A biblioteca fantástica de Murilo Rubião

Vera Lúcia Andrade

Em setembro de 1991, preparava-se em Belo Horizonte um grande evento: a exposição Murilo Rubião, primeira de uma série programada pela Secretaria Municipal de Cultura, dentro do projeto por ela desenvolvido e denominado “Memória Viva”, que se destinava justamente a homenagear as figuras representativas da cultura mineira.

No dia 12 de setembro, uma quinta-feira, um vídeo sobre “O pirotécnico Zacarias”, de Rodolfo Magalhães, passado em um telão armado no saguão do 2º andar do Edifício Maletta, prédio onde morava Murilo Rubião, marcava o início das comemorações em homenagem a esse escritor que teve um papel fundamental e de liderança dentro do círculo cultural belorizontino. E lá estava ele, abatido pela doença mas muito emocionado com a homenagem dos amigos que ali estavam para cumprimentá-lo.

Tudo estava sendo preparado há muitos meses e adiado várias vezes por motivos diversos, de tal forma que a expectativa era muito grande. O próprio Murilo ajudara a conceber a exposição e colaborara na seleção o material a ser exposto. Lembro-me bem quando em fevereiro de 1991 estive em sua casa, na companhia de duas colegas, e ele nos falou com entusiasmo da programação que estava sendo feita (vídeo, exposição, depoimento, mesas-redondas), mostrando-nos recortes e fotografias que ele mesmo colara e selecionara para a exposição. Comentava com animação e emoção cada uma delas, revivendo as histórias, relembrando os amigos.

A belíssima exposição, com curadoria de Márcio Sampaio, aguardava o dia 20 de setembro para ser aberta ao público. Mas eis que no dia 16, como num passe de mágica, Murilo desaparece de cena e entra para a história, como bem simbolizou a foto, em tamanho natural (um perfeito trompe-l’ oeil), que foi então incluída na exposição, assinalando o seu final: de costas, sem paletó (fato totalmente inusual para aquele homem sempre elegante, constantemente de terno), Murilo, sobre uma pontezinha do Parque Municipal, caminha, ensaiando o último passo.

Pouco mais de um mês depois de sua morte, seu acervo chegava ao Centro de Estudos Literários (CEL) da Faculdade de Letras da UFMG para juntar-se ao acervo de Henriqueta Lisboa, compondo, com esse e outros, o acervo de escritores mineiros organizado e dirigido por aquele centro de estudos.
Depois de Borges com sua “Biblioteca de Babel” é quase inevitável pensar-se o espaço da biblioteca como um grande livro. É a essa imagem que recorrerei para falar do acervo de Murilo Rubião, doado ainda em vida pelo próprio escritor que, no entanto, não teve oportunidade de finalizar o processo de doação. Numa leitura rápida como esta se propõe, manusearei este grande livro, a biblioteca de Murilo Rubião, tentando ler e dar a conhecer não só o escritor, já muito conhecido, mas principalmente o homem e o inelectual atuante que foi.

Este acervo, constituído por biblioteca, hemeroteca, documentos, correspondências, fotografias, memorabilia, objetos de arte e outros objetos pessoais do escritor, revela-se como um espaço privilegiado de pesquisa e reflexão, permitindo-nos recuperar parte da história cultural e literária de Minas e do Brasil.
Com cerca de 4.000 volumes, na maioria encadernados, a biblioteca de Murilo Rubião ainda conserva a mesma organização e disposição dadas pelo autor nas suas estantes, que também fazem parte do acervo, já se pressentindo nesta organização o homem cuidadoso, detalhista e minucioso que se revelará em sua ficção como o escritor preocupado com a estruturação de seus textos, feitos e desfeitos, escritos e reescritos.

Numa rápida observação dessa biblioteca, podemos identificar a preferência de Murilo por organizá-la na diferenciação de gêneros literários: de um lado, os livros de poesia; de outro, os de ficção, de outro ainda os livros de crítica literária e assim por diante. Da mesma forma, livros de um mesmo autor se encontram sempre na mesma prateleira. Uma das estantes chama-nos particularmente a atenção por ser a única com portas de vidro onde o autor colocou as obras de crítica literária que versam principalmente sobre a sua produção, ou aquelas que fazem referência a ela. Tais referências estão destacadas por marcas feitas pelo próprio titular do acervo, numa demonstração da consciência que Murilo tinha da dimensão histórica de sua obra, preservando ao máximo todo e qualquer tipo de documentação.

