Fernando Sabino

Carta 1

New York, 9 de agosto de 46

Meu velho Murilo,
Não te esqueci durante um minuto. Pelo contrário, não há nada aqui em New York que me tenha preocupado tanto quanto você. Não é de hoje que você me vem preocupando muito. É que tenho notado em você alguma coisa errada, caminhando errada em você e te levando para o mais triste dos fins: o de beber sozinho por não ter com quem beber, o de falar sozinho por não ter com quem falar, o de morrer sozinho por não ter a quem amar. E essa coisa errada é essa tristeza que você vem alimentando em você mesmo não é de hoje. O pior é que a tristeza nasceu de fora, não nasceu de dentro: nasceu dos amigos que foram embora, se casaram, de Belo Horizonte que ficou diferente, do Brasil que ficou mais confuso e do mundo que ficou mais inabitável. Por isso é que você não encontra meio de curá-la e cada vez mais se afunda na pior delas todas, que é a tristeza de gabinete. Por que ela vem de fora, e você já nem está tendo olhos para ver o que está se passando do lado de fora de você. Talvez o seu maior erro tenha sido não ir para o Rio naquela época em que a Teddy te chamou. E eu te aconselhei tanto a ir. Mas não tem importância, nada tem importância, meu Deus, e eu vejo você de repente se salvando de tudo isso e levando com você a experiência ganha. Será que nem uma arrebentação, como no poema do Mário, e em você alguma coisa está precisando arrebentar, arrebentar sem mais demora. (Estou escrevendo tudo isso sem pensar, apenas vendo você, sua figura, sua tristeza e suas cartas à minha frente. E sua literatura também, o mais importante). Arrebentar, é isso. É possível que Deus tenha feito você esperar estes anos todos, esperar o meu casamento, o casamento do Jair , o nascimento de minha filha, minha mudança para os Estados Unidos, esperar você procurar todas as editoras do Brasil uma por uma e não conseguir publicar seu livro, esperar até agora, para que sua vitória fosse mais completa. Acho que seus trinta anos já dizem alguma coisa, Murilo, seu livro inédito já representa muito em sofrimento e sua falta de cabelo te convida a uma dignidade outra que você está tendo até agora: a dignidade de escritor. De modo que, com tudo isso, e você absolutamente convencido de que seu caminho não é nenhum outro e no mofo escuso dos gabinetes é que ele não começa e sim acaba como no fundo de um poço, agora que você sente que já passou por todas as provas que escolheram para você, agora você vai começar. Agora você é que vai escolher.
Acho que você não deve esperar mais um ano, nem uma semana e nem um dia: deve fechar os olhos e avançar. Um dia o Mário me escreveu: você tem medo da morte, Fernando? Tem medo de morrer, de perder sua mocidade? Então o que você tem não é mocidade. Nunca indague se do outro lado do túnel faz dia ou noite: só há um jeito de saber. E esse jeito é ir até lá. Murilo, estou falando a você nesta correria, mas absolutamente sincero e certo do que estou dizendo, estou te falando como o amigo, estou te falando como o irmão. Você é o melhor amigo que eu tenho, Murilo, e quero te ver do lado de lá do túnel e do lado de lá da vida, coerente consigo mesmo e deslocado para com o mundo. Atualmente você está sendo coerente para com o mundo e deslocado para consigo mesmo. E como amigo e como irmão eu só te posso falar o que o Mário me falou: só há um jeito de ver se do outro lado do túnel faz dia ou noite: é ir até lá. Você é o melhor amigo que eu tenho, Murilo, você sabe disso e sabe que você estará a vida inteira em meu coração, esteja onde estiver, toque que instrumento tocar, faça esta ou aquela política, escreva este ou aquele livro, more na cidade ou no campo, casado, amigado ou solteiro. Mas pode ter a certeza de que por isso mesmo não posso te ver se deixando viver impassível, faço da sua vida a minha própria e sofro com você. Durante muito tempo escolheram por mim e continuam a escolher um pouco. Mas agora eu também escolho e por isso estou aqui, por isso estou casado e com uma filha, por isso estou quase terminando o meu terceiro livro. Quero ver você começar a escolher, Murilo. Há outra coisa que o Mário me disse que eu gostaria de dizer a você e isso se você disser que sua vida não te pertence e nem você pode sobrepor a sua felicidade à felicidade dos outros. O Mário me disse: “que felicidade: a de cinco ou seis destinos que você pode tocar com as mãos?” Não sei, Murilo, acho que você deve acordar enquanto é tempo, fazer à carne morta e à carne viva o seu grande gesto obsceno, e começar com sua próprias mãos. Você é um escritor, Murilo.
Conversei muito com a Teddy sobre você, com Helena, e anteriormente no Brasil já havia conversado muito com o Paulo, o Hélio, o Otto, o Carlos Castelo Branco. A impressão é geral. Cada um de nós tem seus problemas, talvez mais graves, mas nunca vi um chegar a tal ponto de unanimidade no julgamento dos amigos e dos que te compreendem. Ou que um dia te compreenderam, é possível que muitos caminhem para um completo desconhecimento e incompreensão de você um dia. Mas ainda é tempo, Murilo.
Não quero te dizer mais nada, nem te dizer grandes palavras. Quero só que você saiba que continuo mais do que nunca acreditando e temendo seu destino de escritor e de artista. Como escritor e como artista é que sou seu amigo e que te quero irmão, porque a literatura é a parte mais legítima de você mesmo. Como o homem que você pode vir a ser sem literatura, eu poderei admirar e gostar apenas, mas sem aquela angustiante necessidade de partilhar de um só destino.
