do conto propriamente estranho, como o Bugio Moqueado, de Monteiro Lobato. E todos eles estão muito longe da concepção moderna do fantástico. O vôo imaginativo do Modernismo voltou-se para outras direções, como se vê no Macunaíma e na prosa radical de Oswald. Somente com Guimarães Rosa se adensa a exploração do imaginário, mas também aqui numa dimensão diversa, de modo que, na verdade, se está diante de uma quase completa ausência de antecedentes brasileiros para o caso da ficção de Murilo, o que lhe dá a posição de precursor, em nosso meio, das sondagens do supra-real.

Mas, como observou ainda Álvaro Lins, independentemente de qualquer influência direta, a criação insólita de Murilo mantém, fora de nossos limites, um estreito parentesco com o mundo ficcional de Kafka, compartilhando com ele, pelo menos a construção lógica do absurdo. Num ensaio de Situations, I, em que elabora uma teoria do fantástico, Sartre mostra a desvantagem que leva, mesmo um escritor como Maurice Blanchot, quando comparado a Kafka . Sem fazer comparações massacrantes é, no entanto, precisamente a partir do paralelo com Kafka que Álvaro Lins começa a fazer objeções à arte de Murilo. Essas objeções podem ser traduzidas no que seria uma espécie de impotência da mágica do nosso artista, que não consegue realizar completamente a alquimia transfiguradora do real. Ou, nos termos do próprio crítico: “Entre os dois mundos, o real e o supra-real, ficou sempre, em O Ex-mágico, alguma coisa perturbando o estado emocional da ficção, de modo que permanecemos insatisfeitos quanto aos resultados, que, no caso, não devem ser apenas literários, também psicológicos e humanos, de modo geral” .

Ora, no conto “O Ex-mágico da taberna minhota”, um dos aspectos temáticos centrais é exatamente esse: o do sentimento de impotência que experimenta um mágico desencantado por “não ter realizado todo um mundo mágico”, antes de ter seus poderes emperrados pela burocracia. A objeção do crítico está contida no próprio texto; é tema da narrativa. Esta pode ser lida, então, como um discurso voltado também para o problema da sua própria estruturação, fazendo supor uma consciência lúcida quanto às dificuldades e, no limite, quanto à sua própria impotência para se realizar de forma completa. Contos como “Marina, a intangível” ou O Edifício demonstram que é freqüente em Murilo essa visão nítida das margens da aspiração criadora e, por isso mesmo, quando ele arrisca o salto, medindo a queda, toca, com a discrição de sua linguagem, uma das dimensões da modernidade literária. Essa vigilância crítica numa terra em que os contistas, sem qualquer mágica e sem perceber, se multiplicam como coelhos, tantas vezes tão esterilmente, resguarda, para além das deficiências, uma originalidade mais funda, que merece análise. Talvez aqui se ache o ponto de partida para uma releitura de Murilo Rubião e algo para acrescentar à visão do crítico que soube vê-lo tão cedo e com o olho agudo de mestre do ofício.


A multiplicação dos coelhos

A crítica de Álvaro Lins deixava à mostra o caráter tenaz das imperfeições de Murilo, que continuavam desafiando até mesmo uma busca acirrada da perfeição, como parecia ser daquele autor que havia reelaborado sem cessar os seus contos, antes de enfeixá-los no primeiro livro.

De lá para cá, o contista publicou pouco: A estrela vermelha, em 1953; Os dragões e outros contos, em 1965; algumas narrativas esparsas, em suplementos literários. E tem anunciado uma nova coletânea: O convidado. No conjunto dessa produção exígua, se percebe sempre a tendência para a reelaboração insistente dos mesmos contos, que vão e voltam em vários livros. De certa forma, Murilo continua refazendo-se, como se, para ele, escrever fosse fundamentalmente reescrever. As variantes estilísticas desse vaivém invariável poderiam interessar de imediato, se não fosse aqui mais importante o próprio ato de modificar, com que nele se identifica a operação de dar forma. Escassa e vigiada criticamente, a obra remói sobre si própria, multiplicando-se, ao mesmo tempo, se moderando: em suma, modificando-se, no sentido estrito do termo, que implica alteração e limite. O método de composição de Murilo parece envolver um paradoxo: estende o texto para restringi-lo; amplia-o para concentrá-lo. Assim, seu discurso narrativo muda de forma tenazmente, sem inventar nada de substancialmente novo, com relação ao ponto de partida. No extremo, a esterilidade ameaça roer suas modificações.

