João Cabral

Carta 2

Marselha, 6. XII.958

Meu caro Murilo,
Um favor. Espero que seja a última das caceteações que minha família e eu lhe faremos nos próximos dias. V. vai receber aí um pequeno embrulho com dois filmes de cinema já filmados de 8 mm. Peço que os mande retirar do correio, pague direito que haja a pagar (será coisa de 10 ou 15 pesetas) e os faça enviar à Srta. Carmem Carrera, “Coral de la Morería”, Calle de la Morería 17, Madrid (Isso fica perto do viaduto do Palácio do Oriente). Está claro que V. não precisa fazer pessoalmente nenhuma dessas coisas: basta mandar um desses seus simpáticos contínuos. Está bem? Diga-me depois quanto foi tudo para que reembolse a quantia.
Esta minha carta, creio, não encontrará mais o Felix aí, não é assim? Pelas notícias dele, deveria sair daí a 7, para Barcelona. Stella viaja a 8, segunda-feira. E o Athayde já encontrará a casa funcionando.
Que há com a sua viagem? Vai mesmo passar o natal em Roma?
Depois da chegada da família, espero que minha vida entre nos eixos. O chato é que não se confirmou a esperança que eu tinha de encontrar muito trabalho no consulado. Há ainda menos aqui, de que em Sevilha. Assim, ficarei entregue a mim mesmo, o que é péssimo. Porque para dar forma a essa disponibilidade mergulharei fundo na literatura; e a literatura para mim é uma coisa tão exgotante, radical, consumidora, que breve estarei em novas crises de desespero.
Um grande abraço aos amigos.
E antes para V.

Seu amigo
João Cabral.

P.S. Stella me escreveu contando todas as gentilezas que V. teve para com ela e família. Muitíssimo obrigado. Exijo agora que V. venha por aqui para eu amortizar um pouco essa dívida. E não se esqueça que uma viagem a Paris está de pé.
J.


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