Fernando Sabino

Carta 3

Londres, 9 de janeiro de 1966.

Meu querido Murilo

Acabo de receber sua carta. É lamentável, mas por ela fico sabendo que infelizmente não te chegou às mãos a que te escrevi tão logo recebi o Ex-Mágico, agora incorporado aos “Dragões”. Foi uma carta escrita sob a emoção do momento, logo após terminar a leitura, e que eu não saberia mais retransmitir com todo o calor do momento. Eu tentei te falar como pude ter uma impressão da qualidade de seus contos, com a perspectiva do tempo e da distância. E o tempo só fez lhes dar a configuração de alguma coisa realmente importante e definitiva. Eu falava no sentido que adquirira para mim o mundo de seus personagens, aparentemente tão estranhos, e no entanto perfeitamente identificados ao mundo de nosso tempo, de astronautas e de computadores. Não será a literatura de ficção científica que vai captar o mistério de nossa época, mas exatamente a literatura do absurdo junto à mitologia da infância, povoado de sonhos em que os homens e animais se misturam e se completam, vivendo a nossa realidade interior. Não sei dizer nem repetir o que lhe disse, e é uma pena. Só posso acrescentar que seu livro me encheu de grata emoção por redescobrir nele um escritor de primeira grandeza e justificar o entusiasmo que seus contos me despertam desde priscas eras.
Agora, algum tempo passado, eu precisaria relê-los um a um, o que sem dúvida vou fazer, para tentar captar de novo a impressão que me deram. Ando com meu juízo crítico meio embotado e ele só sabe se exercer hoje em dia ao sabor das mais puras emoções, como a que seu livro me proporcionou. Assim que dispuser de um tempinho, volto a falar nele. Agora, não quis deixar de lhe responder logo, pois ando entupido de serviço na Embaixada e com dezenas de cartas a responder, crônicas para escrever, o diabo. Entro pela noite quase sempre e não consigo botar em dia o expediente – a padaria literária funcionando a todo vapor, para me agüentar aqui. Nos fins de semana escrevo seis crônicas, todas de uma vez, em geral, e ainda estou labutando no meu romance. Para o mal dos meus pecados, comecei a escrever de divertimento um “thriler” que está me dando água pela barba. Mas lhe prometo em breve uma outra carta mais decente sobre seu livro, que merece. Nesse meio tempo, me mande os contos que tem escrito, você não pode imaginar como fiquei satisfeito de saber que você tornou a esquentar a caldeira a todo vapor. Não, não tenho o endereço da Lucy, posso procurar apurar e lhe comunico. Mandei para o mesmo endereço seu (Rua do Ouro 777) uma nova coletânea de crônicas minhas, “A companheira de viagem”, temo que também tenha se extraviado. Se recebeu, favor acusar. Até lá, vamos trocar chumbo epistolar. Abraço muito saudoso de Anne e do seu velho

Fernando.


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