De Kafka a Rubião

José Augusto Carvalho

Lançados pelas Edições MP, 1965, Os dragões e outros contos são a mais recente obra do extraordinário contista Murilo Rubião. Misto de Kafka, Bradbury e Poe, Murilo Rubião é um escritor brasileiro, o que dá aos seus curtos contos um toque diferente de poesia em prosa. O mundo onírico, poético e colorido de Rubião distancia-se da morbidez de Kafka, da patologia de Poe e da secura de Bradbury. No entanto, esses três mestres do absurdo estão presentes da obra de Rubião. “O Edifício” é um prédio sem fim que se constrói sem patrões e sem objetivo, que cresce indefinidamente, ultrapassando os oitocentos andares... “A cidade” é a história de um homem que é processado e condenado numa cidade desconhecida, por ser o único a fazer perguntas, além da autoridade policial, que, pelo cargo, está livre de suspeitas. Dois contos que lembram O Castelo e O Processo. “O Pirotécnico Zacarias”, um defunto-vivo, ou, se preferem, um corpo apenas que age entre os vivos, embora esteja morto, vítima de atropelamento, lembra a história da “Velha”, de Bradbury (O País de Outubro, Edições G.R.D., 1963), que se recusou a morrer depois de morta. Ainda o último conto, onde um mesmo homem é enforcado duas vezes, faz pensar em Bradbury. “Teleco, o coelhinho”, é um animal que se crê homem, exatamente o oposto do personagem da Metamorfose, de Kafka, ou de O Rinoceronte, de Ionesco.

Mas Murilo Rubião não imita. Seu mundo não é um absurdo simples. É o mistério que se faz poesia, o sonho que se faz lirismo, o colorido que se faz surrealismo. As flores e as cores em Rubião constituem-se quase que em personagens como, no conto “O Girassol Vermelho”, a flor que surge estranhamente de um ventre feminino, ou a policromia da visão do louco (seria louco?) do conto Bruma, ambos com um final misterioso, estranho, absurdamente surrealista.

Há uma diferença sutil entre o nosso Murilo Rubião e os outros mestres do absurdo. E esta diferença caracteriza e individualiza a fantástica criação deste notável contista mineiro: a concretização do inexistente. Em “O País de Outubro”, de Bradbury, o vento pode ter sido um pesadelo. A aceitação do vento, como personagem, pode ser voluntária por parte do leitor. Mas o inexistente poema “Marina, a Intangível”, de Rubião, embora pareça paradoxal, existe realmente. É um imenso poema belíssimo, “feito de pétalas de rosas (...) e de sons estúpidos”. Os sons não existem nos instrumentos silenciosamente soprados. Mas estão lá, compondo o poema. E o poema adquire consistência na mente do leitor. Só a leitura do conto pode dar uma idéia do maravilhoso absurdo de Murilo Rubião.

Há uma mensagem que o autor sugere e o leitor apreende. Em Edgar Allan Poe, os contos extraordinários giram em torno dos fantasmas e alucinações produzidos por cérebros doentios, e o leitor encontra para cada caso sobrenatural uma explicação senão lógica pelo menos verossímil, e quase sempre calcada na patologia dos personagens. O mundo sobrenatural de Poe é um mundo de loucos, de catalepsia, de criminosos hipersensíveis, de câmaras de tortura e de castelos cheios de reentrâncias propícias ao sepultamento ou ao emparedamento de corpos vivos ou mortos. Bradbury é de uma estranha simplicidade que chega às raias da complicação, e seus contos são tão esquisitamente agradáveis quão cheios de profundidade. Sobrenatural sem misticismo, fantástico sem vulgaridade, quase macabro às vezes, o universo de Bradbury é de um fantástico-fantástico, sem explicações, numa fuga eterna do verossímil, que o leitor aceita ( ou não) de boa vontade, mesmo sabendo que se trata de um absurdo contra todas as normas da lógica.

