Murilo Rubião e a biblioteca mágica

Roniere Menezes

Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. (Ítalo Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio)


Um excelente espaço para se conhecer melhor a fortuna crítica sobre Murilo Rubião é o Acervo de Escritores Mineiros, sediado na Biblioteca Central da UFMG. Os acervos – agora abertos a públicos maiores, com suas presenças virtuais na internet – dizem respeito a lugares que podem impulsionar os pesquisadores a novas descobertas. O site www.murilorubiao.com.br é uma mostra digital da babélica biblioteca pessoal de Murilo, que, além de centenas de documentos, cartas, fotos, textos de entrevistas e ensaios críticos, guarda objetos pessoais, quadros, móveis de seu escritório de trabalho e cerca de 4.000 livros.

Neste ensaio esboçaremos uma pequena biografia literária do escritor mineiro, utilizando-nos de trechos de algumas cartas e de uma crônica jornalística cuidadosamente guardadas por Murilo e que, agora, saem das gavetas do armário de aço para contarem um pouco da vida do autor.

Por meio das cartas e dos demais textos presentes no acervo, conhecemos melhor não só o escritor, nascido em Silvestre Ferraz, hoje Carmo de Minas, no dia 1º de julho de 1916, mas também aspectos fundamentais da arte e da cultura mineira e brasileira do século XX. As várias instituições em que Murilo trabalhou, na maioria das vezes chefiando ou dirigindo, podem também ter suas histórias recontadas a partir do acervo particular do escritor. Há um amplo material (fotografias, documentos, recortes de jornais da época, cartas) sobre a Rádio Inconfidência, A FAOP ( Fundação de Arte de Ouro Preto), o governo JK, o Conselho Estadual de Cultura, a Escola Guignard e sobre o 1º e o 2º Congresso Brasileiro de Escritores. Mas o volume maior dos documentos presentes no acervo refere-se ao Suplemento Literário. Além de uma coleção com todos os exemplares do primeiro volume, até 1991, ano da morte do escritor, há uma grande corrrespondência com escritores, poetas, críticos literários consolidados e novos autores em busca de espaço para publicação.

O extremo cuidado de Murilo com a organização de seu arquivo demonstra, por exemplo, em relação à classificação das pastas com as correspondências recebidas de seu círculo de amizade, a peculiar classificação: “amigo, “muito amigo”, “velho amigo”, “bom amigo”, etc. Notamos aí, ao mesmo tempo, a busca de um rigor arquivístico e uma ironia sorrateira que acaba por evidenciar a fadiga e a insensatez do trabalho dos inventariadores. Vale lembrar, nesse sentido, o interesse do contista em recortar e guardar qualquer referência a ele – mesmo as mais triviais – que fosse publicada em jornais e revistas. Tentativa de legar ao futuro um perfil biográfico elaborado a partir de fragmentos dispersos, sem se desprezar os rastros banais do cotidiano.

A grande rede hipertextual trançada por Murilo Rubião diz muito de seu caráter de homem público, amigo de críticos, escritores e poetas representantes das mais diversas gerações e correntes artístico-intelectuais. Mário de Andrade, ao ler alguns dos originais do escritor, em 16 de junho de 1943, assim comentava: “(...) o mais estranho é o seu dom forte de impor o caso irreal. O mesmo dom de um Kafka: a gente não se preocupa mais, e preso pelo conto, vai lendo e aceitando o irreal como se fosse real, sem nenhuma reação a mais.” Já em 27 de dezembro de 1943, Mário diz, em nova carta a Murilo: “(...) eu fico sempre numa enorme dificuldade de dar opinião pra esse gênero de criação em prosa a que estou denominando aqui de baseada no princípio da fantasia. O próprio Kafka, confesso a você que freqüentemente me deixa numa insatisfação danada”.

Esses dois fragmentos tornam-se interessantes para se pensar sobre a recepção crítica de Murilo pois as cartas, em forma de correspondências privadas entre amigos, já demonstram características que iriam marcar os futuros estudos sobre Rubião, como por exemplo a comparação com Kafka e a dificuldade de compreensão do novo gênero que o escritor mineiro inaugurava, enquanto conjunto de textos, na literatura brasileira – o fantástico.

