A recepção tardia do moderno

Eneida Maria de Souza

Neste texto, a ensaísta Eneida Maria de Souza estabelece uma relação entre o olhar oblíquo para a realidade, presente na literatura de Murilo Rubião, e o período em que JK foi prefeito de Belo Horizonte.

(...) O descompasso entre o caráter progressista e eufórico da modernização urbana processada, à época, [em que JK foi prefeito] em Belo Horizonte, e o texto de Rubião reforça a necessidade de se ler, pelo avesso, e numa perspectiva crítica, as contradições existentes entre os domínios da arte e da política.
Em 1946, um grupo de poetas e escritores, tendo como redator-chefe Autran Dourado, funda a Revista Edifício, em que são utilizados, como epígrafe, versos de Drummond, indicadores de uma construção em ruínas: “Que século, meu Deus! Diziam os ratos./ E começaram a roer o edifício.” Nessa revista, além do espírito cosmopolita e universalista do grupo – composto por Wilson Figueiredo, Sábato Magaldi, Francisco Iglésias, Pedro Paulo Ernesto, Edmur Fonseca e Walter Andrade – registram-se as marcas da modernização do espaço urbano, com a construção de prédios amplos e a abertura de livrarias “modernas”, pelos reclames inseridos nos quatro únicos números da revista. O Cassino da Pampulha, ponto alto de encontro da sociedade belo-horizontina, aparece na Edifício com ilustrações de bailarinas, peça publicitária que funcionava tanto como cartão de visita da cidade como convite para se usufruir da vida noturna que aí se anunciava. O reclame atinge significado mais abrangente, à medida que legitimava um espaço moderno de lazer, onde a intelectualidade mineira se fazia igualmente representar.
É ainda possível estabelecer uma ligação entre as pretensões do grupo literário com o conto de Murilo Rubião, “O Edifício”, pela utilização do mesmo tema do arranha-céu, caro à paisagem urbana moderna e sujeito a críticas dos cidadãos que vivenciam as transformações sofridas. Permanece o sentimento de restauração de subjetividades, da denúncia do sujeito inserido no anonimato da cidade grande, o que contribuirá para a criação de uma estética intimista e fantástica, como no caso específico de Murilo Rubião. Babeliza-se a cidade através da construção de torres que anseiam chegar ao céu; concebe-se diferente espaço de moradia, pela redução do lugar de convivência, ampliando-se, contudo, os sítios de encontro em praça pública, pela criação de ambientes de lazer e de convívio coletivo. Entre eufórico e nostálgico, o sujeito das cidades se refugia, ora no interior da casa, em busca de identidades perdidas, ora na experiência do espaço público, motivador de momentos compartilhados e de desejos utópicos de mudança.
(...)


SOUZA, Eneida Maria de. Juscelino Prefeito: 1940-1945. Prefeitura de Belo Horizonte/ Museu Histórico Abílio Barreto, 2002.


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