Várias

Hélio Pelegrino

Rio, 19.7.65

Murilo, meu velho,

Foi uma alegria receber o seu livro. Lembrava-me bem dos contos, mas o curioso é que a releitura teve para mim o sabor de uma descoberta. Não fiz o cotejo entre a velha e a nova forma, mas tive a impressão de que você enxugou as estórias, caprichou ainda mais no estilo, deu-lhe um vigor exemplar.
Seu livro, Murilo, mostra que você continua fiel à criança eterna que dorme no fundo de cada um de nós. Essa criança é a guardiã da poesia, de tudo aquilo que é o sal da terra e impede que o mundo apodreça. Não há dúvida de que, em seus contos, a criança freqüentemente soluça. Lá está ela, porém, ferida embora, maltratada às vezes, ignorada pela cegueira dos que não podem compreendê-la, mas indomável, invencível, presente e verde como essas pequenas plantas que brotam dos penhascos adustos – e os enchem de mistério e de graça.
Seus contos me lembram Chagall, com mais sofrimento. O lirismo é o mesmo, a mesma liberdade, a procura de uma ordem através do milagre. Pois só o milagre é ordem, só a poesia é ordem, só a criança tem razão.
Muito grato pelo envio do livro. Me lembrei tanto de você, dos tempos antigos, de sua bondade fraterna, da solidariedade discreta e cálida com que você soube cuidar da loucura de nossos vinte anos. Acho imprescindível que você nos dê outros livros, outras histórias. Você, literariamente, está tinindo de maduro. É impressionante como você conseguiu aperfeiçoar ainda mais contos já tão definitivos. Em frente, Rubião dos caminhos.
Abraço irmão do seu

Hélio


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