Murilo Rubião

Carta 3

Belo Horizonte, 17 dez. 1943

Mário de Andrade,

Junto a esta, segue o meu último conto – “Marina, a inatingível”. Desejava muito a sua opinião sobre ele, pois é o primeiro trabalho que consigo realizar, depois de uma inatividade forçada de cinco meses. Andei com a vida complicada e embaraçado pela complicação de outras vidas. Primeiro, foi a debandada geral do corpo de redatores da Folha de Minas. O jornal ficou entregue a um diretor, neófito e bisonho, a mim e a dois companheiros mais experimentados. Foi uma luta titânica de dois meses. Em seguida, operação de rins de meu pai. Tive que, além de minhas atribuições no jornal, arcar com o trabalho de meu progenitor. Era aula de manhã à tarde. E matérias as mais diversas e cacetes. Uma luta terrível para preparar aulas e não menor para ministrá-las. Por fim, tudo serenado, de malas prontas para o Rio, onde iria trabalhar, a convite da Sombra , fui obrigado a aceitar a direção da emissora oficial do meu Estado. Digo obrigado, porque o Rio me oferecia mais vantagens. Ser diretor de uma estação de rádio é dos piores ofícios que o homem já inventou. E dirigir a Rádio Inconfidência, é qualquer coisa parecida com o mais engenhoso suplício chinês.
Contudo, a minha vida vai se normalizando e eu já estou me habituando ao novo emprego, que me rende, diariamente, 12 horas de preocupações e tédio.
Mário: a sua opinião sobre o conto que lhe envio, muito me ajudará. Os amigos de cá (Hélio, Otto, Jair , etc) gostaram. Mas não posso confiar neles. São mais amigos do que críticos. Muito mais. O Fernando disse-me, logo após ter regressado de São Paulo, que você desejava muito falar comigo. E mostrar-me os incríveis defeitos que tenho. Pode estar certo, Mário de Andrade, que os seus conselhos poderão ser decisivos para a minha arte. Tenho caminhado muito, dado socos, pontapés e trabalho desordenadamente. E, quase sempre, depois de árdua luta, fico sem saber se avancei ao menos uns poucos passos. Isto, porque caminho, aos trambolhões, sem noção do que estou fazendo. Infelizmente, não gosto de fazer outra coisa senão literatura. E não faço, exclusivamente, para mim ou porque deseje fazê-la.
A sua ajuda me será muito preciosa, torno a repetir. E sei que você me ajudará.
Um grande abraço do

Murilo Rubião



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