O crítico Antonio Candido irá refazer suas primeiras impressões sobre Murilo e em carta ao escritor, datada de 25 de fevereiro de 1967, escreve: “li Os Dragões, com o grande prazer de reencontrar quase todo O Ex-Mágico e mais algumas excelentes novidades. (...) lendo há anos de distância da primeira experiência de leitura, fiquei admirado, sobretudo, com o caráter precursor de muitos aspectos que não conhecíamos então, ou que só depois apareceram na literatura.”

Murilo recebe uma carta de Carlos Drummond de Andrade, do Rio de Janeiro, com a data de 09 de novembro de 1947, parabenizando-o pelo lançamento e fazendo, numa simples correspondência, comentários profundamente lúcidos sobre a obra do contista: “O Ex-Mágico é uma delícia. (...) E por mais absurdas que sejam as novas relações estabelecidas por V. entre as coisas e o homem, a verdade é que elas não são mais absurdas do que as condições de vida normal, controlada pela razão.”

As corrrespondências também trazem discussões filosóficas sobre a existência, a vida e a morte, sobre a fundamental presença da amizade nos momentos difíceis. Em carta de 07 de março de 1949, Fernando Sabino escreve, do Rio de Janeiro, ao amigo que vivia em Belo Horizonte. Na época, Murilo estava bastante deprimido pela morte do pai. O pai de Sabino também havia morrido há pouco tempo. Daí a forte interação entre os dois, nessa reflexão ao mesmo tempo trágica e terna sobre os absurdos da existência:


Hoje está fazendo cinco meses que meu Pai morreu. Um pai é uma perda que o tempo faz aumentar – eis alguma coisa que o tempo está me ensinando. E que você também vai aprender. E o bem que o Pai nos faz se prolonga além do tempo e da morte – a própria morte vem a ser para nós mais um gesto de carinho, o último, o permanente ensinamento – um pai que morre nos ensina a morrer. Esta a lição que nos fica, como uma herança, para ser vivida até que chegue a nossa vez. Você não sentiu que finalmente se tornou em homem, que finalmente cortou a última corrente que o prendia à infância como um escravo, para poder recuperá-la em liberdade? (...) Um pai que morre é a permanência do amor no filho, é uma esperança além da morte.


Se a ordem do acervo nos possibilita retratos tristonhos da vida privada, também pode nos revelar registros pitorescos da vida belo-horizontina. É o que podemos ver em uma crônica escrita pela jornalista e futura professora da Faculdade de Letras da UFMG, Maria Luiza Ramos, no Diário de Minas, em 07 de outubro de 1951. Texto que recebe o título de “A ‘Academia’ da Liberdade”. Maria Luiza critica a construção inacabada do Palácio das Artes e, em seguida, fala sobre o fato de JK ter se tomado de amores pelas belas letras, cercando-se, de forma “útil” de intelectuais mineiros, o que seria fato inédito em Minas:


O palácio da Liberdade tomou ares de academia (...)
Quando, há pouco, fui a palácio, querendo falar com o Chefe de Gabinete do Governador (...) e encontrei o Murilo Rubião numa salinha apertada e entulhada de calhamaços de processos, confesso que tive pena. Fiquei procurando naquele homem que falava em dois telefonemas ao mesmo tempo, dando ordens e assinando papéis, o Murilo artista que escrevia os contos mais malucos que se possa imaginar.
Sim, porque o atual chefe de gabinete é escritor premiado pela Academia Brasileira de Letras, pelo seu livro de contos “O ex-mágico”, publicado em 1947, no Rio de Janeiro.
No meio daquela barulhada de máquinas de escrever e campainhas, fiquei pensando se ele se sentiria como a sua personagem que, tendo entrado para o Serviço de uma Secretaria de Estado, perdeu a sua faculdade sobrenatural de fazer mágicas – a burocracia a havia aniquilado – e o coitado passou o resto da vida a se lastimar: “sem os antigos e miraculosos dons de mago, não posso abandonar a pior das profissões humanas”...


Mas a jornalista afirma que, felizmente, a burocracia ainda não havia atuado sobre Murilo que estava anunciando para breve a publicação do livro Os dragões.

