João Etienne

Carta 2

BH, 6 de maio de 1975

Murilo:
Estou lhe devendo, há muito, uma palavra sobre “O Pirotécnico”. A oportunidade chegou agora, com a muito bem feita escolha de seu livro para o vestibular. Não adianta a gente falar que não interessa a vendagem. Na verdade, o que o autor quer é ser lido, é ser vendido. Eu, por exemplo, fiquei felicíssimo há uns 15 dias atrás, quando todos os exemplares de “Os tristes” foram vendidos, porque o livro foi indicado para leitura e interpretação em vários colégios da Capital. Estou preparando uma 2ª edição, trabalhando nela com um gosto danado. Seu conto novo é excelente. Não direi que é melhor do que os anteriores. É igual. O mesmo clima, a mesma linguagem enxuta ( se houvesse mais vagar, gostaria de discordar de uma ou outra palavra, coisas miúdas, assim como Mário de Andrade gostava de fazer, e que são prova de interesse, de leitura acurada, de amizade pelo autor.) Se tivesse mais tempo, faria também um estudo dos retoques que Você fez nos contos anteriores. Só pude fazer, e assim mesmo muito perfunctoriamente, com os últimos parágrafos de “Os Dragões”. Excelentes as alterações, quase todas. Tiro o quase. Todas. Alguém já teria feito isto? Seria interessante. Esta luta com as palavras. “Escrever é cortar palavras”: Drummond. Perguntaram a Miguel Ângelo como é que ele tirava vida da pedra e do mármore. Ele respondeu que não tirava, que dava vida à pedra e ao mármore. Não é o que tentamos nós todos, os que, bem ou mal, escrevem? Creio que é de Guerra Junqueira: “Entre britar pedras e lidar com as palavras, britar pedra é como cortar manteiga”. É bom, não?
Vai meu abraço, pelo livro, pela escolha para o vestibular, por tudo o que nos identifica na mesma grei. (Lembro-me da primeira vez que o vi: na porta do Colégio Arnaldo, aquela porta central, da Carandaí, Você dizendo que ia ler todo o Júlio Verne... Depois “Mensagem”, “Tentativa”. E aquela nossa briga, da qual precisamos conversar um dia ( acho que da qual ficou errado, deveria ser sobre a qual) pois há uns detalhes que me interessa que Você saiba. As “pazes feitas” numa posse de não sei quem, Governo JK, solenidade no edifício Dantés. Lembra-se? Deixemos este capítulo de velharias e saudades...). Sempre seu,
Etienne.


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