Murilo Rubião

Carta 2

Belo Horizonte, 23 de julho de 1943

Mário de Andrade

Não lhe desejava escrever enquanto não terminasse uns contos que ando escrevendo. Isto porque tenho horror aos que cultivam correspondência de cortesia. Gosto de escrever quanto sinto necessidade de dizer alguma coisa, ou tenho alguma coisa para dizer. Todavia, ainda não cheguei a realizar nenhum deles (essa minha maldita imaginação que trabalha muito mais rápida que a minha pena!). E eu sinto necessidade de contar para alguém uma porção de coisas que se amontoam, confusas, dentro de mim.
Primeiro, a sua carta. Aceitei, inteiramente, as suas restrições e desejo justificar, com você, os meus defeitos e erros. E desejo fazê-lo, boníssimo Mário de Andrade, sabendo bem que não interessa a ninguém as razões por que um escritor, tendo recursos para fazer uma coisa boa, estraga os seus temas. Ainda não consegui, após cinco anos de uma luta feroz com a literatura de ficção, realizar um conto definitivo. Para fazer um livro de contos ( O dono do arco-íris, que terminei o mês passado e está agora com Marques Rebelo), tive de lhe escrever trabalhos que davam para três volumes ou mais. Foi uma luta tremenda, que me consumiu energias, pranto e desespero. Cada linha escrita correspondia a horas de desânimo, de revolta contra a minha dificuldade de escrever. E para quê? Depois de toda essa luta tenho, nas mãos, uma pobre e mesquinha obra, que não vale um simples e desinteressado olhar de qualquer dessas belas mulheres que me poderiam amar. E que não me amam. (Também, graças a Deus, os meus sofrimentos não são de ordem sentimental).
Infelizmente, escrever é para mim a pior das torturas. Uma simples carta, como esta, me custa sangue, suor e um sacrifício imenso. Arranco, de dentro de mim, as palavras a poder de força e alicates. Por outro lado, a minha imaginação é fácil, estranhamente fácil. Construo meus “casos” em poucos segundos. E levo meses para transformá-los em obras literárias. Daí os meus defeitos. Achando facilidade em inventar e dificuldade em escrever, cuido quase que exclusivamente da última. Mas, agora, sinto que o meu instrumento está melhorando e que já posso cuidar melhor da “invenção”.
Com o “Pirotécnico” não aconteceu somente isso, não foi somente a dificuldade de escrever. Quando chegou no ponto que a personagem defunto “volta à vida”, senti que o conto tinha morrido. Não tive mais forças e terminei-o como pude, sem muita sinceridade. No momento não liguei para a desonestidade da coisa: a minha preocupação era com a linguagem escrita.
No “Mágico” eu não prestei atenção no “caso funcionário público”. Pensei que fosse secundário. Que a tristeza dele é que importava. Quando me chegaram as suas restrições já era tarde: vi que era impossível mudar a profissão dele. Estava obra feita.
Antes de enviar o meu livro para o Marques, desejava a sua opinião sobre ele. Depois desisti. Os meus amigos já tinham feito demasiadas restrições aos contos. Se recebesse outras, acho que desistiria e ficaria inédito para sempre. Não pretendo, seu Mário, não pretendo de forma alguma fazer uma pequena obra-prima. Eu estou aprendendo a escrever e aproveitando esse aprendizado para pôr para fora tudo o que me corrói por dentro. Não tenho cultura, não domino essa paupérrima e desgraçada Língua Portuguesa e ainda, apesar de todos os meus recalques (tenebrosos recalques!) e sofrimentos, ainda não sofri tudo o que tenho capacidade para sofrer.
O que me ajuda e me faz prosseguir são os amigos. Esses mesmos amigos que, com toda a razão, temem que eu caia na “habilidade”, na “facilidade” de construir casos esquisitos; que me acusam de impaciência, de preguiça e de tantas outras coisas. Tudo isso me ajuda, é verdade. Mas, também, tudo necessário, impossível de deixar de existir na minha maneira de fazer literatura. Como posso ter paciência se me desespero a todo momento com a minha incapacidade de contar esse mundo de coisas maravilhosas que tumultuam dentro de mim? Por que não ser preguiçoso, se gosto tanto de viver? Se acho que fazer literatura é uma imposição que me veio com o nascimento e não um prazer?
Tenho que ter paciência, tenho que resignar-me. Principalmente agora que a minha infância, cheia de sombras tenebrosas, de excessiva religiosidade, de fetichismo e terrores inexplicáveis, está me voltando, subindo à minha imaginação.
Queria muito lhe enviar os contos que estou escrevendo. Ando com um medo pavoroso de estar caindo na habilidade, no simbólico. Li O Processo, de Kafka, para o qual você me chamou a atenção em sua carta. E estou apavorado, sentindo a influência dele sobre os temas que estou urdindo.
Desejava que você lesse um conto meu que saiu no Roteiro de 15 do corrente – “Eunice e as flores amarelas”. Foi o primeiro conto “simbólico” (não tenho outro termo. Surrealista? Kafquiano?) que escrevi. E junto com o “Pirotécnico” e o “Mágico”, marca passagens distintas na minha literatura. Foram os meus três caminhos melhores.
Mário:
Escrevi muito e não consegui dizer quase nada do que pretendia. É sempre assim. O que escrevo dificilmente corresponde ao que sinto. Torno-me enfático, presunçoso e literário sem querer.
Quando sentei na máquina, pensei em escrever a minha primeira e sincera confissão. Tudo se embaralhou e não lhe pude dizer uma série de coisas que só em pensamento posso expressá-las com ternura. Sobra-me o consolo que essa incapacidade evitará uma possível e futura autobiografia...
Lembranças a Gilda e um grande abraço para você.

Murilo


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