Quanto aos livros que compõem essa biblioteca, são basicamente obras da literatura nacional e universal (sobretudo literatura brasileira), que nos revelam, por exemplo, o Murilo leitor de Machado a quem dedica um lugar de destaque em suas estantes: no alto, em uma delas, as obras completas de Machado que, sintomaticamente, são seguidas, nas prateleiras de baixo, pelos mestres da língua portuguesa (dicionários, gramáticas, manuais, etc.).
Murilo, na verdade, se inscreve na tradição de Machado de quem herdou a ironia amarga e sobre quem, em uma de suas entrevistas, declarou:

minha opção pelo fantástico foi herança da infância, das intermináveis leituras de contos de fadas, do Dom Quixote, da História Sagrada e das Mil e uma Noites. Ainda: porque sou um sujeito que acredita no que está além da rotina (...). Quem não acredita no mistério não faz literatura fantástica. Aliás, o fantástico já existia entre nós, mas só no Machado de Assis. Eu cheguei ao fantástico exatamente por ter começado pelo Machado. Sem ele, eu não chegaria ao fantástico nunca.

Dois outros autores, igualmente marcados pelo insólito e com os quais Murilo guarda afinidades (ainda que se diferencie bastante deles), Cornélio Pena e Aníbal Machado ocupam também um lugar estratégico nas estantes da biblioteca de Murilo, onde, coincidentemente, ou não, se encontram as obras de um, ao lado das obras do outro.

Muitos dos livros que pertencem à biblioteca de Murilo Rubião são ainda obras raras e esgotadas, exemplares de primeira edição, muitos com dedicatória ao escritor (como alguns livros de Guimarães Rosa, Clarice, J.J. Veiga, Drummond, João Cabral, Alphonsus de Guimarães, Paulo Mendes Campos etc.), o que nos permite entrever a sua paixão de bibliófilo, bem como comprovar sua participação nos meios literários nacionais, como nos podem demonstrar os exemplares de primeira edição de Macunaíma e Losango Cáqui, de Mário de Andrade, autografados pelo autor e dedicados a Murilo Rubião em 1944 – momento de maior proximidade e de influência direta de Mário sobre os jovens escritores belorizontinos da época.

Ao lado das obras de literatura há também no acervo obras de referência, obras de crítica literária, livros sobre língua portuguesa, linguagem, cultura e artes em geral, destacando-se dentre eles as obras sobre a história e a cultura mineira.

Sua faceta de intelectual ativo, ligado aos acontecimentos culturais de sua época, transparece também em sua coleção de revistas e jornais, nacionais e estrangeiros, que versam sobre literatura, além de recortes colecionados e arquivados pelo autor sobre assuntos diversos. Destaca-se, porém, dentre eles a sua coleção do Suplemento Literário de Minas Gerais que, como um de seus fundadores, em 1966, e seu primeiro editor, Murilo colecionou até o ano de 1991, ano de sua morte.

O Suplemento Literário do Minas Gerais, na verdade, conheceu seus melhores momentos justamente quando esteve nas mãos de Murilo. Com uma linha editorial de vanguarda em seu jornal, Murilo foi o responsável pela divulgação de trabalhos críticos não só de iniciantes ligados ao meio universitário, mas também de críticos consagrados nacionalmente, além de ter lançado jovens poetas e escritores mineiros que depois se projetaram nacionalmente, como Luiz Vilela, Jaime Prado Gouvêa, Henry Corrêa de Araújo, Ângelo Oswaldo, Adão Ventura e outros. Nesse sentido, é significativa a afirmação de Humberto Werneck em O Desatino da Rapaziada, segundo o qual Murilo Rubião não se limitou a criar um magnífico suplemento. Criou também um ponto de convergência, encontro e crescimento para os diversos grupos de jovens escritores e artistas plásticos que desordenadamente chegavam à cena. Murilo foi, assim, o eixo natural em torno do qual se organizou – e ganhou sentido – essa federação a que, não por acaso, se deu mais tarde o nome de Geração Suplemento. É mais uma dívida que nós, integrantes dessa geração, já devedores do grande escritor, temos para com Murilo Rubião.

No capítulo de documentos, o acervo de Murilo Rubião é particularmente rico. São documentos referentes à sua vida pessoal, à sua produção literária e à sua vida pública. A maior parte dessa documentação já havia sido organizada pelo autor em pastas e arquivos. Tal organização está sendo mantida até que se registrem e se observem os critérios utilizados pelo escritor, de tal forma que se consiga otimizá-la para um melhor acesso ao acervo.