Além de apresentar-se como Estado progressista, moderno, Minas Gerais também oferece ao escritor, como material a ser retrabalhado, as histórias de fantasmas das pequenas cidades do interior e as instigantes anedotas compartilhadas pelo homem simples. Transpostas para a escritura muriliana, esses enredos populares de base oral algumas vezes apresentam quadros de comportamento cômico e superficial diante de fatos absurdos do cotidiano, outras vezes acabam por revelar uma amarga ironia machadiana.

Em carta de Otto Lara Resende, do Rio de Janeiro, datada de 30 de setembro de 1948, o amigo analisa alguns contos de Rubião e assinala quão importante seria, para Murilo, desvincilhar-se das paisagens mineiras e ir viver fora do Estado. Otto Lara trata, com seu inconfundível sarcasmo, de uma gente mesquinha que vive entre as montanhas: “Você é o único mineiro fiel, o único cristão dessas montanhas que estrangulam a alma dessa gente mesquinha e fria, de coração de pedra num peito de gelo. Você pulsa de tristeza e desamparo, dói em mim, você me dói, meu velho Murilo, mas ainda bem.”

As narrativas históricas e ficcionais de Murilo deixam de ser escritas no dia 16 de setembro de 1991, quando o escritor morre, aos 75 anos, quatro dias antes da inauguração de uma exposição que estava sendo preparada para homenagear o autor e a sua obra, no Palácio das Artes, com vídeos, conferências e objetos artísticos.

O arquivo de Rubião pode funcionar como metáfora de sua própria escritura. O espaço literário de Murilo, norteado por constantes repetições e reescritas parece procurar encontrar algum sentido original, primeiro, alguma forma perfeita; dados que se sabe, de antemão, jamais alcançáveis. O marujo Murilo guiava sua arca-babélica com o mesmo olhar estrábico e acolhedor que visualizamos em algumas fotografias onde o autor aparece entre livros e amigos: ora demonstrando detida atenção às particularidades do mundo prático e burocrático, ora deixando a imaginação boiar sobre mundos inventados. Sempre desconfiando, mineiramente, das opções fáceis, das fórmulas prontas; sempre aberto ao diálogo com idéias e sensações próprias a um território estrangeiro.

Esse princípio existencial e estético dissemina-se por todo o trabalho literário do autor. Nesse sentido, Murilo termina por atar, em seus contos, os fios da clareza do discurso narrativo com os da ilogicidade da temática narrada, como apontara o crítico Davi Arrigucci Júnior. Moldando sua produção artística com inegável maestria, o escritor abre frestas para percebermos melhor o que pode haver de invisível e de inventivo para além das fronteiras da sociedade do controle em que vivemos.

Por meio dos textos e hipertextos da biblioteca muriliana, e também do site www.murilorubiao.com.br, podemos conhecer singulares desdobramentos da vida do autor, seus momentos de conquistas e de perdas. Desvendando os espaços, encontramos um intelectual que acreditava nos jovens talentos e na tradição artística mineira, que esteve à frente do governo JK, em Minas, mas posteriormente passou por momentos de angústia frente ao descaso do Estado com a produção cultural. Percorrendo os ambientes reais e virtuais relacionados à vida e à obra do escritor, aproximamos-nos de um ator diferencial que, no início da carreira literária, passou anos sem que ninguém quisesse publicá-lo, mas como resposta criou o Suplemento Literário para publicar todos aqueles que tinham algo a dizer. Murilo foi um engenheiro-poeta que planejava infindáveis edifícios mesclando estruturas sólidas a planos oníricos. Foi um mágico da linguagem que gostava de viver só, em Belo Horizonte, mas sempre nos bares, cercado por amigos. Ao escrever, repetia, repetia, para se tornar cada vez mais surpreendente.


[Ensaio publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais – Belo Horizonte, Julho/Agosto/2010.] Roniere Menezes é autor do livro O traço, a letra e a bossa: literatura e diplomacia em Cabral, Rosa e Vinicius; pesquisador do Acervo de Escritores Mineiros da UFMG e professor do Mestrado em Estudos de Linguagens do CEFET-MG.


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Murilo Rubião: um clássico do conto fantástico
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