A arte do conto de Murilo Rubião
Fábio Lucas

O Estado de São Paulo, 21 de agosto de 1983

Fábio Lucas faz aqui uma análise da obra de Murilo Rubião. Para ele, o autor de “O Convidado” denuncia a farsa da burocracia e mostra a fragilidade do poder inautêntico.


O recente lançamento da 3ª edição de O Convidado (S. Paulo, Ed. Ática, 1983) convida a nova reflexão sobre os processos narrativos do contista mineiro, assim como a um rebuscamento de seus veios temáticos. Apesar da variada bibliografia acerca da prosa de Murilo Rubião, muitos recantos permanecem não visitados.

Jorge Schwartz, um dos mais autorizados intérpretes da obra do autor de O Convidado, devassou com método e acuidade as principais riquezas em Murilo Rubião: A Poética do Uroboro (S. Paulo, Ed. Ática, 1981), mas recusou-se a levar sua investigação até a área psicanalítica, talvez receoso de incorrer nas simplificações e automatismos que a moda da interpretação psicanalítica tem suscitado.

Foi pena, pois o analista, altamente capacitado, deixa entrever o tecido inconsciente da ficção de Murilo Rubião, embora não tenha desejado radicalizar conclusões.

O inesperado da linha narrativa do autor de O Ex-Mágico (Rio, Universal, 1947), solitária experiência no após-guerra, encaminhou a crítica a aplicar-lhe designativos já gastos, que acabam por não determinar exatamente a natureza de seu relato. Assim, falou-se do uso do “imaginário” por parte do contista, de seu desvio da prosa realista, do “fantástico”, do “sobrenatural” e do “maravilhoso”, etiquetas aplicadas a uma família muito grande de ficcionistas contemporâneos.

O leitor habitual dos contos de Murilo Rubião percebe certo descompromisso com a causalidade espaço/temporal da tradição novelesca. Acontecem prodígios na fabulação dos episódios. Mas, perante o estatuto da ficção, estabelece-se um convênio entre o escritor e o leitor, pois este haverá sempre de creditar uma dose de credibilidade ao que se narra. Desde Homero até os Surrealistas, estamos condicionados a aceitar as fantasias na escala do possível. Caso contrário, toda ficção significaria um relatório.

Ora, para que se realize a esfera narrativa, é necessário que o leitor entre na jogada do narrador, adira à lógica proposta pelo texto, concorde com a instância fantasiosa e faça da crença um compromisso de apreensão da atmosfera ficta.

Ademais, ao expor a trajetória de suas personagens, Murilo Rubião administra um campo de estranhamento que tem algo com a paisagem onírica, algo elaborado no interior de um sonho. Quer isto dizer que as funções oníricas de deslocamento e de condensação habitam o espaço altamente aglutinado de símbolos. Por entre as frestas desta nova lógica – a lógica da descontinuidade racional – se revelam espessas propriedades inconscientes.
Quando se menciona o fantástico ou o maravilhoso, pressupõe-se a libertação ilimitada da imaginação, numa gratuita expansão criativa. Mas os desmandos da fantasia em Murilo Rubião mostram-se contidos por dois limites: a função do consciente e a força do fator social. Daí o caráter dramático dos contos.
A cada momento, o leitor se defronta com o alargamento da fantasia imaginária, como, por exemplo: “Pelos meus olhos entravam estrelas, luzes cujas cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esferas de marfim, rosas negras, cravos em forma de lírios, lírios transformados em mãos”.” (cf. “O Pirotécnico Zacarias”, em O Pirotécnico Zacarias, S. Paulo, Ed. Ática, 1976, p. 18).

Já se estudaram, no contista, o zoomorfismo, o cromatismo, inúmeras aparências de metamorfose. Mas está por se catalogar o uso persistente de cláusulas restritivas com que o poder do mágico é contido. E é por essa circunstância que a ficção de Murilo Rubião deixa de se categorizar como o uso gratuito do devaneio, uma articulação de quimeras. É por aquela via que penetra na sua descrição do maravilhoso o lado contingente das personagens, sua mundidade, seu realismo terrenal, sua limitação temporal.

Dá-se, então, o ingresso do estranho dentro do estranho. Apenas para ilustrar, invoquemos o conto “Os Comensais”, de O Convidado. A personagem, Jadon, intriga-se com os companheiros de refeição num restaurante: todos sempre se encontravam no mesmo lugar, indiferentes à comida servida. Novos mistérios vão sendo observados pela personagem atônita. A repetição do cenário, a multiplicação dos convivas, seu alheiamento de tudo. “Após essa experiência” – diz o conto -, “seguiu-se um período em que Jadon desistiu de penetrar na intimidade daqueles cavalheiros taciturnos que, apesar de manifestarem evidente desinteresse pelos alimentos, apresentavam-se saudáveis e tranqüilos”.