Os documentos pessoais do escritor, constantes no acervo, são os mais diversos (fotos, agendas, carteira de identidade, carteira da ordem dos advogados, carteira de jornalista, carteira da Associação Profissional dos Escritores do Estado de Minas Gerais, anotações avulsas, lembretes, trechos de entrevistas dadas etc.) e nos trazem informações sobre vários momentos e instâncias de sua vida pessoal.

Um curioso arquivo organizado pelo titular é o de referência a escritores e críticos literários em que cada ficha contém: nome completo, relação estabelecida por Murilo Rubião com a pessoa; uma especificação das atividades exercidas pela pessoa (seguidas de adjetivos de valor); endereço comercial e particular; relação de livros enviados, seguida de indicações das manifestações de agradecimentos recebida, com especificações de gaveta e pasta onde cada correspondência está situada em seu acervo.

Tal arquivo (organizado de A a Z, onde vemos desfilar nomes como os de Otto Lara Resende, Otávio de Faria, Osman Lins, Oswaldino Marques, Niemayer, Nélida Piñon, Marques Rebelo, Paulo Rónai, Wilson Martins etc.) permite-nos, assim, não só ter uma visão do círculo de amigos de Murilo (que ali aparecem classificados como “amigo”, “muito amigo”, “velho amigo”, “bom amigo” etc.) mas também fornece um material interessante para se estudar a recepção de sua obra em sua época. Para este estudo são particularmente importantes as correspondências a ele enviadas por ocasião de suas publicações; críticas e resenhas de seus livros publicadas por outros e anotações bio-bibliográficas para entrevista e para estabelecer material informativo a críticos literários.

Enquanto homem público Murilo Rubião exerceu várias atividades (foi redator da Folha de Minas em 1939, da revista Belo Horizonte, em 1940; diretor da Rádio Inconfidência de Minas Gerais em 1943; chefe da delegação de escritores mineiros no I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado em São Paulo, em 1945, do qual foi um dos vice-presidentes; Presidente da Associação Brasileira de Escritores – seção Minas Gerais – também em 1945; Chefe de Divisão da Secretaria da Agricultura e Diretor do Serviço de Rádio-Difusão do Estado de Minas Gerais, em 1948; Chefe do Serviço de Documentação da Comissão do Vale do São Francisco no Rio de Janeiro, em 1949; Oficial de Gabinete do Governador Juscelino Kubitscheck e Diretor interino da Imprensa Oficial e da Folha de Minas, em 1951; Chefe do Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil em Madri, e Adido junto à Embaixada do Brasil na Espanha, em 1956; Membro da delegação de nosso país ao 2º Congresso de Cooperação Intelectual, realizado em Santander, Espanha, também em 1956; organizador do Suplemento Literário do Minas Gerais e seu primeiro editor, em 1966; Chefe do Serviço de Rádio-Difusão do Estado e Diretor da Escola de Belas Artes e Artes Gráficas de Belo Horizonte – Escola Guignard, em 1967; Membro do Conselho Estadual de Cultura, em 1968; Chefe do Departamento de Publicações e Divulgação da Imprensa Oficial, Presidente da Comissão de Apreciação do Mérito das Publicações da Imprensa Oficial, Presidente da Fundação de Arte de Ouro Preto, em 1969; Presidente da Fundação Madrigal Renascentista, em 1971; em 1975, é promovido a Diretor de Publicações e Divulgação da Imprensa Oficial do Estado e aposenta-se no mesmo ano.

Participante ativo de tantas instituições, seu acervo possui importante documentação acerca de sua vida pública e das próprias instituições das quais foi membro, permitindo que se recupere uma boa parcela da vida pública de Minas Gerais da época. Destacam-se entre tais documentos uma vasta documentação sobre a Associação Brasileira de Escritores, principalmente acerca da realização do 1º e 2º Congresso Brasileiro de Escritores: recortes dos principais jornais da época, cartas, telegramas, fotografias, além daqueles relativos à sua participação na Fundação de Arte de Ouro Preto, no Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais, na Rádio Inconfidência e na Escola Guignard, entre outros. O maior volume documental sobre sua participação na vida pública é, no entanto, o que se refere ao Suplemento Literário de Minas Gerais: uma vasta correspondência de escritores e críticos literários demonstrando as suas opiniões sobre essa publicação, na sua maioria manifestações de apreço, assim como correspondência ativa e passiva com colaboradores.
No capítulo “Correspondências”, o acervo conta também com um volume significativo de cartas, igualmente organizadas em pastas pelo próprio Murilo. São pastas e pastas que Murilo classifica de forma bastante pessoal. Nesse sentido é especialmente curiosa a separação arquivístiva feita pelo autor na pasta “Correspondência de amigas”, ao lado de outras denominadas por Murilo de “Com escritores e intelectuais de 1940 a 1950”, “Com escritores diversos, de outubro de 84 a...”, por exemplo. Existem ainda pastas como a de nº I intitulada “Do Ex-Mágico: de 1947 a 1949” – “De Os Dragões: 1965 a 1974”, e a de II, denominada “De O Pirotécnico Zacarias: 1974 a 1977.” De O Convidado: 1975 a 1979”, em que Murilo reuniu toda a correspondência a respeito das referidas obras.