Uma rápida olhadela sobre os seus contos revelará que a modificação, ou seja, a metamorfose é também um dos temas obsessivos desse contista sempre insatisfeito. Na verdade, ela é, aqui, uma espécie de matriz temática onde se desenvolvem as diferentes transgressões características da literatura fantástica: as rupturas do princípio de causalidade, do tempo, do espaço, da dualidade entre sujeito e objeto, do próprio ser . Assim, em Teleco, o coelhinho, ela é vertiginosa e patética: o animalzinho vira tudo, assume até formas grotescas e terríveis, mas só consegue cumprir o seu desejo de se tornar homem, ao se transformar, por fim, numa criança morta. Ela é a multiplicação insatisfatória de mulheres e desencantos num conto bem realizado como Os três nomes de Godofredo. É “Alfredo” , a fera, o porco, o dromedário, o irmão dos olhos ternos e áspera língua que acompanha o vaivém de um narrador cansado. É ainda a transmutação policrômica de O pirotécnico Zacarias. Parece estar implicada até na onivoracidade de Bárbara, que tudo deseja e tudo incorpora, transformando-se, grotescamente, numa gorda monstruosa. Os exemplos também se multiplicam.

No conto O Edifício, torna-se quase ostensiva a identificação metafórica, latente em outros textos, entre o processo de estruturação da narrativa e a metamorfose. A construção infindável de um “absurdo arranha-céu”, a que sempre é possível acrescentar novos blocos, pode ser entendida também como uma alegoria da própria construção ficcional que se está lendo. O desenvolvimento do prédio é, até certa altura (do prédio e do conto), ameaçado pelos riscos de paralisação das obras, o que, implicitamente, representa ainda uma ameaça de detenção do relato, que acompanha a transformação do seu objeto, a ponto de ser construído pela junção de pequenos fragmentos unitários de texto. Passado o momento do perigo para o prosseguimento indefinido da construção, ocorre uma fantástica e irônica rebelião dos meios contra os fins (na qual Sartre vê a base do fantástico contemporâneo): o próprio engenheiro-construtor, vencido pelo tédio, já não consegue deter o processo; os operários se recusam a interromper o trabalho e chegam mesmo a acelerá-lo, ao ouvir as belas imagens dos discursos feitos para desanimá-los. O discurso ficcional também se coaduna com o princípio de construção do edifício: o conto, onde parece ecoar o mito do aprendiz de feiticeiro, permanece ironicamente aberto para um contar inacabável: enquanto o edifício ganhar altura. A invenção fantástica cria, assim, um movimento ininterrupto; em compensação, esse movimento é condição necessária do conto (de qualquer narrativa): se parassem as obras, se o edifício não se modificasse... A modificação burla o impasse.

Ora, o modificador por excelência é o feiticeiro, ou ainda, na sua versão circense, o mágico, senhor do poder de metamorfosear o mundo. O mágico não se move, como o mago propriamente dito, por uma ânsia de posse e domínio da realidade; ele é, antes de tudo, um hábil manobrador da ilusão, o mago degradado ao palco de espetáculos, poderoso bastante para se esquivar dos olhos atentos e encantar os homens. Mas, com eficácia, sua arte se rodeia ainda de ressonâncias fantásticas e fascinantes. Ilude os olhos e quebra a banalidade repetitiva da existência: da cartola, de repente, os coelhos e o espanto. O processo analógico que, na ficção de Murilo, vincula a estruturação da narrativa à transformação fantástica, parece culminar nessa figura do gerador do espanto. Pela metáfora – metamorfose literária por excelência -, o mágico se converte na própria imagem do artista.

Se, porém, como se vê em O Ex-mágico da taberna minhota, a mágica é compulsiva, o insólito se transforma, aos olhos do artista, no banal. O fantástico, se vira regra, também cansa: para o mágico, a contragosto, tirar coelhos do bolso sem parar é o tédio. Como o engenheiro-construtor de O Edifício -, ele já não pode deter o movimento que ele próprio gerou, e apenas lhe resta entediar-se. Quem, na aparência, tem poderes para modificar o mundo, só não tem o poder de sair dele: não tendo, misteriosamente, origem como os outros, tampouco tem fim: é puro vaivém, transformação inócua no circo de si mesmo. A sua rotina é tão absurda quanto o sem sentido da outra, simbolizada na petrificação da burocracia. Movendo-se sempre no círculo fechado do extraordinário, sem conseguir criar de fato todo um mundo mágico, esse mágico desencantado perdeu exatamente a capacidade para sentir o que deveria criar: o espanto.


