Várias

Otto Lara Resende

Rio, 30 de setembro de 1948.
Murilo amigo: Há vários dias estou para lhe escrever. Mas você não imagina por quantas complicações tem passado este pobre. Andei caningado, mais que nunca, com embaraços por todas as latitudes. Agora, estou repondo as coisas nos lugares, já não tenho o rosto inchado, paguei uma letra no Banco, fiquei noivo, as coisas vão indo. Ainda há o que fazer, muito, mas esperemos em Deus. Por tudo isso, tenho andado sumido. Não escrevo cartas, gênero a que fui outrora dedicado. Meus correspondentes desapareceram, ninguém me responde, grito, não há nem eco. Você é o único mineiro fiel, o único cristão dessas montanhas que estrangulam a alma dessa gente mesquinha e fria, de coração de pedra num peito de gelo. Você pulsa, pulsa de tristeza e desamparo, dói em mim, você me dói, meu velho Murilo, mas ainda bem. – Disse aquele dia pelo telefone, da casa do Fernando, que tinha recebido os contos e gostado. Gostei mesmo. Estava esperando oportunidade de poder escrever-lhe com calma, dizendo o que acho. Não sei se posso fazer agora, pois já é muito tarde e tenho de levantar cedinho amanhã. Agora, me deito sempre antes de meia-noite, às 11 em geral, e me levanto no máximo às oito. Em geral, não tenho nada para fazer assim tão cedo, tão de madrugada. Mas me levanto. Estou me dando bem com o novo regime. Deixei de fumar há já um mês, parei de ter dor de cabeça. Durmo bem e não bebo (nunca fui disso, veja lá). Pode ser que tudo aconteça de novo, mas até aqui estou indo muito bem. Só não me curei do hábito de ficar matutando e ir entristecendo, entristecendo, lenta, lentamente, doce-docemente, até sangrar de dúvida e tristeza, até duvidar da minha própria existência. Ainda hoje foi assim, bem que o meu dia astrológico me previa contrariedades. Estou numa profunda depressão, me dá um infantilismo retrógrado, me sinto um bebê, um menino, uma vontade de ficar protegido, embalado, acarinhado, fora do mundo, longe de tudo, confiando em alguma coisa frágil, mas poderosíssima, como mãe de menino, ou mesmo uma coisa mesmo, coisa-coisa, um ruidinho de cadeira, um pé de mesa, uma certa sombra de copa familiar. Ah, mundo sem refúgios, mundo cruel e frio, mundo estúpido e besta. Como lhe dizia, não sei se posso escrever agora o que estou precisando de lhe dizer. Procuro suas duas últimas cartas, uma recebi ontem. A primeira me comunica o nascimento de “A Estrela Vermelha”, ótimo. Bom título, muito bom, pena é que se possa (ainda há muitos burros no planeta) pensar num longínquo sentido político, sugestão da cor e do astro. Quantos contos você já tem? Muito obrigado pela comunicação de que estarei na dedicatória, você ainda é um homem de amigos, Deo Gratias. Mas não creia muito neles. – Quanto à sua transferência para esta metrópole, só posso vê-la como muito boa medida. Evidentemente, esse é um problema que deve caber numa equação pessoal, variável sempre de acordo com a pessoa, solucionada, pois, individualmente. Para mim, foi ótima a mudança. (Depois que escrevi, me perguntei, quase ao mesmo tempo: foi mesmo?) Mudar é muito bom. A gente arrasta para estas praias o cadáver mineiro e continua vivendo aqui, como aí, só que em outros quadros, quase sempre com mais movimento e mais sol, mais janelas, mais luz. Essencialmente, porém, se realmente se tem uma essência, não se modifica em nada. Nem nada passa. Nada passa, aliás, de maneira alguma. Tudo permanece. Pela vida afora, vamos amarrando cadáveres a nós mesmos, criando monstros a leite. Chegará o dia de sermos devorados. Adiamos essa devora com o vômito literário. Escrevemos para não sermos devorados. (Alguém deve ter dito isso, mas é meu). Você, se realmente está disposto a abandonar B. Hte., deveria tentar uma experiência no Rio. Se você for à França, creio que essa viagem facilitará tudo, pois ajudará a cortar certas amarras, que são difíceis de serem desligadas. B. Horizonte tem um visgo. Comigo, pelo menos, era assim: me apaixonava por um raiozinho de sol, um ventinho da avenida João Pinheiro, uma cicatriz num banco da Praça da Liberdade, pela folhas secas da rua Alagoas, por umas iniciais na calçada da rua Sergipe, pela paz de certo quarteirão espichado ao sol de três horas da