Depois de assinalarmos que Jadon “desistiu de penetrar na intimidade daqueles cavalheiros” e que, “apesar de”, etc, aparece adiante que “algo de anormal o surpreendeu: em sítios diversos, encontravam-se pessoas cujas fisionomias lhe eram inteiramente estranhas”. Colecionamos, então, “algo de anormal” e “fisionomias estranhas”. Passamos, a seguir, a “à medida que aumentava a sua perplexidade” (...) “do seu íntimo emergia a desconfiança de que tudo aquilo poderia ser peoposito”, um recurso para “quebrar-lhe a resistência pelo mistério”. E a personagem, já revoltada, sente que “na ocupação das mesas havia uma fraude a ser desmoralizada”.

Outras formas intensificadoras da perplexidade vão-se acumulando na consciência da personagem, já em estado de indignação. É sobre isto que gostaríamos de chamar a atenção: o choque, dentro do próprio quadro ficcional, do raro e do grotesco contra aquilo que, sendo igualmente extraordinário, se manifesta como o normal.

“Os Comensais”, na verdade, desenvolve uma fábula sedutora: o processo compulsório de sociabilização da personagem, de seu ingresso entre os convivas, todos distantes e alheios. E, afinal, quando Jadon tenta regressar ao refeitório, aí, então, é que se depara com o salão vazio, isto é, com a sua mais completa solidão. Havia regressado aos 20 anos.

Jorge Schwartz observa, pertinentemente, a esterilidade das personagens do contista, seu relacionamento infecundo. Carregadas de atributos quantitativos, permanecem sem evidenciação de seus traços psicológicos.

Quer parecer que o fantástico em Murilo Rubião nada tem de encantatório, pois, como vimos, submete-se a cláusulas restritivas. E o maravilhoso, considerado como monopólio do sobrenatural, é contido na sua função hipnótica por uma substancial camada ideológica. Em todas as circunstâncias, o exercício dos poderes mágicos é limitado. Por isto, surpreendemos sempre no contista mineiro a tensão entre o prodígio e a frustração, entre a transcendência e a contingência, e, às vezes, entre a onipotência e a mera impotência.

O próprio conto “O Ex-mágico da Taberna Minhota”, um clássico de Murilo Rubião, ilustra o encontro de duas culturas: aquela em que tudo é possível e a outra, na qual nada é permitido.

Na verdade, não podemos descartar, na interpretação do contista, a herança surreal, não de todo explorada. Condimentada, é verdade, pelo veio satírico de Machado de Assis e seus ácidos comentários ao poder dos impotentes. Sente-se, no jogo muriliano, um antagonismo entre metamorfose e conservação. E, também, não devidamente explorado pela crítica, um jogo espirituoso entre cultura e natureza.

Apontamos acima os fatores de moderação do surto da visão imaginativa. Há, em Murilo Rubião, um florescimento de signos recorrentes que talvez sejam indicadores de tendências ocultas e irreveladas.

Na primeira camada de significados, o erotismo, por exemplo, mal se divisa. Mas se insinua atrás de uma cortina de símbolos. Que poder de sugestões o contista extrai, por exemplo, da flor com as suas pétalas (às vezes metonimicamente jungidas ao sintagma “ferida”), especificamente do girassol, que acaba por configurar no título de um conto e de uma coleção, agora apresentado iconicamente na capa, em vibrante vermelho. Como a estrela vermelha do conto “Bruma”.

Nas relações domésticas das personagens, poderíamos falar de uma estética do interdito, tais as formas latentes de incesto que se manifestam em proibições ou tais os impulsos amorosos reduzidos pela incompletude da realização do desejo.


O homem não se livra de seu passado

É recorrente na ficção de Murilo Rubião o confronto entre irmãos. E as irmãs adotivas se tornam apetecidas: Bruma, Dora... Ao mesmo tempo, nota-se uma rebelião constante contra a figura paterna: “A Casa do Girassol Vermelho” e “O Bloqueio”. Em “Petúnia”, a personagem é condenada a cuidar da memória das entidades mortas: as filhas, a mulher, a sogra. O homem não se livra de seu passado. No outro, “A Casa do Girassol Vermelho”, a figura do pai encarna-se no velho Simeão: “Pisávamos na memória do velho Simeão, escarrando no passado” (A Casa do Girassol Vermelho, S. Paulo, Ed. Ática, 1978, p. 14).
Loucos, mentecaptos, clientes de consultórios psiquiátricos abundam na ficção do contista. A chave do interdito nem sempre se revela expressamente, antes se desnunda por detrás dos símbolos. Que é “Bárbara” se não é retrato do desejo contido?