Dentre as correspondências recebidas por Murilo destacam-se, porém, as de Mário de Andrade (algumas ainda inéditas) e as de Fernando Sabino que oferecem um bom material para a recomposição da vida literária de sua época.

Nesse aspecto, também as fotografias existentes no acervo são bastante ilustrativas, como aquela tirada no Parque Municipal de Belo Horizonte, em 15 de setembro de 1944, que registra a visita de Mário aos mineiros: lá estão, em grande estilo, Alphonsus de Guimarães Filho, Hélio Pellegrino, Mário de Andrade e Murilo Rubião; ou aquela outra de 1943, também em Belo Horizonte, que assinala o encontro dos velhos amigos mineiros: Murilo Rubião, Emílio Moura, Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos.

O lançamento do 1º livro de Luiz Vilela, Tremor de Terra, também é registrado em foto de abril de 1967, da qual participam vários escritores e artistas da chamada Geração Suplemento (Vilela, Sérgio Danilo, Adão Ventura, Affonso Ávila, José Márcio Penido, Libério Neves, Márcio Sampaio), além de Laís Corrêa de Araújo.

O jovem grupo mineiro, que revolucionou as letras em sua época, é ainda imortalizado em foto de 3/02/68 que historia o lançamento do número especial do Suplemento Literário do Minas Gerais – Os Novos. Nela figuram: Fábio Lucas, Ildeu Brandão, Luiz Gonzaga Vieira, Humberto Werneck, Luiz Vilela, José Renato Pimentel, Murilo Rubião, Autran Dourado e Franklin Teixeira de Salles, em pé e, sentados, Carlos Roberto Pellegrino, José Márcio Penido e Sérgio Danilo.

“Fotos de família” ( de 1915 a...), “fotos minhas isoladas, e caricaturas” (1916/1968 a ...), “os amigos” (de 1932 a...), “vida escolar” (de 1933 a...), “Folha de Minas” (de 1940 a 1951), “as amigas” (de 1938 a ...), “escritores” (de 1939 a 1950), “escritores” (de 1952 a ...), “Rádio Inconfidência” (de 1944 a 1968), “Espanha” (de 1956 a 1960), como são denominados os álbuns de retratos, vão desenhando e revelando assim o perfil do homem, do escritor, do intelectual e do homem público que foi Murilo Rubião, sempre cercado de amigos.

Completando a imagem do escritor reconhecido pelos de sua época, o acervo dispõe ainda de um número considerável de diplomas, certificados, placas, medalhas, comendas, bem como retratos de Murilo pintados por renomados artistas mineiros como Inimá de Paula e Petrônio Bax.
Finalmente, sua mesa, sua máquina de escrever, estantes, pastas James Bond, cinzeiros e lixeira ali também comparecem para ajudar a recompor o ambiente de trabalho do escritor, como se aguardassem o seu dono.

A grande homenagem ao vivo, do Projeto “Memória Viva”, nós, os mineiros, ficamos lhe devendo, mas Murilo, através do seu acervo, como bom mágico, permanece vivo em nossa memória.


ANDRADE, Vera. In: MELO MIRANDA, Wander (Org.) A trama do arquivo. Belo Horizonte: Ed. UFMG, Centro de Estudos Literários FALE/UFMG, 1995, p. 45 a 52.


Acervo de estranhas histórias
Ensaios
A biblioteca fantástica de Murilo Rubião
A recepção tardia do moderno
De Kafka a Rubião
Literatura comentada: um mestre do fantástico
Murilo Rubião e a biblioteca mágica
Murilo Rubião: um clássico do conto fantástico
A parábola inconformada
Uma poética da morbidez
Estudos e referências em livros
Teses
Trabalho de conclusão de curso
Acervo de Escritores Mineiros
 
© 2012 . Murilo Rubião . Todos os direitos reservados