Mario de Andrade

Carta 1

São Paulo, 13 jan. 1940

Murilo Rubião,

Aqui lhe mando, em primeiro lugar, um abraço e ano-novo. Recebi Tentativa , seu cartão, e mais a presença grata de Aurélia Rubião , que infelizmente não chegou a tempo pra ver a exposição de Portinari e ainda por cima me encontrou doente. A doença não só continua como piorou. Vim correndo pra minha casa de verdade , fiquei vários dias de cama, e ainda vivo mais na cama que na vida, corrigindo rins, matando amebas e o diabo. Mas desta vez ainda resisto, pelas aparências.
Seu artigo de Tentativa me lembrou uma passagem de minha vida de moço. Foi logo nos primeiros tempos do modernismo, faz isto pouco menos que vinte anos, e estava pra chegar a São Paulo o poeta francês Blaise Cendrars, então no esplendor da fama, com as suas tentativas de poesia modernista. Nós o admirávamos com toda a generosa paixão da mocidade. Paulo Prado, que então dirigia a Revista do Brasil me lembrou a necessidade de eu, que o conhecia mais perfeitamente em suas obras completas, escrever um artigo sobre Blaise Cendrars. Vai daí, escrevi um artigo inflamadíssimo. Ora, o Cendrars era um sujeito que nem eu, gostando de viver e pouco amigo de louvores. No dia seguinte à chegada dele, fui visitá-lo de manhã, no hotel, e já lhe tinham traduzido o meu artigo. Vai ele me abraçou com enormes gargalhadas, dizendo “Votre article est presque imbécile à cause dês éloges, mais je vous aime bien”. Vários anos depois, aliás, eu tive ocasião de escrever outro artigo sobre a decadência dele, que o comoveu profundamente. E então ele me disse, muito baixinha a voz, muito sério ele, quase em segredo: “Mário, já dois homens escreveram coisas verdadeiras sobre mim: Fulano (um alemão de que não lembro mais o nome) e você”.
Pois é. Pra ser sincero, achei os seus elogios exagerados, mas lindíssimos. Valem mais mostrando o que você é, do que o que eu valho. Valem mostrando a espontaneidade natural, a generosidade, a efusividade matinal da sua alma de moço. Aliás vocês todos, os rapazes que me cercaram aí em Belo Horizonte foram deliciosos de gentileza, suberam me fazer esquecer essa estúpida coisa que se chama ter nome feio. Vocês me fizeram me esquecer e vivemos boas horas de camaradagem. Seu artigo teve o dom de continuar essas boas horas, dizendo certo as ideiazinhas que andei dizendo por aí, despreocupadamente, sem a menor intenção de deitar doutrina, com a pura intenção de bater o papo no meio de gente inteligente. Já os elogios, franqueza: me desagradaram um bocado, porque me repuseram em mim, o literato conhecido, de que muita gente fala e já não se pertence mais apenas a si mesmo. Isto é pau, Murilo, é muito pau.
Mas muito obrigado assim mesmo e por tudo. Você tem aqui em São Paulo ou no Rio, pra onde irei lá por meados de fevereiro, não o “caro prof. Mário de Andrade” que você nomeou no seu cartão, mas simplesmente o Mário de Andrade muito seu amigo, despreocupado, sofredor, agüentador, lutador, e camarada. Em qualquer dos meus dois pontos, você terá sempre esse camarada, alerta em te receber e pronto a responder ao que você perguntar e ele souber.
Lembranças muito afetuosas a Aurélia e aos rapazes. Com um abraço
do
Mário de Andrade


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