tarde, com o preguiçoso cocó-ri-có de uma galinha mineiríssima. Tudo são motivos para não mudar porque tudo são motivos de amor. Mas a gente muda e passa a amar outras coisas, sem esquecer as antigas. Eu sou assim, amo num vasto diâmetro em torno a mim. Metam-me no Sahara e amarei quinhentos quilômetros de areia, na mais pura e ardente das paixões. – Sua segunda carta é a cartilha da tristeza. Me preocupa. Meu caro, reforme o chapéu, ponha-lhe pano, não o poupe, arranje-lhe dono e faça a chuva. Quanto à ausência dos amigos, é isto mesmo: quando precisamos muito deles, eles não existem. Não é por ingratidão deles, não; talvez não seja. É por fatalidade, por destino.- Duro ofício, este de viver. Vivo a dizer que não me sinto apto para ele, que o ignoro, que não sei por onde começar. Quanto a mim, minha verdadeira vocação é a morte. Nascemos é mesmo para morrer, com este disfarce que é a vida de permeio. Não sei, mas não creio em soluções. Desamparo não tem cura, tem paliativos. Buscar relações, ligar-se às coisas, amar burramente uma vassoura, apaixonar-se doidamente por um tapete, morrer por uma coleção de selos, enlouquecer de amor por uma avenca. Esquecer-se um pouco, anestesiar tanto quanto possível o sentimento, a sensação, o ponta-pé da existência, da vivência. Sair de si mesmo, expulso se for preciso, como se expulsa um cão leproso e repugnante, senão a gente morre de mastigar a própria consciência, nessa auto-devoração amarga e miúda. Por tendência, sou um ruminante de mim mesmo. Precisamos provocar, ajudar a hemoptise, vomitar um pouco de nossa alma ( e não comer o vômito, como um cão humilhado). Estoy cansado de ser hombre. Quando me perguntam quantos anos tenho, deveria responder: - Tenho vinte e seis anos de erros. Só há um caminho na vida, o caminho que perfazemos palmo a palmo, morosamente, enervantemente. É inútil buscar atalhos ( ilusões), somos repostos violentamente sobre nossa via-crucis individual. E estamos sós, pavorosamente sós, nessa marcha medonha para o grande espetáculo, a grande peça, a imensa representação, a fabulosa revista teatral que será o Juízo final. – Perdoe toda essa conversa imprópria. Se não tenho mão em mim, descambo para abismos insuspeitados. – Li “Dom José não era” várias vezes. Desde uma vez que estive aí em Belo Horizonte, se não me engano quando saiu publicado no “Estado”. Gosto do conto, mas quase sempre, quando medito nele, acho-o um tanto esquemático, feito de mosaicos literários, pequenos flagrantes. Não detenho de todo uma certa antipatia que nutro, não estou certo se com razão, pela interrogação. Dom José não era está cheio de interrogações, de frases curtas, num estilo elíptico, tão diferente do seu estilo, que é bíblico, narrativo, tranqüilo, largo. O fôlego de Dom José não era é outro, sincopado, a-rítmico, esburacado. Apesar de tudo, não consigo dizer que não gosto do conto, pois gosto realmente. Acho nele coisas muito boas e interpreto, para mim mesmo, como uma sátira aos julgamentos humanos. É um conto-parábola sobre a justiça dos homens, os seus juízos e avaliações. Dom José amava o povo. Grande figura, a desse falso nobre espanhol, enigmático e mal julgado suicida Danilo José Rodrigues. Não lhe faltou, mais tarde, depois que tudo era inapelável, a ironia de uma estátua. – “Os dragões” me recolocam no seu ritmo, me embalam. Desde a primeira frase, me embalo na narrativa, feita no tom sereno das coisas normais de todo dia, com palavras familiares próprias para contar um caso ao almoço, e no entanto contendo, enredado em seu mágico poder renascido, o espanto das coisas absurdas. A gente acredita na história dos dragões, porque ela nos é narrada num tom de verossimilhança. Não vejo nesse conto nada de mais, nada fora do lugar. Desconfio apenas que dos dois dragões, Odorico e João (nomes excelentes), um poderia ter destino diferente, o último, João, para evitar que ambos desaparecessem. Talvez seja besteira, pode ser que o desaparecimento seja o melhor, mas pode sugerir pequena lacuna na imaginação. Mas não tem importância. “Somente os meninos, que brincavam fortivamente [sic] com os nossos hóspedes, acreditavam serem eles simplesmente dragões. Todavia, não foram ouvidas as criancinhas”. É formidável. Notável