O espanto congelado

Como em Kafka, o que primeiro pode espantar o leitor de Murilo é que suas personagens principais, a exemplo do ex-mágico, não se espantavam nunca, apesar do caráter insólito dos acontecimentos que vivem ou presenciam. A consideração natural de fatos sobrenaturais, essa espécie de paralisação da surpresa, certamente encontrará um eco oposto em quem lê desprevenido: o susto e, logo, a desconfiança de ser objeto de burla, vítima do ilusionismo do mágico. Ou então, o assombro será, como sempre, o começo da busca do sentido.

O primeiro impulso, facilitado pela transparência quase jornalística da linguagem, será, como em O Edifício, para uma leitura alegórica, um desdobramento do texto num conteúdo subjacente, que o transformará em mensagem parabólica, estimulada pelas constantes epígrafes bíblicas. Mas esse caminho não será o único dos caminhos, ou não levará senão ao tédio, como o do mágico para quem o insólito virou rotina. A insistência nele eliminará precisamente o estímulo da viagem, a presença desafiadora do fantástico, um imaginário que não se deixa traduzir, exigindo, pela sua ambigüidade, a deslocação inquisitiva e renovada do olhar.

É preciso ler literalmente, acatar as regras do jogo, fixando a atenção na própria construção do enredo. E, já que se parte do assombro e de Aristóteles, atentar para o próprio mythos, a fábula tramada numa totalidade coerente e significante, cuja vinculação com os arquétipos míticos é explicitada pelas epígrafes bíblicas. Que função terá o fantástico na constituição das fábulas de um mágico roído pela rotina do desencanto?

O fantástico, como tudo, se rotiniza. Mas, sem ele, como inventar? Como, sem romper o ramerrão com a modificação inesperada, fazer fluir a fábula? A arte do mágico parece ser a de esconjurar a esterilidade sem sentido do mundo e propiciar a germinação do conto. O seu discurso, em que o desejo parece ter livre passagem, vencidos os obstáculos pelas modificações fantásticas, realiza uma trajetória abstrata e desligada das obrigações da verossimilhança realista. Próximo do mito, a sua transformação constante instaura o reino insólito onde tudo pode acontecer, mesmo as coisas mais absurdas. Em Marina, a Intangível, o escritor, após fechar a Bíblia, repertório inesgotável de todos os argumentos, se vê paralisado diante da folha em branco. E, então: “Para vencer a minha esterilidade, arremeti-me com fúria sobre o papel, disposto a escrever uma história, mesmo que fosse a mais absurda já imaginada por alguém”. O conto absurdo que se acaba lendo torna-se o sucedâneo de outro, que permanece intangível. As modificações fantásticas tornam-se peripécias estratégicas, malabarismos, prestidigitações, enfim, espanto para o leitor. O conto, mediante a pirotecnia, é resgatado da paralisia do branco: desdobra-se no devaneio do arco-íris. Está pronto para ser re-escrito.


Leia, a seguir, carta de Murilo Rubião a Jiro, em que o escritor comenta o prefácio de Davi Arrigucci para o seu livro.
Belo Horizonte, 31/03/74.


Meu caro Jiro ,
Espero que tenha chegado às suas mãos Os Dragões e A cidade.
Gostei do trabalho de Davi Arrigucci Júnior. É válido como análise crítica, mas tenho dúvidas se funcionará como prefácio. De qualquer maneira, sendo um trabalho sério, penso que não ficará mal como apresentação do livro.
Tenho várias considerações a fazer sobre o assunto, inclusive restrições ao artigo de Álvaro Lins, posteriormente transformado em capítulo de “Os mortos de Sobrecasaca.” Também sobre as influências que recebi de E. Von Chamisso (“O homem que perdeu a sombra”), da mitologia grega (Proteu) e das histórias de fadas. Mas é assunto para carta longa, que escreverei ao Davi Arrigucci.
Um abraço afetuoso do Murilo


Junto seguem algumas modificações a serem feitas em “A armadilha”



A arte do conto de Murilo Rubião
Animais de estimação
As visões do invisível
Coisas Espantosas
Entre o humano e o animal
O Convidado
O Ex-Mágico
O fantástico em Murilo Rubião
O mágico desencantado ou as metamorfoses de Murilo
O Pirotécnico Zacarias
O sequestro da surpresa
Os dragões e ...
Os novos
Pirotécnico Santanna
Realidade, fantasia.
Romance daqui e dalhures
Um contista em face do sobrenatural
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