Mario de Andrade

Carta 2

São Paulo, 28 abr. 1942

Murilo Rubião

Não posso deixar de responder à sua carta, embora ela não tenha propriamente resposta. Resposta no sentido de correspondência, como o nosso Fernando. Mas vejo pela sua carta que andei lhe dizendo umas coisas brutais que eram inúteis de dizer. Ara praquê eu havia de lhe falar que sinto, que acho repulsivo o “fracassismo” de vocês. Sei que não menti, juro, mas isso não é verdade. Irritação sim, isso não tem dúvida que sinto, mais que irritação, cóleras verdadeiras. Eu não queria que fosse assim! Essa recusa em que vocês vivem de se acreditarem úteis, capazes de fazer um mundo, não digo novo, não interessa “novo”, mas mais humano. Essa espera de que primeiro suceda alguma coisa de mais definido, pra então se definirem, em vez de ajudarem a definição que está vindo. Não há exatamente “fracassismo”, como falei pra maltratar. Eu devia ter vindo de alguma das minhas discussões atrozes, quase quotidianas como os meus amigos moços daqui, em que abuso da minha idade pra esculhambar eles e xingá-los a valer. Digo o diabo, ofendo, insulto, e eles me aceitam assim mesmo, continuam me querendo bem... No dia seguinte, já sabe, estou arrependido, com vergonha do que falei, com raiva dos meus abusos. Devia ter vindo duma dessas discussões quando escrevi a você, e ainda estava naquela cólera. Pois não é “fracassismo” não. É mais recusa e espera. E isso me assombra, porque eu não quero que seja assim. Não quero, não posso querer. Ando fazendo esforços desesperados pra me regenerar, pra me completar no que eu sei que minha vida está incompleta. Eu careço que vocês me ajudem: e em vez, vocês me dão essa força inerte da recusa e da espera. Então me explodo brutal, mais me ferindo que a vocês mesmos. Devo ser muito egoísta... Você me desculpe o que lhe disse, esta carta está mais verdadeira.
Si estiver com o Fernando, diga a ele que lhe responderei lá pelo 15 do mês que vem. Até lá tenho uma tarefa enorme e urgente.
Com o abraço do

Mário de Andrade


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