Fernando Sabino

Carta 2

Rio, 7 de março de 1949

Meu velho Murilo,

Hoje está fazendo cinco meses que meu Pai morreu. Um pai é uma perda que o tempo faz aumentar – eis alguma coisa que o tempo está me ensinando. E que você também vai aprender. E o bem que o Pai nos faz se prolonga além do tempo e da morte – a própria morte vem a ser para nós mais um gesto de carinho, o último, o permanente ensinamento – um pai que morre nos ensina a morrer. Esta a lição que nos fica, como uma herança, para ser vivida até que chegue a nossa vez. Você não sentiu que finalmente se tornou em homem, que finalmente cortou a última corrente que o prendia à infância como um escravo, para poder recuperá-la em liberdade? Enfim, antes de chegarmos à velhice, já não somos mais crianças – inútil se iludir. E sempre é tempo para começar. Um pai que morre é a permanência do amor no filho, é uma esperança além da morte.
Fiz tudo o que me era possível para ir ter com você em Belo Horizonte, mas nada me foi possível. Concluí que o melhor a fazer era não complicar mais as coisas, mas deixá-las seguindo o seu curso natural. Você não pode fazer idéia como tenho sofrido por aquela noite que você passou conosco no Rio. Conversei com o Paulo sobre isso e o sentimento é o mesmo: de derrota, de traição, de fracasso. Explico-me para uso próprio na necessidade de superar o nosso sofrimento mútuo arrastando você para um terreno acima das explicações, das confidências, da dor silenciada em lembranças e expectativa, ou em vontade de esquecer. O que também não deixou de ser uma fuga: espavorido, tentei fugir da atmosfera de fatalidade que parecia nos envolver, e sem perceber me abandonei a uma fatalidade maior. Já não somos mais crianças, e a idéia de que você pudesse ter tomado por leviandade o que para mim era realmente leviandade, mas nascida do medo puro e simples de encarar de frente a realidade – e isso eu não sabia – tem me atormentado bastante. Por favor, perdoe e exclua de sua vida como um pesadelo aquela noite que você passou por aqui. Eu devia ter ficado sozinho com você – e ficado até o fim, até o seu embarque. Achei, porém, que seria mais fácil para você se simplesmente ignorássemos tudo – e quando vi estava ignorando você e a mim. – o que não era mais a presença do amigo a seu lado, mas a presença do demônio. O demônio existe. Mas não falemos mais nisso – e se possível, me tranqüilize.
Tentei inúmeras vezes falar com você pelo telefone. O que, aliás, seria inútil, não tenho nada para lhe dizer que você já não me tivesse dito. Minha presença, o que seria pior, talvez fizesse o amigo em mim falhar mais uma vez, e eu não teria mais direito de pedir perdão. Viva sozinho a sua morte. Aprenda sozinho sua lição. Anexe esta dor definitiva ao seu patrimônio de sofrimento, conquiste sozinho a Presença de seu Pai. Mais tarde nos escreveremos, nos encontraremos, trabalharemos juntos, possivelmente seremos felizes, talvez alegres, ou mesmo tristes, mas dessa tristeza legítima de nos sabermos vivendo ou nos sentirmos irmãos.
O velho abraço de seu
Fernando


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