Mario de Andrade

Carta 3

São Paulo, 27 dez. 1943

Murilo,

Acabo de receber o “Alfredo”, e respondo já por causa da sua consulta de agora. Si a carta sair um bocado confusa nas explicações e muito rápida e sem ordem na argumentação, me perdoe, estou pra lá de trabalho.
Dos três trabalhos que você propõe pra antologia, eu escolhia “O Mágico”, acho o mais perfeito de todos, com maior unidade no sustentar o diapasão da ... fantasia. (Vamos pra todos os efeitos, nesta carta, chamar de fantasia, o que você mesmo numa das suas cartas ficou sem saber como chamar, si “surrealismo”, si “simbolismo”, a que se poderia acrescentar “liberdade subconsciente”, “alegorismo” etc. Fica aqui “fantasia”). A pequena vulgaridade que apontei, de se tratar dum funcionário público se sustenta muito bem, que afinal é uma tradição, vox populi. O “Alfredo” também gostei bem, mas nele entra bastante o tal problema da necessidade de uma escolha muito controlada e severa de elementos, nos contos, criados sob o signo da “fantasia”. É que, o ineditismo, o irrealismo é tão sistemático, que a todo instante certos elementos parecem banais. Isto se observa especialmente, dos três contos propostos, no “Marina, a Intangível”. Confesso que não consegui me interessar muito por este conto, e ainda mesmos pelo da “Eunice e as flores amarelas”. Nesta a escolha dos elementos briga de tal forma com a fantasia e suas conseqüências, que quase todos os elementos ficam por assim dizer banais. De resto, mostrei este conto, não só a Gilda , como você pedia, mas a outras pessoas gradas também. E as observações mais ou menos coincidiram, sinão com as mesmas palavras e idéias, sempre na mesma ordem de pensamento. Ou quase sempre, pra não exagerar.
Bem, mas aqui interfere um problema, como diria? Confessional? Isso: confessional. É que eu fico sempre numa enorme dificuldade de dar opinião pra esse gênero de criação em prosa a que estou denominando aqui de baseada no princípio da fantasia. O próprio Kafka, confesso a você que freqüentemente me deixa numa insatisfação danada. Si, como você também tem esse dom, ele consegue me impor o extra-natural de tal forma que, como já lhe falei na carta anterior, o problema do irreal, passada a surpresa inicial, deixa de existir, não raro me parece que a fantasia não é suficientemente fantasia, não corresponde ao total confisco da lógica realística ( não é bem isto) que ela pressupõe, pra atingir uma ultra-lógica, dentro da qual, no entanto, interfere sempre uma lógica realista muito modesta e honesta. Aliás, talvez seja mesmo desta contradição entre um afastamento em princípio da lógica realista e a obediência, dentro da ultra-lógica conseguida, de uma nova lógica realística, o que faz o encanto estranho e a profundeza dramática, sarcástica, satírica, trágica, da ficção “fantasia”. Em Maldoror tem momentos disso formidáveis. E si o conto do homem que vira lagarta, em Kafka, não me satisfaz suficientemente como fantasia, (não consigo achar o bicho suficientemente “inventado”) no entanto a permanência do problema financeiro da família e a sua lógica dentro da ultra-lógica do bicho é uma das coisas que mais me buleversam no conto. Mas ainda prefiro nesse como em todos os sentidos, o conto dos chacais, que é uma das coisas mais horripilantes, como sarcasmo, que já li. Pois então, lhe fica rasgadamente confessado aqui: eu lhe digo, Murilo Rubião, com franqueza o que sinto, mais o que sinto do que o que penso sobre os seus contos, mais digo assim meio desconfiado de mim, porque não entendo muito, nem consigo apreciar totalmente o gênero a que você se dedicou. Não tem dúvida nenhuma que existe nisso uma das deficiências minhas. De maneira que você nunca imagine que estou defendendo princípios estéticos em que tenho confiança ou imagino que são normas imprescindíveis. São quase que apenas palpites.
Pois o meu palpite principal é mesmo esse: os elementos que você utiliza, cria, inventa, na sua fantasia, freqüentemente não me convencem, não por serem irreais, mas por não serem suficientemente irreais, suficientemente inesperados, é milhor dizer. Mas eu seria o mais desonesto dos sujeitos si tivesse certeza. Não tenho certeza nenhuma do que eu sinto. Apenas estou lhe propondo um problema e uma dúvida. Mas quem tem de resolver é você, e um problema, mesmo sendo a mais, como sei que é pra você, nunca fez mal.
Engraçado, Aurélia acaba de me telefonar, pra saber de minha saúde. Manda lembranças de vocês. E eu o meu abraço muito amigo.
Mário de Andrade


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