João Cabral

Carta 1

Marselha, 1.XII.958

Meu caro Murillo,

A luta para arranjar casa não me deixou que lhe escrevesse antes. Assim, aqui vão os meus agradecimentos pelo trabalho que teve comigo, com o carro, com o dinheiro e com a família.
Espero que v. reconsidere seu plano de ir à Itália sem tocar em Marselha. Se mudar de planos, me avise.
Não posso reclamar o fato de ver-me em Marselha porque afinal de contas pedi para ir para lá. Mas Marselha depois de Sevilha é o diabo. A única vantagem que vejo é que aqui me impregnarei de toda a atmosfera que detesto na Europa – mofo, umidade, sujo – e que pretendo satirizar um dia. Em cidades como Paris e Londres esses atributos europeus existem. Mas já existe, em certos pontos, limpeza, higiene, cimento armado, vidro, etc., e como esses atributos americanos nos atraem, passamos a viver entre eles, sem que nos possamos impregnar muito desse bafo de depressão que é a Europa. Mas aqui não. Não há outra solução. Você tem de se impregnar à força de Europa e sujeira.
Um grande abraço para v. e para os amigos do escritório, especialmente Pacheco e o Camel Cabanas.
Seu amigo afetuoso

João Cabral.


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