Quase todos os contos de Bradbury terminam de modo a sugerir ao leitor a conclusão devida ou sob a forma de um enigma que ao leitor competirá resolver. O sobrenatural, como os contos do vampiro ou do homem alado, é de um absurdo tão grande que, paradoxalmente, o leitor o aceita sem restrições e participa da angústia dos personagens, sem se dar conta de que está aceitando o próprio absurdo e recusando a lógica e o raciocínio. Assim, no conto “O Vento”, o leitor sabe que o homem está dizendo a verdade, que o vento vai realmente persegui-lo e matá-lo, e se desespera com a calma da única pessoa que, aparentemente, poderia ajudar o homem perseguido pelo vento. A vítima telefona ao amigo, avisando-o de que o vento já derrubou umas tantas paredes da casa, de que já está perto, de que há pouca esperança de fuga, mas o amigo continua a jogar cartas. E o leitor se angustia com essa indiferença, esquecendo-se de que, ao sentir os problemas do homem perseguido pelo vento, está aceitando o absurdo e rejeitando a própria lógica consubstanciada na calma normal do amigo que joga cartas. Em Bradbury, o leitor que aceita o absurdo, não o tenta explicar pela lógica, nem recorre a símbolos, como, por exemplo, em Kafka ou Ionesco. Nestes dois últimos, o leitor recusa o absurdo e lança mão de recursos do raciocínio para explicar o absurdo através de símbolos lógicos. É difícil aceitar, sem recurso à simbologia, a transformação de um homem num inseto gigantesco, ou de um homem num rinoceronte. E é difícil aceitar que um homem possa voar com asas próprias, como no caso do tio Einar de Bradbury. Mas em Ionesco e Kafka, o leitor não tem escolha possível. O absurdo é uma imposição cuja única escapatória é a interpretação numa complicada simbologia. Em Bradbury, o leitor aceita voluntariamente as hipóteses absurdas, sem interpretar o episódio, sem sequer defender sua própria escolha, numa recusa voluntária da lógica. Em Ionesco e Kafka, é o absurdo que se transforma em lógica pela interpretação. Em Bradbury, é o absurdo pelo absurdo. Em Kafka, embora os personagens vivam problemas enormes ( o de Joseh K., por exemplo, em O Processo), é um leitor que se sente angustiado. O personagem vive seu drama num quase indiferentismo e, não raro, sente prazer em ser vítima. O personagem inseto sente prazer em sua nova forma. Mas é o leitor que sofre o drama e se angustia. Em Bradbury, há um contágio de angústia e de desespero. Há uma maior identificação de sentimentos, porque não é apenas o personagem que sofre, mas o leitor também. Mas não existe apenas piedade, nessa identificação de sentimentos. Se em América o jovem é deserdado por uma maldade bem sucedida, se em O Castelo, o personagem nunca chega a conhecer os seus próprios patrões ou o castelo, tais problemas nunca chegam a constituir motivo de angústia ou sofrimento para eles próprios, os personagens. É o leitor que sente o drama do rapaz deserdado numa cidade imensa e desconhecida, ou o problema terrível do agrimensor na neve e no frio. E aí existe piedade.

Em Murilo Rubião, em todos os vinte contos desta obra, a conclusão é um grito lírico de amargura e pessimismo, de derrota e sofrimento, ante a impossibilidade de fuga à monótona rotina da vida. Mesmo em Bradbury, o absurdo pode ser posto de lado, pois há sempre um elemento lógico em seus contos que pode ser desenvolvido numa interpretação racional. Mas em Murilo Rubião, o absurdo não se explica pela lógica, mas pelo próprio absurdo da vida, a quem ninguém pode fugir, e tão inexplicável quanto a própria vida. A única mensagem que pode aparecer otimista é a do conto “O Pirotécnico Zacarias” (p. 149): “Mas, amanhã, o dia poderá nascer mais claro, o sol brilhando como jamais brilhou para alguém, e, nesse dia, os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, vivo mais do que eles. Porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos.”

No entanto, Zacarias já está morto. E esse aparente otimismo é o que nasce da libertação pela morte: “minha capacidade de amar (...) é bem maior que a de todos os seres que por mim passam assustados, certos de que caminham ao lado de um fantasma.” (p. 149).
Murilo Rubião também é satírico. O ex-mágico, na impossibilidade de matar-se, achou o melhor dos suicídios: o funcionalismo público, porque “ser funcionário público era suicidar-se a longo prazo” (p. 177). E essa sátira está perfeitamente adequada para a mensagem do autor: a impossibilidade de se escapar à rotina da vida. E o que há de mais rotineiro e monótono que a função burocrática que destrói o mundo mágico de um homem?


CARVALHO, José Augusto. “De Kafka a Rubião”. “UFES” – Revista de Cultura. Vitória: 2º semestre de 1967


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