João Cabral

Carta 3

Marselha, 3. 2. 959

Meu caro Murillo,

Como é que foi sua excursão italiana? Se não me engano, V. anda metido em copas desde a viagem à Itália. Deslumbramente em decepção?
Recebi carta do Otto, perguntando como foi o curso do Josué. Ora, estou certo de que já lhe havia escrito que Josué não deu curso nenhum e que em Madrid não há curso nenhum que sai. O que acho é que ele não quer mesmo Madrid. Vai para o Brasil no dia 14 de fevereiro, de navio. Amanhã vou escrever para ele, pois ainda o alcançarei em Bruxelas.
Recebeu o filme de cinema que lhe mandei em dezembro? Mandou entregá-lo à carismática Carmem Carrera? E sobre se ela está ainda em Madrid, no Coral de la Morería?
Andei três semanas em Monte Carlo, fazendo um tratamento para minha nevralgia. O tratamento fracassou. Em todo caso, explorei minuciosamente a famigerada Cote d’ Azur que, afinal de contas, não é tão Azur assim. Prefiro a Espanha, apesar de tudo.
Mandei hoje meu livro para “Livros de Portugal”, que o vai editar. Ficou um livro bem fornido. Se o Juscelino não fosse presidente e se V. não fosse amigo do Juscelino, haveria um poema dedicado a V. Mas garanto que o primeiro que eu escrever depois de 2 de fevereiro de 1961, será dedicado a V. Então ninguém poderá dizer nada.
Receba um grande abraço. Recuerdos aos amigos do escritório.
Seu amigo,

João Cabral


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