A veia humorística do escritor

Sintomático é o conto “O Lobo”: sátira à clínica psiquiátrica, sonho premonitório, a presença da irmã, que se acompanha de “um menino com a aparência de retardado mental”. Este, denominado Zeus, é ainda tratado como “debilóide”, “mentecapto”, fazendo “cara de idiota”. A personagem não consegue livrar-se nem do médico, nem do sonho, nem da irmã, nem do mentecapto. E, na extrema enfermidade, moribundo, quando o bisturi limpa as pétalas de sua ferida, “esboçava imperceptível gesto de asco”.

Curioso o diagnóstico do médico, no início da narrativa: “E, repreensivo, assegurou que o paciente carregava dentro de si imenso lodaçal. Exigia que falasse da infância, do relacionamento com os pais”.
Os quatro primeiros contos de O convidado – “O Convidado”, “A Fila”, “Epidólia” e “Botão-de-Rosa” – podem classificar-se como variantes de um desejo irrealizado. Assim como “A Casa do Girassol Vermelho”, “Bruma” e “Alfredo” disfarçam um confronto entre irmãos, no volume A Casa do Girassol Vermelho.

O solo do incesto e das punições é imenso na ficção de Murilo Rubião. A recorrência simbólica é facilmente assinalável. Mas a sondagem de valores inconscientes não esgota o significado dos contos. Deve-se considerar também a crítica às pressões sociais, principalmente às práticas que se tornaram rotina. A burocracia é um dos alvos prediletos do escritor.

Por isto, ele extrai certo humor amargo da mecanização dos atos humanos. É o caso de “A Fila”. A repetição está gravada quer na construção – “O Edifício”, por exemplo -, quer na destruição – veja-se “O Bloqueio”; ou, mesmo, no mero ato da reprodução, como em “Botão-de-Rosa” e “Aglaia”.
Cremos não se ter investigado devidamente este lado machadiano, ou bem mineiro, de Murilo Rubião: o gosto da ironia. Um capítulo à parte deveria ser destinado às revelações onomásticas. Como, então, chamar de Zeus a um pequeno mentecapto? Como denominar dr. Pink (pink, o correspondente, em inglês, a “cor-de-rosa”) a um analista argentário? Por detrás da transparência de alguns nomes da mitologia greco-latina, ainda resta uma camada de grotesco como propósito satírico. No conto “Botão-de-Rosa”, além da personagem-título, acusada de engravidar “meninas de oito anos e matronas de oitenta anos”, temos os seus companheiros do conjunto de guitarras: Molinete, Zelote, Judô, Pedro Taguatinga, Simonete, Bacamarte, André-Tripa-Miúda, Íon, Mataqueus, Pisca, Filipeto e Bartô. Não haveria uma galhofa mordaz no apelativo de muitos protagonistas dos contos?

A veia humorística se prova em inúmeras fantasias do escritor. E há todo um jogo na organização de suas coletâneas de contos, desde 1947. O contínuo reordenamento não fará parte de uma função lúdica?

Por fim, mencionemos, na ficção de Murilo Rubião, um dado bastante explícito, que já atraiu alguns analistas, especialmente Jorge Schwartz: o uso invariável de epígrafes buscadas à Bíblia.

Nota-se na coletânea O Convidado o teor profético delas, mas de um profetismo em que predomina a negatividade.

Que vem a ser a profecia? A desautorização do mistério futuro, a claridade para os dias de hoje, algo que somente pertence aos deuses. Elas não se cumprem literalmente na ficção de Murilo Rubião. Daí a tensão que se tira entre o prometido e o outorgado. Toda dramaticidade do contista provém da negação das promessas. Cada personagem se atira no palco dos acontecimentos carregada de alternativas. E geralmente dele sai sem opção alguma. Ou melhor: com uma única alternativa, subjugado por forças que o limitam e cativam. De determinante, a personagem passa a determinada. A crítica de Murilo Rubião é uma crítica do superego. Ele vê fundo a farsa da burocracia e do poder inautêntico.



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