Bem, vamos às coisas práticas: te conto tudo, e você decide por você mesmo. Mas pode ter certeza que jogo toda a força do meu coração numa decisão favorável a você. É o seguinte: estive pensando desde que cheguei aqui a te trazer para cá logo fosse possível (Eliana está mexendo na máquina, com certeza querendo mandar também uma palavra para o titio) . Arrancar você desse pântano que o Brasil vai ficando cada vez mais, desde que a política tomou conta de tudo e não há dignidade suficiente para encher um dedal na política do Brasil e talvez de todo o mundo. Aqui você teria outro campo, outra perspectiva das coisas, outra possibilidade de ação como escritor e como homem. Ontem, achei a tábua de salvação, o ninho da égua, ou o que seja: o nosso caríssimo João Napoleão de Andrade que está por estas terras e que tem andado muito comigo aqui. Conversei seriamente sobre você com ele e imediatamente vi que ele gostava muito de você e se interessava muito em te ajudar. Falei para ele arranjar um emprego aqui e você viria imediatamente. Ele arranja. E arranjaria coisa boa se você falasse inglês. Há uma firma brasileira aqui, de exportação, da qual ele faz parte, que te empregaria imediatamente, em cargo de confiança, etc. Para eles posso falar que você sabe inglês, pois todos os brasileiros aqui falam que sabem e não sabem nada. Falo que você sabe ler, entende, etc, e que logo ficará bom para conversar. E acredito mesmo que uma semana de leitura diária de jornal, de rádio e de cinema sem letreiro te põe entendendo tudo como me pôs. Enfim, por esse lado você se defenderia, e a coisa pode-se arranjar. Naturalmente que não vai ganhar muito, mas dará para viver e poderá se defender, pois oportunidade é que não falta. Inclusive na literatura.
Bom, mas o João Napoleão, além disso, sugeriu outra coisa. Não quer perder você. Disse que gostaria de fazer com você o mesmo que fez com o J. Carlos Lisboa. Levar para o Rio, trabalhar com ele, sem horários, apenas trabalhar, num emprego de confiança e exercendo uma atividade interessante. Hoje o J. Carlos está bem, é professor de espanhol, é tudo o que ele pretendia. Você pode ser tudo o que você pretende. E penso que você só deve pretender, pelo menos antes de tudo, ser um grande escritor. O J. Napoleão vai embora dentro de vinte dias no máximo, e deve te procurar logo chegue no Brasil. Se você tiver notícias disso antes, procure ele, vá ao Rio, mas procure estar com ele e conversar longamente com ele sobre o assunto, pois ele se interessou verdadeiramente por você, como um amigo de fato.
Aí você tem dois caminhos pela sua frente: ir para o Rio imediatamente, ou vir para cá de uma vez, ou ir para o Rio primeiro e depois vir para cá. Dois caminhos que te arrancam desse túmulo em que você já vai entrando de cabeça. Túmulo onde a sombra dos grandes escritores Mário Matos, Eduardo Frieiro, até mesmo Luís de Bessa e até, até mesmo Elias Johany pairam como asas negras. Se você pensar que talvez não resolva nada e aí ou na China seria a mesma coisa, se você pensar que Belo Horizonte é seu destino e sua cruz, se você pensar que nada adianta, isso é uma violência e você tem de cumprir o seu destino que é ficar, você estará indagando se do outro lado do túnel é dia ou noite. E se você achar que vai ser difícil sair, há os compromissos, há a amizade e a gratidão, há sua família, há seus amigos, há o dever de ir até o fim, e coisas deste estilo que só importam aos personagens de Eça de Queiroz, você então estará apenas vivendo pela felicidade dos cinco ou seis destinos que você pode tocar com as mãos, o que é mais egoísta e insuportável de se ver num amigo. Faça um esforço de libertação ainda possível, revista-se um instante de humildade e consulte a seu pai, consulte ao meu, consulte a mais legítima tradição de duzentos anos de aprendizado. Se eles disserem que não, então entrego os pontos. Mas me convenço que esta tradição está definitivamente podre e que é preciso ser destruída. Nem dia nem noite; só há um jeito: é ir até lá. Nem cinco nem seis, são milhões de homens que estão vivendo e sofrendo neste momento, para que você se realize, para que você não falhe. Há um que faz o seu sapato, outro lava a sua roupa, outro mata o boi e outro corta a carne para você comer. Um te põe a gravata, outro te aponta cosmésticos que você não usará, outro te abre a porta, outro te dá um livro, outro acende a luz para você ler, outro faz a cama para você dormir. Cada um faz o seu papel e você deve procurar fazer o seu; se não for o de escritor, então que seja de pintor, fabricante de vinhos, caixeiro viajante, ou até mesmo, meu Deus, oficial de gabinete. Mas você sabe que é escritor e portanto está blefando. Está se refugiando no conformismo de conquistar apenas uma derrota, talvez achando que do lado de fora, do outro lado do túnel, há uma vitória a conquistar. Não se conquista nada, e nossa única vitória é ter um dia a humildade de dizer: perdi. Nós acabamos perdendo, e por isso seremos salvos. Quanto mais aprendemos e vivemos mais nos perdemos e mais incapazes estamos para salvar os outros ou salvar a nós mesmos. Por isso é que a sabedoria conquistada nos levaria na certa a dar apenas o nosso testemunho, e fazer para os outros de manhã à noite a nossa oração: porque no fim não podemos fazer nada, temos é de esperar. Não seria por isso, por não poder fazer mais nada, que o Cristo morreu na cruz para nos salvar?
Um abraço saudoso e amigo do
Fernando

P.S. Pense bem no negócio do J. Napoleão e me escreva rápido, para eu alcançar ele ainda aqui. De qualquer maneira, a coisa é certa, no Rio e mesmo aqui em New York. Espero você resolver, com muita ansiedade. Abraço no Jair e no João Dornas, Fritz, todo o pessoal.


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