o tom do narrador, narrador que é de uma sensatez insensatíssima. “São dragões”, é ele que bota as coisas nos lugares, mas logo descamba para o fantástico quando trata de educar os dragões, seres fantásticos colocados numa atmosfera de cotidiano, absurdo encravado no vulgar e no possível. “Os dragões” retorce a gente por dentro, machuca, endoidece. Acho que você não deve cortar aquela pretensão que foi inculcada a João, maliciosamente: a de ser eleito prefeito municipal. Acho muito bom isso e realça os contornos do conto, que se fundamenta exatamente nessa aliança do absurdo com o vulgar. – “A lua” é surpreendente. É incrível como você, com três páginas, consegue comunicar a sensação de existência de um personagem, Cris. Estilisticamente muito bem feito. O conto é hermético, duro, sem pega, redondo, fechado em si mesmo, de difícil acesso, inabordável. É o que está escrito, é o que é. No fim, o assassínio é uma beleza, com a lua nascendo do corpo magro de Cris. A prostituta em pranto, e depois o surpreendente sorriso de massa, que emprestam um súbito sentido, uma importância antes insuspeitada, à boneca vista na vitrine do subúrbio. “Um rosto de criança. Os olhos azuis, o sorriso de massa”. Não há explicações, não há facilidades: o conto é completo, encerrado, inabordável, como disse. Deixa um sentimento de mal estar. Imagino comigo que foi assassinado um inocente, mas o assassino estava escravizado a ele, à sua rotina, aos seus passeios: tinha que matá-lo para romper. Devia amá-lo, certamente, com o rosto de criança e os olhos azuis. E o sorriso de massa, traço que desumaniza Cris e o aproxima violentamente de uma boneca. – “A cobra de vidro” tem achados, mas não acertei ainda com a sua unidade ( mesmo interior). É um sonho, a volta de Marialice. O “Oh meu general russo!” acho uma delícia, assim sem qualquer explicação. É um conto que exige esforço do leitor. Se a gente não lê com atenção, não percebe que o personagem tem um olho inutilizado, não liga as coisas. E é amargo (como quase todos). Acho que sei o que me desagrada nesse conto: é que não é propriamente um conto, mas um episódio, um capítulo ( de novela, de romance). Marialice desaparece muito depressa. Os trilhos paralelos condenando à solidão, como este há outros achados. – “A estrela vermelha” é positivamente o melhor, o mais rico de sentido. Godofredo ama Bruma (Bruma é Dora, para a mãe, para o que a ama é Bruma, nome nada prosaico feito Dora, antes poético a valer). Para tomá-la ao irmão, vai provar que está louco. Não corte “Os olhos vagos, distantes, como se dirigisse as palavras aos campos, ou aos animais, pastando ao longe”. Acho muito bom. Og vê astros, de todas as cores. É um poeta, é um amante. Godofredo, não. Mas é ele que acaba sendo o louco e o anormal, o que não via estrelas. Via, entendia de porcos. É um belo conto, onde reencontro o Murilo Rubião de “O ex-mágico”. Godofredo embalde tentaria recuperar os dias da infância. Depois que chorou longamente, porém, prestes a findar a tarde, uma enorme estrela vermelha se levanta diante dele e, pouco a pouco, se desdobra em cores. Todas as cores – como finaliza o conto, carregado de poesia, defesa da poesia, de sentido, ligado, como outros, à fonte bíblica. – Velho Murilo, está tardíssimo, não posso continuar nesta tentativa de lhe dizer sobre os contos que você me mandou tudo o que seria preciso dizer. Estou cansado, muito cansado, com sono, com pouca vontade de bater à máquina. Desculpe o desalinho desta carta. Vai nela, porém, o melhor de meu interesse pela sua obra literária e o calor de minha amizade. Escrevi muito ( cinco páginas!), mas me sinto insatisfeito, sem ter dito até a ponta o que seria necessário. Talvez não convenha dizer tudo ( não em relação aos contos, ou a você, mas a mim, a estados de espíritos meus – entenda-se). B. Hte, como vai? Hélio (este ingratíssimo) me mandou um poema para publicar. Saí do O Jornal, desde duas semanas. Publiquei dele dois sonetos, sem que m’os mandasse, tinha-os. Li dele de novo os Sonetos e Canções. Teria muito que dizer para provar que não gosto. Marco dá sinal de vida? Amílcar? E os outros? Murilo velho, o abraço de sempre.

Otto


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